   CONTATOS COM O AUTOR

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                CopyritEditora Academia de Inteligncia
                                    2000



Produtora Executiva
Suleima Cabrera Farhate Cury

Capa e projeto grfico
Lau Baptista

Edio de texto
Beatriz Elena Meirelles Nogueira

Reviso
        J.
Cludia J. Alves Caetano

Editorao eletrnica
lau.dgn - design & comunicao

 C982p
         Cury, Augusto Jorge
            A pior priso do mundo / Augusto Jorge Cury - So Paulo
         Ed. Academia de Inteligncia, 2000
            ...p.; cm

            ISBN 85-87643-03-7

            1. Drogas - Abuso - Aspectos psicolgicos. 2. Toxicomania.
         3. Drogas - Efeitos fisiolgicos. 1. Ttulo

                                                              CDD362.293




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       Dedico este livro a todos
   aqueles que no desistem de si
   mesmos, que reconhecem o seu
crcere e descobriram que a vida  o
 maior de todos os espetculos  um
  espetculo dado pelo Autor da
existncia. queles que, mesmo com
    lgrimas, anseiam pelo direito
        de ser livres e felizes...
Prefcio --------------------------------------------------------- 09
Captulo 1
A Pior Priso do Mundo ------------------------------------ 17
Prisioneiros no territrio da emoo
Captulo 2
Prisioneiros e Infelizes -------------------------------------- 29
Perdendo a capacidade de sentir prazer
Captulo 3
O Crcere da Dependncia ------------------------------- 57
O sofrimento dos que buscam liberdade, mas acabam numa priso
Captulo 4
O Funcionamento da Mente ------------------------------- 71
A Cincia pouco pesquisa sobre o mais grave problema social
Captulo 5
Conceitos e Definies -------------------------------------- 91
Cientfica e psicologicamente, o que so as drogas?
Captulo 6
As Causas Psquicas, Sociai s e Genticas -------------- 103
                     Sociai
Como algum se torna dependente de drogas?
Captulo 7
A Preveno no Ambiente Familiar --------------------- 125
O dilogo familiar  a melhor preveno contra vrios males
Captulo 8 -------------------------------------------------------- 141
                                 Pais
Revendo a Relao entre Pais e Filhos     Filhos
Princpios fundamentais para ajudar os jovens a romperem o crcere da emoo
Captulo 9
A Terapia Multifocal ----------------------------------------- 155
  Terapia
Uma ajuda importante para romper o crcere da emoo
Captulo 10
O Sentido da Vida -------------------------------------------- 181
Valorizar a vida  a grande prova de sabedoria
                                  Augusto Jorge Cury




        Qual  a pior priso do mundo?  aquela
        que aprisiona o ser humano por fora ou
por dentro?  aquela que acorrenta seu corpo ou
aprisiona sua alma?
      A pior priso do mundo no  a que restringe
os movimentos do corpo, mas a que confina os
pensamentos e controla a emoo e, conse-
qentemente, engessa a capacidade de pensar e
impede a poesia da vida. Diversas doenas
psquicas causam esse tipo de priso, entre as quais
a dependncia psicolgica das drogas. Nenhuma
espcie ama tanto a liberdade como a espcie
humana, e nenhuma outra consegue perd-la com
mais facilidade.
      Faremos, neste livro, uma das mais belas
viagens  uma viagem para dentro da mente
humana. Compreenderemos o seu funcionamento

                                                 11
A pior priso do mundo

bsico e como se desenvolve a pior priso do
mundo.
      Discorrerei sobre alguns componentes
construtores do fenmeno da inteligncia. Perguntas
intrigantes ligadas s dificuldades que o homem
tem em ser lder do seu prprio mundo sero
respondidas. Por que o homem governa com
relativa habilidade o mundo que o rodeia, mas tem
enorme dificuldade de administrar seus
pensamentos negativos, suas reaes impulsivas,
sua dor emocional? Por que ele  to sbrio quando
est numa esfera tranqila, mas perde a lucidez e
a coerncia quando est sob focos de tenso?
      A Pior Priso do Mundo  um livro com textos
extrados de O Crcere da Emoo, que  um livro
em que descrevo os mais diversos crceres que
podem ser produzidos no territrio da emoo: o
crcere da depresso, dos transtornos obsessivos,
da sndrome do pnico, da timidez, da ansiedade,
do medo de expor as idias em pblico, do cime
fatal. Entre esses crceres est o crcere das drogas.
O Crcere da Emoo ser publicado no incio de
2001, todavia, senti que deveria publicar
primeiramente A Pior Priso do Mundo, enfatizando
                 drogas,
o crcere das drogas em virtude da necessidade
urgente de orientaes precisas sobre uma das mais
graves e epidmicas doenas da atualidade: a
dependncia psicolgica de drogas.
      H quase vinte anos, dedico parte significativa
do meu tempo para pesquisar o funcionamento da
mente e o desenvolvimento da inteligncia no
12
                                   Augusto Jorge Cury

campo da Psicologia e da Educao e para exercer
a Psiquiatria e a Psicoterapia. No farei uma
descrio sistemtica das drogas enquanto
substncias qumicas, antes, discorrerei sobre um
assunto mais importante, concernente  minha rea
de pesquisa, que  o funcionamento da mente    mente.
Estudaremos o que as drogas causam no complexo
funcionamento da mente humana e por que elas
causam o mais drstico aprisionamento humano.
Tambm estudaremos quais so os princpios que
devem regular as relaes entre pais e filhos e entre
professores e alunos. Ainda estudaremos a
necessidade de estimular o desenvolvimento
saudvel da personalidade dos jovens, livre de
drogas e de outras doenas psquicas, bem como
os procedimentos que devemos ter quando um
jovem j est fazendo o uso de drogas.
     Seremos ajudados a enxergar o mundo das
drogas sob outra perspectiva, sob uma tica mais
grave do que sempre imaginamos. Por exemplo: o
uso contnuo de drogas pode queimar etapas da
vida de um jovem, fazendo com que ele en-
velhea no nico lugar em que no  permitido
envelhecer  o territrio da emoo. Infelizmente,
a dependncia de drogas tem gerado velhos no
           jovens.
corpo de jovens Os mecanismos que descreverei
so universais e esto presentes no desenvolvimento
de muitas doenas psquicas.
      preciso revolucionar nossas relaes sociais.
 um fato muito triste, mas pais e filhos, professores
e alunos, que dividem o mesmo espao fsico e

                                                   13
A pior priso do mundo

respiram o mesmo ar, esto vivendo em mundos
totalmente distintos. Esto prximos fisicamente, mas
distantes interiormente, o que os torna um grupo
de estranhos.
     O bom comportamento e o melhor rendimento
em provas escolares no indicam necessariamente
que uma criana ou um jovem sejam saudveis
psquica e socialmente ou que tenham defesa
emocional contra as intempries da vida. Prova
disso  que o uso de drogas no se restringe apenas
aos que tm aparentes problemas de personalidade
e que cresceram em lares desajustados; temos visto
excelentes jovens que cresceram em famlias
estruturadas e fazem uso de drogas. Talvez, tais
jovens no tiveram graves problemas psquicos, mas
certamente eles no aprenderam a proteger sua
emoo nos focos de tenso, a trabalhar suas dores
e contrariedades, a expandir a arte de pensar e o
prazer de viver. Somente um jovem que desenvolve
essas importantes funes da inteligncia tem uma
vacina segura contra o uso de drogas e outras
doenas psquicas e psicossomticas.
     Nos captulos finais, discorro, psicolgica e
filosoficamente, sobre a necessidade de
expandirmos a arte de pensar e resgatarmos o
sentido da vida. Somos estimulados a fazer um
brinde  sabedoria e a nunca desistir de ns
mesmos, por piores que sejam os nossos
problemas e por mais amargas que sejam
nossas dificuldades.
     A Pior Priso do Mundo interessa no apenas
14
                             Augusto Jorge Cury

aos que desejam compreender com profundidade
o crcere das drogas e os segredos do funcio-
namento da mente humana, mas tambm aos que
almejam enriquecer sua qualidade de vida e
construir um osis em seu deserto.




                                            15
Prisioneiros no territrio da emoo
                                                 Augusto Jorge Cury




         A pior priso do mundo  aquela que
         aprisiona a emoo humana e nos impede
de ser livres e felizes. Ningum pode contemplar o
belo e irrigar sua vida com sentido se for prisioneiro
dentro de si mesmo.
      Quem est aprisionado exteriormente, por
barras de ferro, ainda pode ser livre para pensar e
sentir. Quem  prisioneiro interiormente, no mago
da sua alma, alm de perder a liberdade de pensar
e sentir, perde tambm o encanto pela vida, esmaga
o mais belo elo da existncia*.
       contraditrio, mas nunca antes vivemos num
mundo to livre, sem escravido e com
considerveis nveis de respeito pela expresso do
pensamento, e tambm nunca tivemos uma
quantidade to grande de homens prisioneiros de
* (Cury, Augusto J., O Crcere da Emoo, editora Academia de Inteligncia,
So Paulo)


                                                                       19
A pior priso do mundo

tantas doenas psquicas, vtimas de tantas misrias
emocionais. Os escravos do passado eram mais
livres do que aqueles que hoje esto sob o jugo do
crcere da emoo. Os negros do passado,
embora tenham sofrido uma das mais terrveis
violaes dos direitos humanos, tinham mais
liberdade do que aqueles que vivem no crcere
das crises depressivas e, principalmente, da
dependncia das drogas.
      No podemos desconsiderar os nmeros.
Milhes de jovens e adultos de todas as raas,
culturas e condies sociais tm se submetido ao
uso contnuo de substncias psicoativas, ou seja,
drogas que tm efeitos na psique. Ningum que se
interessa pelos grandes acontecimentos da
humanidade pode se furtar de tentar entender esse
grave problema social e descobrir quais so os
motivos que impedem que a guerra do uso de
drogas chegue ao fim. Por que as grandes e
dispendiosas campanhas de represso, envolvendo
batalhes de soldados e aparelhos de
rastreamentos, no exterminam com o trfico de
drogas? O que faz com que os projetos de
preveno tenham resultados to inferiores, muito
aqum dos esperados?
       preciso compreender o problema sob outra
perspectiva.  preciso entender alguns mecanismos
fundamentais do funcionamento da mente. Podemos
no ser aprisionados pela droga qumica, mas
certamente o somos pelos transtornos depressivos,
pelas fobias, pelas reaes impulsivas, pela
20
                                  Augusto Jorge Cury

incapacidade de pensar antes de reagir, pelos
pensamentos negativos, pela solido, pela crise do
dilogo, pela ansiedade ou pelo estresse. Portanto,
embora direcione mais minha ateno para a
farmacodependncia, este livro poder ajudar a
todos os que se interessam em descobrir algumas
avenidas de sua inteligncia.
      Os farmacodependentes no so prisioneiros
da dependncia psicolgica das drogas 24 horas
por dia. O grau de dependncia depender do
tipo de personalidade do usurio, do tipo de droga
usada, da freqncia do uso e do tipo de
organismo. Contudo, mesmo nas dependncias
mais leves, quando o gatilho da memria 
detonado, tais pessoas comeam a ter um desejo
compulsivo que trava suas inteligncias. Esse desejo
aumenta muito o nvel de ansiedade, podendo
gerar at sintomas psicossomticos. Por isso, os
usurios possuem, em determinados momentos,
uma atrao pelas drogas, e procuram uma nova
dose para tentar se aliviar.
      Uma pessoa portadora de fobia, tal como a
de elevador (claustrofobia), tem            reaes
semelhantes s de um dependente, s que opostas.
Diante de um elevador ou de um lugar fechado,
detona-se o gatilho da memria, gerando reaes
angustiantes que travam sua capacidade de pensar.
A nica coisa que interessa  sair do ambiente
estressante. Quanto mais tempo ficar nele, mais
intensificar a sua ansiedade, que ser canalizada
para produzir diversos sintomas psicossomticos,

                                                 21
A pior priso do mundo

como: taquicardia, suor excessivo, aumento da
freqncia respiratria. Esses sintomas funcionam
como um alarme avisando a pessoa para fugir do
ambiente. E somente fugindo ela ficar aliviada.
      Os portadores de fobia possuem uma averso
compulsiva pelo objeto fbico e os portadores de
dependncia, ao contrrio, possuem uma atrao
compulsiva pelas drogas.
      Os usurios contnuos de cocana, crack,
herona e outras drogas tm poucos momentos de
alegria e liberdade. So prisioneiros e infelizes, pois
com a instalao sorrateira da dependncia, eles
precisaro cada vez mais dos efeitos das drogas
para estimularem a emoo.
      Nada  mais dramtico do que depender de
uma substncia nfima para obter algum prazer
emocional. Porm, o drama ainda no est
completo.  medida que se agrava a dependncia,
o territrio da emoo dos usurios mergulha em
estado de angstia, ansiedade e irritabilidade.
Portanto, nesta nova fase, eles procuraro os efeitos
das drogas, no para obter prazer, mas para tentar
aliviar a dor decorrente do aprisionamento da
alma. No incio, drogavam-se porque as drogas
produziam um osis, porm, agora, drogam-se
porque o osis tambm se tornou seco e sem vida
como o deserto.
      As sociedades esto se democratizando cada
vez mais e propiciando a liberdade exterior, todavia,
paradoxalmente, em virtude da pulverizao das
doenas psquicas, estamos cada vez menos livres
22
                                  Augusto Jorge Cury

por dentro. A farmacodependncia, bem como
outros transtornos psquicos, so sinais de que o
homem moderno, independentemente dos grandes
saltos que deu neste ltimo sculo, no  livre,
saudvel e alegre. S no consegue ler estes sinais
quem  incapaz de enxergar com os olhos do
corao. Temos de olhar para dentro de ns
mesmos e fazer uma reviso de vida.

            Um fenmeno remoto

     Desde os primrdios da civilizao humana,
o homem tem conhecido e feito uso das drogas
psicotrpicas. As drogas so substncias capazes
de atuar na alma ou psique, alterando seus
processos cognitivos: emoes, pensamentos,
raciocnios, memria, vontades, etc.
     A histria antiga revela que h milhares de
anos muitos povos j produziam e consumiam
bebidas que continham lcool etlico. Relatos
histricos tambm revelam que a maconha era
conhecida na China, desde 2.737 a.C., Hipcrates,
o pai da Medicina, recomendava o uso do pio
como medicamento para vrias afeces. Os ndios
dos Alpes Andinos, h sculos, mascam as folhas
da coca, de onde se extrai a cocana.
     Como podemos perceber, o fenmeno do uso
de drogas psicotrpicas  historicamente remoto.
Porm,  na atualidade que ele est se intensificando
muito, tornando-se um dos problemas sociais mais
graves das sociedades modernas. No momento

                                                  23
A pior priso do mundo

atual, isso tem a ver no apenas com a vontade
pura e simples do agente usurio, ou daquele que
procura experimentar drogas, mas tambm e,
principalmente, com as transformaes sociais que
as sociedades, onde eles esto inseridos, tm
sofrido, tais como:
      a) A crise do dilogo familiar. Pais e filhos
gastam horas e horas ouvindo os personagens da
TV, mas no gastam minutos dialogando e trocando
experincias uns com os outros.
      b) O homem conhece cada vez mais o mundo
em que est (fsico e social), mas no o mundo que
 (psquico). As crianas conhecem cada vez mais
o imenso espao e o pequeno tomo, mas no
conhecem a construo da inteligncia e o
funcionamento da sua prpria mente. Esta carncia
de interiorizao educacional faz com que elas
percam a melhor oportunidade de desenvolver as
funes mais profundas da inteligncia: a
capacidade de pensar e refletir sobre si mesmas; a
capacidade de analisar seus comportamentos e
conseqncias e perceber seus limites; a
capacidade de autocriticar-se e dar respostas mais
maduras para as suas frustraes e sofrimentos; a
capacidade de compreender a construo das
relaes humanas e aprender a se colocar no lugar
do outro, etc.
      c) A descoberta e o uso intensivo, tantas vezes
indiscriminado, dos medicamentos psicotrpicos
para os diversos tipos de transtornos psicolgicos.
No devemos ignorar que os medicamentos tambm
24
                                  Augusto Jorge Cury

podem causar dependncia fsica e/ou psicolgica
quando usados inadequadamente.

     O que podemos e devemos fazer

      Compreender as causas bsicas do uso de
drogas e de outras doenas psquicas nos far tomar
medidas preventivas no campo educacional.
      Conheci o modelo de tratamento do Centre
Medical Marmottan, em Paris, Frana, um
conceituado centro mdico psiquitrico. Tambm
tive a oportunidade de discutir com psiquiatras e
conhecer, ainda que parcialmente, o modelo clnico
de pacientes farmacodependentes na Alemanha e
na Espanha.
      Embora o tratamento seja importante,
precisamos reforar a tese de que o que mais
necessitamos  investir nossas energias no
campo da preveno.  melhor, mais
compensador e menos oneroso, social e
financeiramente, prevenir que as pessoas usem
drogas do que trat-las posteriormente quando se
tornam dependentes.
       Eu me alegro pelo fato de alguns textos
contidos neste livro serem parte constituinte de um
material publicado em formato de revista, que
escrevi h anos, e que foi muito usado no Pas.
      Alm de ter tido sucesso nas bancas, a revista
tambm passou pelo crivo da Secretaria da
Educao do Paran, sendo adotada oficialmente
por esse Estado, que a distribuiu a centenas de

                                                 25
A pior priso do mundo

escolas e instituies. As empresas do Grupo Pirelli,
por meio de sua equipe de recursos humanos, nessa
poca, tambm adotaram o material, distribuindo
mais de onze mil exemplares a seus funcionrios e
famlias.
      Agora, no formato de livro, melhoramos muito
o nosso trabalho, acrescentando novos captulos
ligados ao funcionamento da mente e, como disse,
ao crcere da emoo. Reformulamos quase que
totalmente os textos antigos. Nos novos textos, aplico
a Teoria da Inteligncia Multifocal, que  uma nova
teoria na Cincia sobre o funcionamento da mente
e a construo da inteligncia. Demorei dezessete
anos para desenvolv-la e, h cerca de dois anos,
ela foi publicada com o ttulo de Inteligncia
Multifocal*.
      Os fenmenos que constituem esta teoria, tais
como o fenmeno da psicoadaptao, do gatilho
da inteligncia, da ncora da memria, podero
abrir as janelas de nossas mentes para
compreendermos como se desenvolve o crcere
da emoo, como preveni-la e trat-la.
      A contribuio maior deste trabalho  oferecer
informaes para diversos segmentos da
sociedade:
      1) Para pais e educadores que, em razo de
suas posies e funes, so responsveis pela
formao da personalidade dos jovens.
      2) Para jovens que nunca experimentaram

* (Cury, Augusto, J., Inteligncia Multifocal, editora Cultrix, So Paulo, 1998).


26
                                  Augusto Jorge Cury

drogas, visando a orient-los para que no caiam
no ardil deste falso mundo-caleidoscpio.
     3) Para jovens ou adultos usurios. Se, por
um lado, um amontoado de palavras escritas no
 suficiente para solucionar os graves problemas
que enfrentam, por outro, pode propiciar
mecanismos de ajuda para que venam a mais
drstica e insidiosa priso humana.
     4) Para agentes teraputicos: mdicos,
psiquiatras, psiclogos, agentes de casas de
recuperao.
     5) Para profissionais de recursos humanos, cuja
funo  procurar melhorar a qualidade de vida
dos seus funcionrios e desenvolver reas
importantes da inteligncia e da relao social deles
no trabalho.
     6) Para pessoas interessadas em conhecer o
funcionamento da mente. Como minha abordagem
entra no campo psicolgico, filosfico e
educacional, este livro pode contribuir para
expandir a qualidade de vida e ajud-las a superar
outros tipos de crceres da emoo.

          Por que escrever sobre o
          crcere da dependncia

     Os fenmenos que atuam nos bastidores da
mente humana e financiam o crcere da
dependncia so extremamente complexos. Esse
crcere  um dos maiores desafios da Cincia e
um dos assuntos mais importantes da atualidade.

                                                  27
A pior priso do mundo

Por ter estudado e ainda estar estudando
exaustivamente os fenmenos que esto na base
das doenas psquicas e da construo da
inteligncia, quero dar minha contribuio na
compreenso desse assunto.
      Quando nos colocamos como aprendizes
diante da vida,  possvel expandir nossa
capacidade de pensar, ainda que tenhamos erros,
fragilidades e percalos existenciais. Todos os que,
sobre os alicerces do seu orgulho, diplomam-
se na vida, matam sua maravilhosa
                  aprender.
capacidade de aprender. Na vida, ningum
se diploma e todos ns devemos ser eternos
aprendizes.
aprendizes




28
               2
             Captulo




Perdendo a capacidade de sentir prazer
                                  Augusto Jorge Cury




         Aqueles cuja emoo gravita em torno dos
         efeitos das drogas so prisioneiros e
infelizes. Se formos avaliar a histria dos jovens e
adultos farmacodependentes, no poucos deles j
atravessaram tantas dores que pensam, numa
freqncia muito maior do que a mdia da
populao, em suicdio. Por que milhares de jovens,
no incio de sua histria com as drogas, hasteiam a
bandeira do prazer, mas, quando se instala a
dependncia, desejam, ainda que por momentos,
o fim da vida? Raramente uma pessoa que
mergulha no crcere da dependncia no pensa
em suicdio, ainda que, felizmente, esse pensamento
no se materialize. Que paradoxo  este?
      A vida humana no suporta ser aprisionada.
A liberdade  um embrio que habita na alma
humana e no pode morrer. Se a liberdade perece,
ainda que pela busca de um certo prazer, provoca-
                                                 31
A pior priso do mundo

se um caos na emoo. Os usurios de drogas
so amantes da liberdade, mas, sorrateiramente,
matam aquilo que mais os motiva a viver. Passam
por freqentes crises existenciais, muitas vezes no
exploradas pelos profissionais de sade. E assim,
 medida que afundam nessas crises que vo se
repetindo, eles perdem o sentido existencial e caem
num tdio insuportvel.

       P sicoadaptando - se aos pequenos
                eventos da vida

     A psicoadaptao  um dos mais importantes
fenmenos que atuam no inconsciente, nos
bastidores de nossas inteligncias, e afeta toda
nossa histria de vida. Ele foi identificado e estudado
por mim ao longo de muitos anos de pesquisa
psicolgica. Por meio dele, podemos compreender
as causas que conduzem o ser humano a ser um
eterno insatisfeito, um ser que sempre busca novas
experincias para garantir seu prazer de viver.
     Farei uma pequena sntese desse fenmeno,
sem entrar em reas mais profundas da sua
atuao psicodinmica. Quem quiser estud-lo,
bem como outros fenmenos que alimentam o belo
e complexo funcionamento da mente, pode ler
Inteligncia Multifocal*.
     Psicoadaptao  a incapacidade da emoo
humana de sentir prazer ou dor frente  exposio

* (Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal, editora Cultrix, So Paulo, 1998)


32
                                Augusto Jorge Cury

do mesmo estmulo. Cada vez que os estmulos se
repetem ao longo da nossa histria de vida, ns
nos psicoadaptamos a eles e, assim, diminumos
inconscientemente a emoo que sentimos por ele.
      A repetio do mesmo elogio, da mesma
ofensa, mesma paisagem, tela de pintura ... faz
com que a emoo se psicoadapte e perca a
capacidade de reao. Com o decorrer do tempo,
ficamos insensveis. As mulheres sabem bem disso.
Quando compram uma roupa e a usam pela
primeira vez, elas experimentam um grande prazer.
Entretanto, aps us-la algumas vezes, perdem o
encanto por ela. O mundo da moda surge pela
atuao traioeira do fenmeno da psicoa-
daptao. A maior parte das mulheres no sabe
por que tem uma necessidade compulsiva de estar
no rigor da moda. Na base dessa necessidade cada
vez mais comum em nossos dias est o que poucos
enxergam, uma exacerbao da atuao do
fenmeno da psicoadaptao, que provoca um alto
grau de ansiedade e insatisfao.
       A primeira vez que colocamos um quadro de
pintura na parede, extramos o prazer de cada
detalhe dele. Aps um ms, talvez passemos por
ele sem sequer not-lo. Podemos psicoadaptar-nos
a tudo o que est ao nosso redor. At mesmo 
nossa prpria misria. Os que se adaptam  sua
misria psquica e social nunca conseguiro fazer
uma faxina em suas vidas.
      Quanto mais uma pessoa tiver dificuldade em
extrair prazer daquilo que possui, mais infeliz e

                                               33
A pior priso do mundo

angustiada ser, ainda que tenha privilgios
financeiros.  possvel ter muito e ser pobre no
cerne da emoo. Por isso, sempre digo que h
ricos que moram em favelas e miserveis que
moram em palcios.
      A psicoadaptao nem sempre  ruim. H
situaes em que ela  extremamente til, pois pode
aliviar-nos as dores e frustraes. Ao passarmos
por um fracasso, podemos ficar muito angustiados.
Todavia, com o passar do tempo nos psi-
coadaptamos a ele e, conseqentemente, podemos
super-lo, bem como a angstia dele decorrente.
      Do lado negativo, o fenmeno da psi-
coadaptao contribui decisivamente para gerar
no palco da psique humana experincias de tdio,
rotina, mesmice e solido. Porm, mesmo em tais
situaes, podemos vislumbrar algo positivo na
atuao desse fenmeno. O tdio e a rotina geram
uma insatisfao oculta que nos impele a super-
la. Dessa busca inconsciente de superao, surge
toda forma de criatividade humana. Por que a
arquitetura, a literatura, a msica e todas as formas
de artes esto em contnuo processo de
transformao? Olhem para o estilo dos carros, o
design est sempre sendo modificado. Muitos
filsofos e pensadores da Psicologia no
compreenderam, mas o fenmeno da psicoa-
daptao gera uma angstia existencial que
impulsiona o homem a buscar novas formas de
prazer, novos estmulos que o animem.
      Apesar de esse fenmeno ter fora para
34
                                Augusto Jorge Cury

alavancar a criatividade, se ele produzir uma
insatisfao contnua e acentuada, que no 
superada, pode conduzir  instabilidade emocional
e  angstia crnica. Os que nunca terminam o
que fazem e sempre reclamam de tudo o que
tm,     padecem     desse     transtorno.    Se
aprenderem a ser amigos da perseverana, a
lidar com a angstia existencial e a contemplar
os pequenos detalhes da vida,  possvel que
resolvam esse transtorno emocional.

          Perdendo a capacidade
              de sentir prazer

      O que o fenmeno da psicoadaptao tem a
ver com a farmacodependncia e com outras
doenas psquicas? Muito! A atuao dele gera uma
das mais graves conseqncias do uso de drogas
psicotrpicas e que no  compreendida pela
maioria dos psiquiatras e psiclogos.
       medida que os usurios se submetem aos
intensos efeitos das drogas, vo se psicoadaptando
a eles e, conseqentemente, s conseguem excitar
a emoo diante de um estmulo potente. Como
raramente temos no ambiente social estmulos que
excitam a emoo tanto quanto as drogas
psicotrpicas, os usurios acabam perdendo, sem
o perceberem, o prazer produzido pelos pequenos
estmulos da rotina diria.
      Com o decorrer do tempo, eles se tornam
infelizes, com grande dificuldade de sentir prazer

                                               35
A pior priso do mundo

pela vida. S conseguem se animar com os grandes
eventos, tal como uma festa ou um show e, mesmo
assim, precisam usar as drogas para obter alguma
excitao emocional. Dessa forma, eles destroem
lentamente e sem ter conscincia disso, a parte mais
delicada da inteligncia humana, a emoo.
      Os homens que vivem na mdia, que buscam
o sucesso como nica meta, mesmo que nunca
tenham usado drogas, fizeram do prprio sucesso
uma droga e, portanto, tambm destroem o
territrio da emoo, pois perdem, incons-
cientemente, o prazer nos pequenos detalhes da
vida. O sucesso no  ser continuamente feliz, mas
construir a felicidade com as coisas singelas da vida.
O Mestre dos mestres da escola da vida, Jesus,
apesar de ser algum poderoso e famoso,
ainda achava tempo para contemplar atenta
e embevecidamente os lrios dos campos.
      O importante no  buscar desesperadamente
o sucesso, mas aprender a viver desprendido da
necessidade compulsiva de ter sucesso. O principal,
ao contrrio do que os pregadores da motivao
proclamam,  ser especial por dentro, ainda que
simples por fora.
      Os usurios de drogas procuram, mais do que
qualquer outro ser humano, grandes aventuras, mas,
para nosso espanto, transformam suas vidas num
canteiro de tdio e rotina. Eles matam a galinha
dos ovos de ouro do prazer existencial.
      Grande parte dos estmulos que causam prazer
no homem no vem das grandes conquistas, tal
36
                                  Augusto Jorge Cury

como a aquisio de um carro novo ou um elogio
pblico, mas dos pequenos elementos da rotina
diria, tal como um beijo de uma criana ou um
olhar carinhoso.
      Quem no aprende a contemplar o belo num
dilogo descontrado e no colorido das flores, enfim,
nos pequenos detalhes da vida, ser
invariavelmente um miservel no territrio da
emoo, ainda que seja culto, tenha status social e
seja abastado financeiramente. O homem moderno,
em sua maioria, apesar de ir ao cinema, ter uma
TV, acessar a internet e possuir diversas outras
formas de entretenimento, no  alegre, seguro e
livre dentro de si mesmo. Se o homem moderno
tem tal tendncia, imagine o caos emocional que
no enfrenta os que vivem no crcere das drogas.
Estes fazem de suas vidas uma sinfonia de dor
emocional.
      No encontrei at hoje um usurio de
drogas que me dissesse que sua vida era um
            prazer,
osis de prazer, mas encontrei diversos que
me disseram que ela se tornou um deserto
      sabor.
sem sabor.
      Por que muitos usurios pensam em suicdio?
Por trs grandes motivos: perdem a capacidade de
sentir prazer pela vida, no adquirem habilidade
para trabalhar suas perdas e frustraes e no
sabem suportar qualquer tipo de ansiedade e
humor deprimido.
      Os usurios de drogas comportam-se como
se fossem os mais fortes dos homens, pois, se

                                                  37
A pior priso do mundo

necessrio, colocam suas vidas em risco para obter
a droga, mas no fundo so frgeis, pois no
suportam qualquer tipo de sofrimento. A dor
emocional  um fenmeno insuportvel para eles.
A dor que qualquer velho ou criana suporta, eles
no suportam. Por isso, buscam desesperadamente
uma nova dose da droga para alivi-la. Nesse
sentido, muitos usurios, aps ficarem dependentes,
usam as drogas como tranqilizantes e
antidepressivos, ainda que elas sejam ineficazes.
      Quanto mais se envolvem neste crculo vicioso,
mais se deprimem. Quanto mais fogem da solido,
mais solitrios ficam. Quanto mais fogem da
ansiedade, mais se tornam parceiros da
irritabilidade e da intolerncia. Nos captulos iniciais
de sua relao com as drogas, vivem a vida como
se ela fosse uma primavera incansavelmente bela,
mas nos captulos finais perdem todas as flores que
financiam o encanto da existncia, e transformam-
na num inverno inesgotvel. Nas primeiras doses
sentem-se imortais, zombam do mundo e o acham
careta, mas com o passar do tempo matam-se um
pouco a cada dia. Definitivamente, usar drogas 
um desrespeito  prpria inteligncia.
      A questo das drogas  muito mais sria
do que a questo moral ou jurdica. Elas no
devem ser usadas porque so proibidas e nem
somente porque trazem prejuzos fsicos, mas
porque encerram a emoo num crcere,
esfacelam o sentido da vida e destroem o mais
nobre dos direitos humanos  a liberdade.
38
                                  Augusto Jorge Cury

      A sabedoria de um homem no est em no
errar e no passar por sofrimentos, mas no destino
que ele d aos seus erros e sofrimentos. Quem
consegue eliminar todos os erros e angstias da
vida? Ningum! No h uma pessoa sequer que
no passe por desertos emocionais. Os sofrimentos
podem nos destruir ou nos enriquecer. Todas as
pessoas portadoras de alguma doena psquica,
incluindo os dependentes de drogas, no deveriam
se punir e mergulhar numa esfera de sentimentos
de culpa, no importa a extenso de sua doena e
a freqncia de suas recadas. Ao contrrio, devem
assumir com coragem e desafio suas misrias e
us-las como fertilizante para enriquecer sua
histria. Nisto consiste a sabedoria.
      No devemos nos esquecer de que os que
passam pelo caos e o superam ficam mais
bonitos por dentro. Os que passam pela
depresso, sndrome do pnico, dependncia
de drogas, e os vencem, tornam-se poetas da
vida. Conquistam experincia, solidariedade
e sabedoria.

        Nunca desistir de si mesmo

      Por que o tratamento de uso de drogas  um
dos mais difceis de ser realizado, seja por meio de
clnicas de internao, seja por meio de consultas
ambulatoriais? Porque o problema no est, como
pensa o senso comum, nas drogas enquanto

                                                 39
A pior priso do mundo

substncia qumica. O problema est, como
estudaremos, no rombo que elas produzem no
inconsciente, na histria annima arquivada na
memria.
      A cirurgia cardaca foi, durante muitos anos,
a interveno mdica com menores possibilidades
de xito. Hoje, a possibilidade de uma pessoa
morrer no ato operatrio ou ps-operatrio 
mnima. O sucesso ultrapassa 99% dos casos.
      E no caso de dependncia de drogas, qual a
porcentagem de recuperao? Faltam estatsticas
em todo o mundo. Uma estatstica s  vlida se
ela acompanha os pacientes aps anos de
tratamento. Contudo, sabemos que as
possibilidades de sucesso no tratamento da
farmacodependncia, embora reais, dependem
muito da colaborao do paciente e representam
uma das mais baixas da Medicina.
      Em muitas clnicas, somente 20 a 30% dos
pacientes que procuram ajuda espontnea param
de usar a droga; isso se considerarmos dois anos
de absteno como critrio mnimo de recuperao.
Os ndices de eficincia do tratamento de cncer
so freqentemente maiores do que os da
dependncia de drogas. Porm,  possvel aumentar
esses ndices se o paciente colaborar com o
tratamento e seguir determinados princpios, dos
quais dois so fundamentais: ter a firme convico
de no querer ser uma pessoa doente e nunca
desistir de si mesmo.

40
                                 Augusto Jorge Cury

    Deus, a Psiquiatria e a Psicologia

     O tratamento psicolgico  importante,
mas existe algo que a Psiquiatria e a Psicologia
                  fazer,
no conseguem fazer, que  resgatar o sentido
da vida dos dependentes. Eles precisam da
Cincia, mas tambm precisam de Deus, de
                                           Criador.
crer e respeitar a vida e de amar o seu Criador.
A vida  um espetculo to grande que a
Cincia no consegue descrev-la.
     O que  a vida? No h linguagem que possa
descrev-la plenamente.  possvel escrever milhes
de palavras sobre a vida e, ainda assim, ser
impreciso e injusto em relao s suas dimenses.
Vivemos na bolha do tempo. As questes mais
bsicas concernentes  vida no foram resolvidas:
Quem somos? Para onde vamos? Como  possvel
resgatar a identidade da personalidade se, aps a
morte do crebro, os segredos da memria se
esfacelam em bilhes de partculas? Que pensador
ou cientista conseguiu ao longo da Histria dar
respostas a essas perguntas? Se as procuraram
apenas nos solos da Cincia, foram enterrados junto
com suas dvidas.
     Comentarei no final deste livro que, no
passado, eu achava que Deus era apenas fruto da
imaginao humana. Cria que a busca por Deus
era uma perda de tempo. Hoje penso totalmente
diferente. Embora seja crtico do misticismo e
procure ser bem cientfico naquilo que fao,
percebo que h um buraco no cerne da alma e
                                                41
A pior priso do mundo

do esprito humano que os antidepressivos e as
intervenes psicolgicas no conseguem
preencher, este lugar s o Autor da vida pode atingir.
       Os farmacodependentes no so pessoas
desprovidas de inteligncia. Ao contrrio, muitos
deles so crticos da sociedade e tm tendncia
para procurar grandes respostas filosficas para a
vida, mas como no as encontram, eles passam a
procur-las nas drogas. Todavia, essas respostas
deveriam ser procuradas dentro de si mesmos.
       Podemos ajudar os pacientes a superarem a
farmacodependncia, os transtornos depressivos,
a sndrome do pnico e outros transtornos ansiosos,
mas no podemos devolver-lhes o prazer de viver
e o sentido da vida. A Psiquiatria e a Psicologia
tratam das doenas psquicas, mas no sabem
como fazer o homem ser alegre. Se soubessem, os
psiquiatras e os psiclogos seriam os homens mais
felizes da terra, mas, infelizmente, no so poucos
os que entre eles tambm tm humor basal triste e
desenvolvem depresso.
       Na minha experincia clnica, tenho visto
claramente que a busca por Deus, inde-
pendentemente de uma religio, se feita com
conscincia, pode trazer sade e tranqilidade no
territrio da emoo. No livro Anlise da Inteligncia
de Cristo  O Mestre da Sensibilidade*, demonstrei
que Jesus Cristo cresceu num ambiente agressivo e
estressante. Ele tinha todos os motivos para ter
* (Anlise da Inteligncia de Cristo  O Mestre da Sensibilidade, editora Academia
de Inteligncia, So Paulo, 2000)

42
                                  Augusto Jorge Cury

depresso e ansiedade, mas para nossa surpresa,
era saturado de alegria e segurana. Mesmo no
pice da Sua dor, Ele conseguia brilhar na Sua
inteligncia.

              Superando o caos

      Se o dependente se psicoadaptar  sua
misria, se no tiver mais esperana de que pode
ser livre, no h como ajud-lo, pois engoliu a
chave da sua liberdade. Do mesmo modo, se um
paciente com depresso ou obsesso crnica,
conformar-se  sua doena, e no acreditar que
poder resolv-la, ter se tornado seu pior inimigo,
ter criado uma barreira intransponvel que o
impede de ser ajudado.  preciso romper a ditadura
do conformismo, caso contrrio, nunca
encontraremos a liberdade.
      Um dos maiores inimigos do homem 
sua baixa auto-estima. A auto-estima no como
orgulho superficial e auto-suficiente, mas como
respeito e considerao pela vida, 
fundamental. O homem que despreza sua vida
e a enxerga como uma lata de lixo, jamais
ter condies de romper o crcere da sua
doena.
       possvel resolver as doenas mais graves e
crnicas na Psiquiatria, mesmo que j tenha havido
tratamentos anteriores fracassados. O importante
 no desistir nunca, jamais abandonar a si mesmo.
 possvel recomear sempre, retomar as foras e
abrir as janelas da mente para uma nova vida.
                                                 43
A pior priso do mundo

      Nestes anos todos de pesquisa psicolgica,
percebi que nada cultiva mais uma doena do
que ter uma postura coitadista diante dela, de se
colocar como pobre miservel diante da vida. Por
outro lado, nada destri mais uma doena e
esfacela seus mecanismos inconscientes do que
enfrent-la com coragem e inteligncia.
      Vi homens se levantarem do caos e
conquistarem uma nova vida. Vi pessoas que tinham
mais de 20 anos de dependncia de drogas que,
por diversas vezes, quase morreram por overdoses
e que se sentiam impotentes diante do crcere da
dependncia, mas, por fim, a venceram. Vi pessoas
com mais de 30 anos de depresso grave, que
passaram nas mos de muitos psiquiatras, que
tomaram quase todo arsenal medicamentoso
disponvel, que tinham perdido completamente a
esperana de vida e, por fim, resgataram o prazer
de viver. Vi pacientes portadores de graves
sndromes do pnico, que tiveram fobia social como
seqela, que deixaram de conviver socialmente por
mais de 15 anos, mas superaram-na e voltaram a
brilhar socialmente. Vi pessoas que tinham
transtornos obsessivos por dcadas, que sofriam
como os mais miserveis dos homens em razo de
suas idias fixas de contedo negativo, todavia
aprenderam a gerenciar seus pensamentos e
voltaram a ter encanto pela vida.
      Enfim, vi pacientes considerados irre-
cuperveis, desanimados por tantos tratamentos
fracassados, conseguindo resgatar a liderana do
44
                                Augusto Jorge Cury

eu nos focos de tenso, enfrentando com ousadia
no apenas a sua doena, mas seu prprio
desnimo. Tais homens deixaram de ser
espectadores passivos e tornaram-se agentes
modificadores de sua misria.

              Um debate srio

     Neste livro pretendo fazer um debate srio
sobre a farmacodependncia e outras doenas. Um
debate srio no implica em desnimo, embora
mostre a gravidade do problema. Talvez o maior
desafio da Medicina e da Psicologia moderna seja
o tratamento da farmacodependncia.  possvel
reescrever o significado inconsciente das drogas
na memria,  possvel hastear a bandeira da
liberdade, ainda que com lgrimas. S no 
possvel mudar a histria de quem est morto.
     Os governos deveriam ser mais sensveis em
relao a este grave problema social. Por causa
do crcere das drogas, milhes de jovens esto
prejudicando e at destruindo drasticamente sua
personalidade, seu desempenho intelectual e,
conseqentemente, o futuro de seu prprio pas. 
preciso recursos e treinamentos para aumentar os
ndices de eficincia.
     Se h uma rea abandonada pela sociedade
e pelo Estado  a da farmacodependncia. As
entidades que cuidam do tratamento ambulatorial
e da internao desses pacientes precisam de
apoio. Os que trabalham nessas entidades so

                                               45
A pior priso do mundo

verdadeiros heris. Do o melhor de si e do seu
tempo para ajudar seus semelhantes e, s vezes,
sem remunerao alguma ou com baixa
remunerao. Doam-se como poetas annimos.

          Uma guerra formada por
             muitas batalhas

      Uma recada nunca deve ser encarada como
a perda de uma guerra. Uma guerra  composta
de muitas batalhas. Uma recada deve ser encarada
como a perda de uma das batalhas. Irrigar um
usurio de drogas com esperana e estimul-
lo a continuar lutando contra a dependncia,
mesmo aps as recadas,  fundamental para
                                              interior.
ajud-lo a vencer os grilhes da priso interior
      Do mesmo modo, devemos lidar com os
demais transtornos psquicos. Se uma pessoa tiver
um novo ataque de pnico ou uma nova crise
depressiva, aps um perodo de estabilidade, e no
souber se reerguer, ela alimentar sua doena. 
fundamental no deixar que pensamentos negativos,
tais como Eu no tenho soluo ou Voltou tudo
de novo criem razes na psique, caso contrrio,
um sentimento de desnimo paralisar a
capacidade de lutar. O grande problema no  a
recada, mas o que se faz com ela.
      Para evitar os deslizes ou tornar-se uma pessoa
mais forte aps uma recada,  necessrio
verdadeira engenharia intelectual, composta de
vrios itens:
      1  Nunca desistir de si mesmo. Tentar sempre.
46
                                 Augusto Jorge Cury

Aprender a ser um agente modificador da sua
histria.
      2  No se psicoadaptar  sua doena, ou
seja, no se auto-abandonar.
      3  No ter medo das suas dores e frustraes,
mas trabalh-las com dignidade.
      4  Aprender a ter prazer nos pequenos
eventos da vida.
      5  Resgatar a liderana do eu nos focos de
tenso (assunto a ser estudado no penltimo
captulo).
      Nenhum tratamento pode ser coroado de
sucesso se os pacientes no enriquecerem sua
histria emocional e fortalecerem sua capacidade
de administrar seus pensamentos.
      Muitos prometem que nunca mais iro usar
drogas. Uns dizem: Pelos meus filhos, eu nunca
mais vou us-las. Outros prometem: Pelos meus
pais, jamais voltarei a us-las. Outros, tomando
as lgrimas como seu endosso, proclamam:
Drogas no fazem mais parte de minha vida.
      Todos so sinceros nestas afirmaes? Sim.
Mas por que no as sustentam? Porque no
conhecem o funcionamento da mente, no
compreendem a sinuosidade da construo do
pensamento, no sabem que nos focos de tenso
suas inteligncias so travadas e so
impossibilitados de raciocinar com liberdade.
      Os usurios de drogas so os que mais fazem
promessas no mundo e os que menos cumprem
suas promessas, perdendo apenas para alguns
polticos.
                                                47
A pior priso do mundo

      Deixo um recado aos que nunca usaram
drogas, um recado no moralista, mas de
algum que conhece um pouco o crcere da
emoo e pesquisa o funcionamento da mente:
No  preciso usar drogas para saber seu
efeito; se algum insiste em us-las, procure
a opinio daqueles que querem se libertar
delas.
      A maioria das pessoas que experimenta
drogas no se torna dependente. Entretanto, o uso
contnuo de drogas nos arquivos da memria  to
grave que o conselho da desnecessidade de us-
las se justifica. Justifica-se tanto como a preveno
contra a AIDS. Nenhum mdico de bom senso
aconselha algum a ter relao sexual com mltiplos
parceiros, mesmo sabendo que dificilmente uma
pessoa contrai o vrus HIV em apenas um ato sexual.
Infelizmente, muitos acabam tendo a experincia
do uso de drogas, apesar de toda a advertncia. E
o que  pior, costumam ter a experincia em
momentos em que no esto preparados para t-
la, em momentos em que esto fragilizados,
atravessando conflitos e crises existenciais. Nesses
momentos, eles ficam mais vulnerveis a cair nos
laos da pior priso do mundo.

       A memria e os alicerces da
     personalidade  o fenmeno RAM

     Diariamente produzimos inmeras cadeias de
pensamentos, ansiedades, sonhos, idias negativas,
pensamentos antecipatrios, angstias, prazeres,
que so arquivados automaticamente na memria.
48
                                 Augusto Jorge Cury

Em um ano registramos milhes de experincias.
     O registro das experincias na memria 
involuntrio, no depende da vontade consciente
do homem. Voc pode ser livre para ir onde quiser,
mas no  livre para decidir o que quer registrar
na sua memria. Se viveu experincias ruins, elas
se depositaro nos pores inconscientes da
memria. Se hoje passou por uma angstia, uma
situao de medo, uma crise de agressividade,
tenha certeza de que tudo isso est registrado em
sua memria.
     Cuidar da qualidade daquilo que  registrado
em nossas memrias  mais importante do que
cuidar de nossas contas bancrias. Nestas, voc
deposita dinheiro; naquelas, voc faz os depsitos
que financiaro a sua riqueza emocional.
      medida que as experincias so registradas
automaticamente na memria, ocorre a formao
da histria de vida ou histria da existncia. Os
beijos dos pais, as brincadeiras de crianas, os
desprezos, os fracassos, as perdas, as reaes
fbicas, os elogios, enfim, toda e qualquer
experincia do passado forma a colcha de retalhos
do inconsciente da memria que influencia nossas
reaes no presente.
     Os computadores necessitam de comandos
para registrar, isto , para salvar as informaes.
Porm, a histria  to importante para a produo
da inteligncia, inclusive para termos a prpria
capacidade de deciso, j que a mente no nos
d a liberdade de querer t-la ou no.
     Cada pensamento e emoo so registrados
                                                49
A pior priso do mundo

automaticamente por um fenmeno que chamo de
RAM (Registro Automtico da Memria). O homem
no teria compreenso dos seus direitos se no
tivesse uma histria. Sem ela, ele nem mesmo
produziria pensamentos ou teria conscincia da sua
existncia. Dessa forma, o tudo e o nada, o ter e o
ser, seriam a mesma coisa para ele.
      Todas as experincias que possumos so
registradas na mesma intensidade? No!
Existem diversas variveis que influenciam o
registro. Uma delas  o grau de tenso positiva
ou negativa que as experincias possuem. As
mais dolorosas ou prazerosas so registradas
com mais intensidade.
      O fenmeno RAM registra com mais
intensidade as cadeias de pensamentos que tiverem
mais ansiedade, tenso, apreenso ou prazer. Se
vivenciarmos uma experincia angustiante diante
de um fracasso, poderemos tentar evitar registrar
essa experincia, mas no adianta, ela ser
registrada involuntariamente e, de maneira
privilegiada, em virtude da intensa ansiedade que
a acompanha.
      Devemos estar claros sobre esses assuntos.
Toda vez que temos uma experincia com alto
comprometimento emocional, tal como um elogio,
uma ofensa pblica, uma derrota, um fracasso, o
registro ser privilegiado. Por ser privilegiado, tal
registro pavimentar as avenidas importantes da
nossa maneira de ser e de reagir ao mundo. Por
isso,  muito importante que as crianas sejam

50
                                    Augusto Jorge Cury

alegres, tenham amigos, brinquem e tenham um
clima saudvel para expor o que pensam.
      As crianas tm de ter infncia, tm de registrar
uma histria de prazer, criatividade e interao.
Uma criana alegre gerar um adulto com alta
capacidade de prazer de viver. Uma criana rgida
gerar um adulto engessado, tmido, inseguro.
      No  saudvel que as crianas cresam
exclusivamente aos ps da TV, dos videogames, da
Internet e fazendo todos os tipos de cursos, tais como
lnguas e computao. A histria arquivada na
memria de uma criana define os pilares mestres
do territrio da emoo e do desempenho
intelectual de um adulto.
      Felizmente, a emoo no segue a matemtica
financeira. s vezes, temos crianas que passaram
por tantas dificuldades e sofrimentos na infncia,
mas, por alguns mecanismos prprios, aprenderam
a filtrar os estmulos estressantes do ambiente.
Assim, apesar do caos da infncia, elas se tornaram
alegres e seguras.
      Resumindo, temos trs situaes importantes.
Primeiro, o fenmeno RAM registra auto-
maticamente as experincias. Segundo, o fenmeno
RAM tem afinidade com as experincias de maior
tenso. Terceiro, a retroalimentao, a ser
estudada adiante, determinar a dimenso do
conflito que uma determinada pessoa vai ter.
Aplicando esses princpios psquicos no uso de
drogas, entenderemos a confeco do crcere
interior em que certas pessoas se envolvem sem
perceber.
                                                    51
A pior priso do mundo

          Velhos em corpos jovens

      As pessoas dependentes de drogas possuem
uma quantidade de experincias emocionais muito
maior do que os que no as usam. Essas
experincias tambm so qualitativamente mais
tensas do que a mdia dos mortais. Elas esto
saturadas de ansiedade, humor deprimido,
desespero, situaes de risco de vida, frustraes.
O fenmeno RAM vai registrando continuamente
essas experincias em zonas privilegiadas da
memria, o que as deixa mais disponveis para
serem lidas e utilizadas.
     Qual o resultado disso? Um dos mais graves
 que muitos jovens queimam etapas preciosas da
vida. Jovens fisicamente to novos produzem em
poucos anos um filme de terror em seu inconsciente.
Em poucos anos, adquirem um estoque de
experincias que muitos velhos jamais tero em toda
a sua jornada de vida. Isso pode ocorrer tambm
com as pessoas que se submetem a um estresse
intenso e contnuo, a uma competio profissional
predatria e sem trguas ou a portadores de
determinados transtornos ansiosos e depressivos.
     H poucos dias atendi mais um paciente
farmacodependente com uma histria dramtica.
Perguntei-lhe se ele j tinha tido idias de suicdio.
Respondeu-me sem titubear que muitas. Indaguei
se ele tinha perdido o prazer de viver. Disse-me,
com todas as letras, que tinha perdido o sentido da
vida. Mostrei-lhe que o fenmeno da
psicoadaptao o havia envelhecido emocio-
52
                                  Augusto Jorge Cury

nalmente, que muitos velhos que esto nos asilos
eram mais felizes e tinham mais nimo de vida do
que ele. Ele concordou e completou: No suporto
ver as pessoas alegres e espontneas ao meu redor.
Sinto raiva e inveja delas, pois no consigo mais
ter prazer pela vida.
      Esse paciente usa drogas h quinze anos. Nos
ltimos anos, usava cocana e crack quase que
cotidianamente. Sua idade biolgica  de vinte e
nove anos, mas emocionalmente talvez ultrapasse
os cem. Todavia, apesar de estar vivendo a pior
priso do mundo, ele pode se libertar, como tantos
outros, dessa priso e voltar a ser livre nos seus
pensamentos e rejuvenescer a sua capacidade de
sentir prazer pela vida. O primeiro passo para
algum conquistar sua liberdade  no se
conformar com sua misria: assumir a sua
                          conformar-
doena, mas jamais conformar - se com ela.
Este princpio vale para todas as doenas
psquicas.

           O nico lugar onde 
          inadmissvel envelhecer

      um fato doloroso, porm verdadeiro:
encontrei muitos velhos em corpos jovens. Jovens
que perderam a singeleza e o encanto da vida,
envelheceram no nico lugar em que  inadmissvel
envelhecer  o territrio da emoo.  natural que
o corpo envelhea, mas  anormal que a emoo
se torne velha. Tal envelhecimento gera uma vida
entediada, triste, sem sabor e insatisfeita. Por isso
                                                  53
A pior priso do mundo

muitos dependentes desencadeiam depresso com
freqncia.
      O efeito psicotrpico das drogas, seja ele
estimulante, tranqilizante ou alucinatrio, associado
s mais diversas situaes emocionais, no momento
do uso, faz com que o fenmeno RAM produza um
filme que rouba o brilho de suas vidas. A
recuperao de um farmacodependente,
como estudaremos,  muito mais complexa
            afastar-
do que afastar - se do uso de drogas. 
                               viver,
necessrio reaprender a viver, reaprender as
linhas bsicas da contemplao do belo.
      Aps ter conscincia do crcere da
dependncia, eles dizem unanimemente: Eu jamais
queria ter conhecido as drogas. Outros indagam,
indignados: Por que no consigo ser livre?.
Outros, num lampejo de um sonhador, comentam:
Gostaria de resgatar meu prazer de viver e
admirar a beleza das flores .
      De fato, um dos maiores problemas dos
usurios de drogas e que at hoje no 
compreendido nos compndios da Psiquiatria e
da Psicologia,  que o filme da memria no pra
de ser rodado. Cada vez que usam as drogas,
algumas cenas so filmadas em zonas privilegiadas
da memria. Uma emoo flutuante, insatisfeita e
intranqila vai, pouco a pouco, sendo tecida. Uma
mente sem metas e sonhos vai sendo formada,
clandestinamente. Uma personalidade insegura,
instvel e sem coragem para mudar os destinos da
vida vai sendo construda.
54
                                Augusto Jorge Cury

      Estudaremos que o grande problema, ao
contrrio do que se pensa na Educao,  que a
memria no pode ser apagada, deletada e nem
sequer eliminada, mas reeditada. O maior desafio
teraputico no  apenas fazer o usurio
afastar-
afastar - se temporariamente da substncia
qumica, mas conduzi-lo a reeditar o prprio
filme de sua histria, o que significa reescrever
o script da prpria vida.




                                               55
               3
             Captulo




O sofrimento dos que buscam liberdade,
       mas acabam numa priso
                                   Augusto Jorge Cury




         Embora seja assunto de todas as camadas
         sociais e dos meios de comunicao, a
problemtica drogas permanece obscura, seno
deturpada, sujeita a interpretaes vagas, at
mesmo entre os profissionais de sade mental. Por
isso, vale insistir nos esclarecimentos: as causas que
induzem um jovem a iniciar o uso de drogas so
muito complexas e envolvem fatores psquicos,
familiares e sociais; a dependncia fsica e a
psicolgica mantm-no preso no tempo e podem
tirar-lhe a vida ou prejudicar-lhe o desempenho
intelectual e profissional.
      Sob o domnio de necessidades imperiosas
provocadas pela dependncia, o usurio de drogas
continua a ingeri-las, at mesmo contra sua prpria
vontade, para eliminar o sofrimento e,
conseqentemente, tentar obter algum prazer.

                                                   59
A pior priso do mundo

     O paradoxo da busca do prazer
        e o encontro com a dor

     No dilogo com os dependentes, descobre-
se uma incrvel contradio a respeito do uso de
drogas. O que as pessoas, em sua maioria jovens,
buscam e sonham encontrar  totalmente divergente
daquilo que realmente encontram. Procuram a
aventura e acabam presos na mais amarga das
prises. Querem um mundo diferente daquele
oferecido por suas famlias e pela sociedade
mundo no qual nada os controlar, onde faro suas
viagens sem serem importunados , mas acabam
se transformando nos mais restritos, nos mais
manipulados dos seres, controlados por substncias
to minsculas e insignificantes.

        Exemplo de um caso verdico

     Qualquer pessoa que usa drogas, conseguir
se enxergar um pouco na histria deste jovem
dependente. Vamos conhecer a histria de um dos
meus pacientes.
     Ele se chama J.V. e tem 26 anos. Abandonou
a faculdade quase no fim do curso. Pertence a uma
famlia de bom nvel cultural e financeiro, passou a
infncia sem grandes conflitos, embora tivesse uma
postura auto-suficiente que o levava a reagir antes
de pensar, e tinha dificuldades de se colocar no
lugar dos outros.
     Tinha problemas de relacionamento com os
pais, que tentavam inutilmente traz-lo para o
60
                                Augusto Jorge Cury

convvio mais ntimo com a famlia. Aos 12 anos
criticava o namorado da irm porque ele usava
maconha. Parecia que era avesso s drogas, mas
no tinha metas bem estabelecidas nem grandes
sonhos. Determinado dia, sob a influncia de
amigos, que  uma das mais importantes causas
do uso de drogas, comeou a usar aquilo que
aparentemente rejeitava.
      Comeou a fumar maconha, mas jamais com
o intuito de ficar dependente, apenas para curtir
um momento. Para aliviar sua conscincia, dava
a desculpa de sempre: O cigarro causa mais
prejuzo do que a maconha. Queria justificar o
uso de uma droga por meio de outra, o cigarro,
embora esse seja comercialmente aceito e
socialmente livre.
      Sabe-se, principalmente porque a Cincia o
estudou mais, que o cigarro provoca mais prejuzos
fsicos do que a maconha, de enfarto ao cncer.
Contudo, o tetrahidrocanabinol, substncia
psicoativa da maconha, prejudica mais o territrio
da emoo do que a nicotina do cigarro. Em virtude
do seu alto potencial tranqilizante, a maconha
conduz os usurios contnuos a encolherem sua
capacidade de motivao e liderana. Eles se
tornam pessoas sem garra, sem dinamismo, sem
intrepidez e coragem para ocupar seus espaos
profissionais e para transpor obstculos sociais.
Infelizmente, ningum comenta ou estuda esse
assunto.
      J.V. inicialmente era um consumidor
espordico. Com o decorrer do tempo, passou a
                                               61
A pior priso do mundo

consumidor contnuo e, durante treze anos, fez uma
verdadeira escalada na utilizao de drogas,
passando por muitas delas: moderadores de apetite,
xaropes antitussgenos, que contm codena na
frmula, ch de cogumelo, LSD, calmantes, cocana,
crack e merla (pasta bsica de cocana), etc.
      Nos ltimos cinco anos, sua vida social estava
totalmente irregular. No trabalhava, dormia at o
meio-dia. Entretanto, dizia ser o mais controlado
no grupo de amigos de vcio, cuidando para que
eles no se excedessem, pois temia os efeitos da
overdose, j que alguns haviam morrido por parada
cardiorespiratria. Mas isso no evitou que ele
prprio se tornasse grande consumidor de cocana
e traficante intermedirio para sustentar o alto custo
do seu vcio.
      Nessa fase, chegou a ter um quilo de cocana
nas mos. Estava to aprisionado dentro de si
mesmo, que no percebia os graves riscos que
corria, inclusive o de passar vrios anos numa
cadeia. Paradoxalmente, quem insistia para que os
amigos no exagerassem nas doses foi sendo
gradativamente manipulado pela droga,
comeando a tomar doses cada vez mais elevadas.
      Em apenas uma noite chegava a fazer vinte
aplicaes de cocana nas veias, doses que para a
maioria das pessoas seria letal, embora
mencionasse que sentia srias alteraes no ritmo
cardaco e respiratrio. Toda vez que tomava a
droga, J.V. controlava atentamente sua freqncia
cardaca, sempre temeroso de sofrer morte sbita,
62
                                  Augusto Jorge Cury

e mesmo esse medo da morte no conseguia
libert-lo de sua priso interior.

Alguns princpios da terapia multifocal

      Esse paciente passou por alguns tratamentos
psicolgicos e psiquitricos frustrantes e, por fim,
chegou ao meu consultrio desanimado e
desconfiado. Apliquei os princpios da terapia
multifocal, a ser estudado nos textos finais. Ele no
acreditava mais que algum pudesse ajud-lo.
      Primeiramente, procurei criar no ambiente
teraputico um clima inteligente, irrigado com
dilogo aberto, franco, sem preconceitos. Nesse
ambiente, tentei conquistar a sua confiana,
principalmente valorizando as qualidades da sua
personalidade, para resgatar sua auto-estima e
mostrar que compreendia a sua dor e suas
fragilidades.
      Em segundo lugar, procurei mostrar-lhe que
estar sob o domnio das drogas  uma doena e
que ele precisava enfrentar um tratamento de
maneira totalmente nova; ele precisava esquecer
as tentativas anteriores frustradas e recomear tudo.
Realcei que a sabedoria no est em no errar,
mas em usar os erros como alicerce para a
maturidade.
      Em terceiro lugar, empenhei-me em ajud-lo
a resgatar a liderana do eu nos focos de tenso,
em conduzi-lo a ter uma vontade dominante,
encorajando-o a ser mais forte que o seu impulso
para a droga. Mostrei-lhe o absurdo da situao:

                                                  63
A pior priso do mundo

um ser humano to inteligente controlado por
substncias to nfimas.
     Por fim, trabalhei no sentido de faz-lo perder
a representao psicolgica inconsciente que as
drogas possuam na sua personalidade. Esse ltimo
passo foi o mais importante. Vejamos.

            Uma histria de amor

      Para se entender o que aconteceu, vamos dar
um exemplo e estabelecer uma comparao.
      Quando um jovem termina o romance com a
namorada, mas ainda continua a pensar nela, a
namor-la em seus sonhos e, quando a v, tem
taquicardia e outros sintomas fsicos, ento a
possibilidade de ele reatar esse romance  grande,
pois a jovem ainda representa algo importante para
ele, embora esteja fisicamente separado dela.
      O mesmo acontece com a dependncia das
drogas. Quando um jovem pra de us-las, mas
ainda pensa nelas, sonha com elas e se lembra
dos efeitos que elas propiciavam quando estava
atravessando algum conflito ou se ainda sente
desejo por elas, quando algum lhe oferece, ento
 muito provvel que, um dia, ele volte novamente
a us-las, pois o romance ainda no terminou
nos pores de sua memria.
      O paciente J.V, atualmente, est perdendo a
representao psicolgica das drogas. Agora
levanta cedo e vai trabalhar. Resgatou o prazer de
viver. Seu relacionamento familiar melhorou, existe
64
                                  Augusto Jorge Cury

dilogo e uma proximidade maior entre ele e seus
familiares.
     No  suficiente que se pare de usar as
drogas,  preciso que elas percam sua
               interior,
representao interior, ou seja, o significado
psicolgico que ocupam na vida da pessoa.
Caso contrrio, o romance poder ser reatado
um dia, principalmente porque as drogas esto
sempre disponveis.

         Nem tudo o que propicia
            prazer  saudvel

      A partir do relato da experincia desse jovem,
no se pode negar que as drogas proporcionam
prazer aos usurios. No h porque se surpreender
com isso, embora quando se instala a dependncia,
eles as usam mais para aliviar suas angstias
existenciais. No fosse assim, elas no atrairiam
tantas pessoas.
      Nem tudo o que d prazer  saudvel e
recomendvel. O que devemos ver, o que devemos
contar aos jovens, so as conseqncias fsicas e
psicolgicas que seu uso acarreta. Imagine uma
pessoa no topo de um edifcio, com vontade de
saltar l de cima como se fosse uma ave, para
experimentar a liberdade. Por alguns segundos ela
poder sentir algum tipo de prazer. Porm, ao
trmino de sua curta viagem, sofrer o impacto com
o solo. Isto no  prazer, mas suicdio.
      Do mesmo modo, no importa se as drogas

                                                 65
A pior priso do mundo

produzem ou no prazer, se proporcionam viagens
curtas ou longas, suas conseqncias,
especialmente quando se constri uma
representao doentia no inconsciente, so sempre
destrutivas.
      No usar drogas no  suficiente para tornar
uma pessoa segura, livre, lcida e empreendedora,
pois para alcanar tais caractersticas  necessrio
desenvolver as funes mais importantes da
inteligncia. No usar drogas, portanto, no quer
dizer viver uma bela primavera, entretanto, manter
um romance com elas certamente significar viver
num longo e rigoroso inverno existencial.
      Precisamos usar o mximo de criatividade e
inteligncia para podermos realizar uma preveno
eficiente, e assim evitar que muitos caiam nesse
fosso emocional. A educao escolar pode dar uma
excelente contribuio nesse processo. Entretanto,
infelizmente, ela tem sido ineficiente. Vejamos uma
pesquisa.

        A Educao precisa passar
           por uma revoluo

     Tenho dado conferncias e cursos a centenas
de educadores, por isso tenho sentido de perto o
caos que est a Educao. A Educao no mun-
do inteiro est passando por crises. Estamos
formando homens cultos, mas no homens que
pensam. Estamos formando homens que do
respostas ao mercado, mas no homens maduros,

66
                                   Augusto Jorge Cury

completos, que sabem se interiorizar, pensar antes
de reagir, expor e no impor as suas idias, trabalhar
em equipe, que amam a solidariedade, que sabem
se colocar no lugar do outro.
      A crise educacional me motivou a fazer uma
ampla pesquisa no Pas sobre a qualidade de vida
dos educadores e dos alunos, bem como sobre a
qualidade da educao social. O incio foi no
comeo do ano 2000 com educadores de centenas
de escolas. Nesta pesquisa, investigo os sintomas
psquicos e psicossomticos, os nveis de estresse,
as causas psquicas e sociais, a relao professor/
aluno, professor/escola e aluno/escola e a
qualidade da educao social ligada  preveno
de drogas, AIDS e educao sexual. Os dados
iniciais relativos  preveno do uso de drogas so
at chocantes.
      Perguntei aos educadores:
      O que voc acha da preveno de drogas na
sua escola?

 Preveno deficiente ------------------- 89,1%
 Preveno eficiente -------------------- 10,9%

      Os nmeros de fato so alarmantes. Apesar
de a Educao ter professores ilustres, ela 
ineficiente na preveno do mais grave problema
social da atualidade. Grande parte dos professores
declarou com honestidade que a educao social
est falida, e isto no s em relao  preveno
de drogas.

                                                   67
A pior priso do mundo

      O que os nossos alunos esto aprendendo
ao longo de sua histria educacional? Esto
aprendendo Matemtica, Fsica, Qumica,
Biologia, mas no esto aprendendo a viver,     viver,
a proteger suas emoes e a desenvolver a
          pensar.
arte de pensar. A Educao precisa passar
por uma revoluo. Os professores deveriam
ser treinados e equipados para poder atuar
no campo da preveno e da qualidade de
vida dos alunos. Deveriam ser mais bem
remunerados para terem uma vida digna e
menos estafante. Educar  uma das tarefas
mais prazerosas, mas tambm uma das mais
desgastantes da inteligncia.
      Os dados iniciais da qualidade de vida dos
educadores mostram que eles so verdadeiros
heris annimos. Muitos esto to estressados que
no tm nenhuma condio de dar aula, mas ainda
assim, por amor  profisso e pelo prazer potico
de ensinar, esto em plena atividade. A quantidade
de sintomas psquicos e psicossomticos que a
classe dos educadores est experimentando 
enorme, tais como insnia, desmotivao, cansao
fsico exagerado, humor deprimido, hiper-
acelerao de pensamentos, ansiedade, cefalia,
vertigem (tontura).
      A educao social fica difcil de ser realizada
no apenas pelos problemas propriamente ligados
 escola, como tambm pelos problemas ligados
 personalidade dos alunos e pela qualidade de
vida debilitada dos educadores. Grande parte dos
68
                                   Augusto Jorge Cury

alunos s se preocupam com o prazer imediato,
esto alienados socialmente e no pensam no
futuro nem nas conseqncias do seu
comportamento. Os resultados disso? Um dos mais
graves  que a sala de aula se torna muitas vezes
uma verdadeira praa de guerra e no um canteiro
de inteligncia ou um ambiente de prazer.
      Professores e alunos esto em mundos
diferentes, com objetivos distintos. De um lado, esto
os professores querendo ensinar e de outro, esto
os alunos, cuja maioria, com as devidas excees,
no tem, como Plato proclamava, o deleite pelo
conhecimento, o prazer de aprender. Na poca de
Plato, o mestre era quase que exclusivamente a
nica fonte do conhecimento. Hoje, as fontes
multiplicaram-se. Os professores so apenas uma
fonte a mais. Eles, aos olhos dos alunos, se
tornaram pessoas desinteressantes, que no
conseguem competir com a TV e a internet e outros
meios de comunicao. Tenho repetido que a
psicopedagogia escolar precisa passar por
uma verdadeira reviravolta para que os
professores conquistem novamente o status
de mestre. Contudo, este  um assunto para outra
publicao.
      Se j  difcil ensinar as matrias clssicas,
exteriores  vida dos alunos, imagine como no
seria difcil ensinar matrias que os estimulem a
pensar, a rever suas rotas de vida, a lidar com suas
emoes! Por isso, diante da crise educacional atual,
a preveno de doenas psicossociais, como a
produzida pelas drogas, tem sido mnima.
                                                   69
A pior priso do mundo

      Todo os dias, milhares de jovens esto
iniciando o uso de drogas e muitos deles ficaro
dependentes e tero o curso de suas vidas
totalmente alterado. Como os alunos desenvolvero
uma personalidade saudvel se eles s conseguem
olhar o mundo com seus prprios olhos, se no
conseguem se colocar no lugar do outro e no tm
o mnimo de defesa emocional contra as doenas
que confinam a inteligncia num crcere?
      Se melhorarmos a qualidade de vida dos
educadores, treinando-os para que conheam o
funcionamento da mente e sejam capazes de
estimular as funes mais importantes da
inteligncia dos alunos, ser possvel reverter este
quadro.* Todavia, se no o revertermos, as
sociedades modernas se tornaro uma fbrica,
cada vez maior, de doenas psquicas.




* (A Academia de Inteligncia  um instituto dirigido pelo dr. Cury para
treinamento de psiclogos, profissionais de recursos humanos e educadores.
Endereo no final desta edio)

70
              4
            Captulo




A Cincia pouco pesquisa sobre o mais
        grave problema social
                                 Augusto Jorge Cury




        O que acontece no inconsciente que faz com
        que a dependncia se torne o mais drstico
crcere da inteligncia ou a pior priso do mundo?
Por que, em todo o mundo, milhares de jovens
colegiais e universitrios, que tm acesso a tantas
informaes, no conseguem usar sua cultura para
romper com as algemas dessa priso? Precisamos
entrar em algumas reas ocultas da mente para
desvendarmos esse processo.
     A dependncia de drogas no atinge apenas
os jovens. Conheo tambm diversos pais,
professores, empresrios e executivos que se
tornaram dependentes, e, infelizmente, deve haver
milhares deles espalhados pelas sociedades
modernas. Por que tais pessoas, que tm
conscincia do crcere das drogas, tambm
enfrentam grande dificuldade para reconstruir
novos captulos em suas vidas? O que faz com que
                                                73
A pior priso do mundo

pessoas lcidas sejam prisioneiras no territrio em
que deveriam ser mais livres? Alm de compreender
o funcionamento da mente, tambm precisamos
compreender o significado da droga no
inconsciente, para darmos respostas mais seguras
a essas perguntas.
     Antes de comear a respond-las, gostaria de
fazer uma crtica  Cincia. Eu disse que os
governos do ateno superficial ao campo da
preveno e do tratamento da dependncia das
drogas, mas a Cincia tambm  omissa em
relao a ela.
     H cientistas, financiados pelas indstrias
farmacuticas, gastando o melhor tempo de suas
vidas em ricos institutos de pesquisa para descobrir
as causas, fisiologia e tratamento de determinadas
doenas. Como tais pesquisas resultaro em
medicamentos que traro enormes retornos
financeiros, essas indstrias nem se importam em
gastar bilhes de dlares em pesquisas. No
entanto, como a dependncia de drogas no traz
retorno financeiro, ela  uma rea abandonada,
os poderosos laboratrios no financiam pesquisas
nesse campo. Nossos jovens esto sendo destrudos,
e poucos se importam com isso.
     H milhes de pessoas que vivem no crcere
das drogas, incluindo o lcool e medicamentos
psicotrpicos sem orientao mdica, dos quais se
destacam os tranqilizantes e os moderadores de
apetite, mas raramente encontramos pesquisadores,
mesmo nas universidades, preocupados com esse
grave problema social.
74
                                  Augusto Jorge Cury

     A falta de pesquisa tem gerado uma srie de
dvidas importantes. Espero que algumas delas
sejam dissipadas neste livro. Por exemplo, vamos
retomar o famoso e polmico caso do uso da
maconha.
     H muitas dvidas sobre a intensidade do mal
que essa droga causa. Sabe-se que ela pode alterar
a formao dos espermatozides, diminuir a
imunidade e impregnar o crebro com sua
substncia psicoativa, o tetrahidrocanabinol, por
vrios dias.  comum, como disse, ouvirmos que o
cigarro causa mais danos ao organismo do que a
maconha. Diante disso, alguns indagam: por que,
ento, ela no  liberada? Raramente, algum
consegue dar uma resposta convincente sobre esse
assunto.
     Eu no sou um jurista, portanto, no me
compete legislar sobre a liberao ou no da
maconha. Nem tampouco sou um pesquisador
bioqumico, capaz de dar respostas precisas sobre
os efeitos fsicos da maconha. Todavia, como
pesquisador do funcionamento da mente, quero dar
algumas respostas importantes sobre os efeitos das
drogas na construo da inteligncia.
     Vou relatar princpios universais que ocorrem
com o uso de qualquer substncia psicotrpica,
mesmo as medicamentosas. Como levantei a
questo da maconha, vou fazer uma pausa na
minha discusso e relatar sinteticamente seus efeitos
nas engrenagens da mente.
      A classificao das drogas, segundo o seu

                                                  75
A pior priso do mundo

efeito psquico, sofre variaes de acordo com a
tica do pesquisador. A maconha pode causar
alucinaes, mas o seu principal efeito 
tranqilizante. Como tranqilizante, seu efeito 
potente sobre o crebro, gerando uma
desacelerao dos fenmenos que fazem a leitura
da memria, retraindo, assim, o processo de
construo de pensamentos e induzindo a produo
de fantasias, ou seja, de experincias imaginrias
sem uma relao lgica com os parmetros da
realidade.
      Toda vez que uma pessoa faz uso de maconha,
o fenmeno RAM registra automaticamente na
memria os seus efeitos psicotrpicos. Desse modo,
a tranqilizao emocional potente, as fantasias e
a desacelerao da construo de pensamentos
so registradas continuamente no inconsciente. Esse
registro conduz  retrao de algumas das funes
cognitivas mais importantes da inteligncia, tais
como a capacidade de empreender, criar, superar
novos desafios, estabelecer metas e prioridades,
perseverar, motivar-se, gerenciar os pensamentos.
O uso contnuo e crnico da maconha contrai,
assim, as funes intelectuais, engessa a motivao
e a capacidade de liderana.
      O que est em jogo no  se a droga
deve ou no ser proibida, pois os binmios
certo e errado, proibido e no proibido, so
muito pobres. O que est em jogo  se a droga
compromete ou no o pleno funcionamento
da mente e o pleno desenvolvimento das
76
                                                      Augusto Jorge Cury

funes intelectuais. O que est em jogo  se
a droga financia a liberdade ou encarcera a
inteligncia. Ainda que alguns tipos de drogas
no afetem tanto o organismo, mas se elas
comprometem a capacidade intelectual e o
direito de ser livre, elas no deveriam ser
usadas.
      Esse princpio deve ser aplicado no apenas
s drogas qumicas, como tambm s drogas no-
qumicas, tais como a dependncia da esttica do
corpo, em que cada grama de peso destri o prazer
pela vida, a dependncia da internet e tantas outras
disponveis no mundo moderno.

                         Trs fenmenos

      Vamos penetrar, agora, em algumas reas
importantes da engrenagem da mente humana para
enxergarmos um pouco mais o crcere da emoo
produzido pelas drogas e outras doenas psquicas.
      Em primeiro lugar, quero dizer que a
inteligncia  mais do que emocional, como explica
a criativa teoria de Goleman, e  mais do que
mltipla, como to bem esclarece a inteligente teoria
de Gardner. A inteligncia  multifocal*. Engloba a
atuao da emoo e as mltiplas reas de
desenvolvimento da inteligncia, como a rea
musical e a rea lgico-matemtica. Como disse,
ao longo de muitos anos, desenvolvi uma teoria

* (Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal, editora Cultrix, So Paulo, 1998).


                                                                               77
A pior priso do mundo

original sobre o funcionamento da mente, chamada
de Inteligncia Multifocal. Como ela trata dos
fenmenos universais que esto na base da
construo dos pensamentos, ela no  uma teoria
que anula as outras, mas contribui com todas elas,
inclusive com as teorias aparentemente opostas, tais
como a psicanlise e a comportamental.
      Se compreendermos os assuntos que
comentarei aqui, teremos uma nova luz para
entender a gnese das doenas psquicas. Existe
uma srie de fenmenos que participam da
construo de cada pensamento, de cada reao
emocional e de cada momento em que estamos
conscientes. J comentei sobre dois deles, o
fenmeno da psicoadaptao e o fenmeno RAM.
Recordemos que o fenmeno da psicoadaptao
leva a uma diminuio da experincia emocional
frente  exposio do mesmo estmulo e o fenmeno
RAM  o fenmeno que registra automaticamente
todos os pensamentos e emoes na memria. A
seguir descreverei outros fenmenos importantes.
      Do conjunto desses fenmenos, trs participam
diretamente da dependncia de drogas e da
produo de doenas. O primeiro  o fenmeno
RAM (Registro Automtico da Memria); o segundo
 o fenmeno da autochecagem da memria
(fenmeno do gatilho); e o terceiro  o fenmeno
                  memria.
da ncora da memria
      Se entendermos, ainda que com limitaes, a
atuao desses trs fenmenos, veremos o horizonte.
O mecanismo da produo da farmacode-
78
                                  Augusto Jorge Cury

pendncia e de outros transtornos psquicos, tais
como a depresso, a sndrome do pnico e as
fobias, deixaro de ser um tabu incompreensvel.
     Os fenmenos do gatilho da memria e da
ncora da memria sero novamente enfocados
quando comentar sobre a terapia multifocal. Aqui
apenas farei uma sntese deles.

   O fenmeno da autochecagem da
    memria - O gatilho da alma

      O fenmeno da autochecagem da memria,
como o prprio nome sugere, autocheca na
memria os estmulos psquicos (ex. fantasias),
visuais e sonoros, gerando um gatilho que produz
as primeiras reaes, pensamentos e emoes nas
mais diversas situaes em que nos encontramos.
      As respostas rpidas e impensadas, as reaes
instantneas de ansiedade, irritao e
impulsividade, as reaes instintivas, os movimentos
musculares produzidos sem uma determinao
consciente e o menear da cabea, concordando
com nosso interlocutor ou discordando dele, so
exemplos de reaes produzidas pelo fenmeno
do gatilho da memria. Elas no foram
programadas ou elaboradas pelo eu, mas
produzidas automtica e espontaneamente.
      O fenmeno da autochecagem detona o
gatilho. Toda vez que vemos um objeto ou uma
palavra ns os identificamos automaticamente
graas ao gatilho psquico. Esse conduz o estmulo

                                                 79
A pior priso do mundo

visual at o crtex cerebral e o autocheca nos
arquivos da memria. A angstia e a indignao
inicial quando algum nos ofende ou nos rejeita
no foram programadas pelo eu, mas foram
geradas pelo gatilho da memria. Notem que no
teramos determinadas reaes instantneas de
agressividade e impulsividade se pudssemos
control-las. O fenmeno do gatilho da memria
desencadeia as primeiras reaes nas relaes
sociais.
      O que esse fenmeno tem a ver com a
dependncia qumica? Ele  o grande responsvel
por detonar o desejo compulsivo de usar uma nova
dose de droga, ou seja, por desencadear o crcere
da emoo.
      Um dependente tem desejo compulsivo de
usar droga o dia todo, ainda que ele que seja um
grave dependente? No! Esse conceito  errado.
Ele s vai detonar inconscientemente esse desejo
em determinados momentos do seu dia, tais como,
quando est na turma de amigos ou vivenciando
uma experincia de solido, angstia ou ansiedade.
      Uma pessoa portadora de sndrome do pnico
tambm  vtima do gatilho da memria. Ela pode
estar tranqila em grande parte do seu tempo, mas,
de repente, por diversos mecanismos que no cabe
aqui discorrer, o gatilho  detonado, gerando uma
reao fbica intensa, um medo sbito de que vai
morrer ou desmaiar. A sndrome do pnico  o
teatro da morte.  totalmente possvel resolv-la,
mas as reaes geradas por ela so muito
angustiantes.
80
                                     Augusto Jorge Cury

   Aprender a reescrever a histria e a gerenciar a
tenso produzida pelo gatilho da memria  o
grande desafio teraputico na resoluo do crcere
da dependncia e dos demais transtornos ansiosos,
como a sndrome do pnico e as obsesses. Tais
assuntos sero tratados no penltimo captulo.

  O fenmeno da ncora da memria

     A memria  formada por milhares de
arquivos que se interconectam mutuamente,
contendo bilhes de informaes e de experincias
acumuladas ao longo da vida. Ela no est toda
disponvel para a leitura. Est acessvel por territrio,
por grupo de arquivos. ncora da memria ,
portanto, o territrio de leitura disponvel da
memria em um determinado momento da vida de
um indivduo.
     Dependendo da abertura da ncora, uma
pessoa ter melhor ou pior desempenho intelectual,
melhor ou pior segurana, melhor ou pior condio
de reagir, pensar, sentir.
     Por que uma pessoa flui livremente seus
pensamentos quando est sozinha ou diante dos
ntimos, mas tem grande dificuldade de liberar suas
idias quando est em pblico? Por que um
esportista pode ter um timo desempenho nos
treinos, mas um pssimo desempenho no exato
momento da competio? Tudo depender da
disponibilidade do territrio de leitura da memria.
     Se uma pessoa est tensa, estressada, ansiosa,
em determinada situao, poder fechar a ncora

                                                      81
A pior priso do mundo

da memria, restringir seu territrio de leitura e,
conseqentemente, comprometer a eficincia da
sua inteligncia. Se fechamos a ncora, contramos
o raciocnio; se a abrimos, expandimos a produo
das idias. As pessoas tmidas, por se sentirem
ameaadas e excessivamente vigiadas no ambiente
social, esto continuamente fechando o territrio
de leitura da memria e prejudicando sua liberdade
de pensar e sentir.
    A ncora da memria  muito sensvel 
intensidade das emoes, por isso, os transtornos
psquicos e os estmulos estressantes, se no forem
bem gerenciados, podero conspirar contra ela.
Pessoas inteligentes e lcidas podero ter pssimo
desempenho em determinados focos de tenso.
     O que a ncora tem a ver com a dependncia
das drogas? Tudo! Quando uma pessoa detona o
gatilho da memria, gerando um desejo compulsivo
de usar as drogas, esse gatilho direciona a ncora
para determinados arquivos ligados s experincias
de drogas. Assim, o usurio no pensa em outra
coisa a no ser em us-las. Eis o crcere gerado
pelas drogas. A mais completa definio de
dependncia psicolgica passa pela explicao
desses fenmenos.
      s vezes, o gatilho foi detonado horas antes
do uso, deslocando o territrio de leitura da
memria para as zonas da dependncia. A
conseqncia disso  que os usurios comeam a
ter um desejo quase que incontrolvel de usar as
drogas e, por isso, trabalham engenhosamente
82
                                  Augusto Jorge Cury

para procurar uma nova dose, como tentativa de
aliviar a tenso gerada por essa compulsividade.
A face deles at muda. A serenidade  implodida.
So to controlados pela ncora da memria que
mentem para si mesmos e para o mundo que no
vo us-las, mas no fundo sabem que iro.
      A mentira e o uso de drogas so dois amantes
que moram na mesma casa, no cerne da alma dos
dependentes. No  possvel vencerem as drogas
sem aprender a ser autnticos, sem aprender a ser
honestos at s ltimas conseqncias. O primeiro
golpe na farmacodependncia  aprender a
banir a mentira e viver a arte da autenticidade.
      A ncora da memria tem outras funes
importantes na inteligncia, que aqui no detalharei.
Por meio dela, produzimos um universo de
pensamentos sobre um determinado assunto ou
situao. Entretanto, como j disse, se ela se fecha
rigidamente num territrio especfico da memria,
 capaz de exercer uma verdadeira ditadura da
inteligncia, que trava a capacidade de pensar. Por
isso, quando afirmo que as drogas causam a pior
priso do mundo, refiro-me ao fato de os usurios,
sob o jugo do desejo compulsivo de us-las,
perderem completamente a liberdade de pensar e
decidir.
      A no ser que o eu, representado pela
vontade consciente, atue com coragem para abrir
a ncora, para expandir o territrio de leitura dos
arquivos da memria, o usurio ser um escravo
de sua dependncia nos momentos de compulso.

                                                  83
A pior priso do mundo

Ocorre o mesmo quando travamos nossa
capacidade de pensar em situaes tensas. A no
ser que nos interiorizemos nessas situaes e
silenciosamente critiquemos os focos de tenso, bem
como os pensamentos negativos que estamos
tendo, no conseguiremos resgatar a liberdade de
pensar.
      Da prxima vez em que travarmos nossas
inteligncias, vamos deixar de ser passivos e
partir para um ataque ntimo e silencioso nos
territrios da memria. Como fazer isso? 
necessrio criatividade, produzir pensamentos
contra tudo o que est nos algemando.
                       ouvir,
Ningum precisa ouvir, mas devemos fazer
uma verdadeira revoluo clandestina, no
importa onde estivermos.
      Retornando  dependncia de drogas, ao invs
de criticarmos e marginalizarmos os usurios,
deveramos compreend-los e acolh-los com o
maior respeito e considerao. Estudaremos como
fazer isto.  fcil julg-los e conden-los, mas 
difcil colocar-se no lugar deles e perceber as
amarras construdas nos bastidores de suas mentes.

     A barata transformando-se em um
       dinossauro: o fenmeno RAM

      Como vimos, o fenmeno RAM  o registro
automtico na memria de todas as experincias.
Ele registra de maneira privilegiada as experincias
que tm mais emoo, sejam elas prazerosas ou
angustiantes.
84
                                  Augusto Jorge Cury

      Se fizermos uma varredura em nosso passado,
verificaremos que temos mais facilidade de recordar
as experincias mais frustrantes ou as mais alegres.
Elas foram registradas em reas importantes da
memria, o que as torna disponveis para serem
lidas e utilizadas na construo de novas cadeias
de pensamentos e de novas emoes.
      Como as drogas produzem efeitos intensos na
psique, esses efeitos ocupam espaos importantes
nos arquivos inconscientes da memria. Some-se a
isso, as experincias emocionais de um usurio, as
quais no so nada serenas nem tranqilas. Por
serem borbulhantes, tais experincias tambm so
registradas privilegiadamente, contribuindo para
produzir o crcere da inteligncia.
      Toda vez que o usurio vai usar uma nova
dose de droga, sua emoo est sob um foco de
tenso, caracterizado por euforia, angstia, medo,
ansiedade, apreenso. Imagine o impacto que uma
droga estimulante ou alucinante causa em uma
emoo que j est previamente tensa. As
experincias psquicas resultantes so intensas, mais
intensas do que os elogios numa festa de
aniversrio, o recebimento de um diploma ou a
emoo de uma partida final de campeonato
esportivo. Tais experincias so registradas na
memria, usurpando reas nobres que deveriam
ser ocupadas por sonhos, projetos, metas, relaes
sociais. Por isso, como relatei, os dependentes
tornam-se velhos em corpos jovens. O inconsciente
deles fica saturado de experincias angustiantes e
turbulentas.
                                                  85
A pior priso do mundo

      D para entender, por meio desse mecanismo,
porque os dependentes qumicos, com o passar do
tempo, perdem o encanto pelos pequenos detalhes
da vida, perdem o interesse pelas coisas singelas e
no conseguem extrair o prazer das coisas comuns
e normais. S procuram prazer naquilo que foge
do padro da normalidade. Vivem errantes,
procurando grandes estmulos para sentir um pouco
de prazer. Eles, mesmo odiando essa masmorra,
gravitam em torno do efeito psicotrpico destas
mseras substncias.
      Um usurio de cocana tem sensaes
paranicas durante o efeito da droga. Sente uma
mescla de excitao com medo e tem idias de
perseguio. A reproduo contnua dessas
experincias superdimensionam a expectativa dos
efeitos das drogas, retroalimentando a imagem
delas no inconsciente.
      Trocando em midos, cada vez que usam a
droga e registram os seus complexos efeitos
intensos, eles cavam a prpria sepultura, constroem
o prprio crcere. A droga registrada no
inconsciente vai, assim, pouco a pouco, ficando
muito maior do que a droga qumica. Ela, que no
incio era como uma pequena barata, fcil de ser
eliminada, transforma-se paulatinamente num
enorme dinossauro, confeccionado no inconsciente.
A imagem superampliada no territrio da memria
aprisiona o grande lder da inteligncia, o eu.
      Quanto mais a droga aumenta o monstro no
inconsciente, mais difcil fica elimin-lo, por isso,

86
                                 Augusto Jorge Cury

embora seja possvel destru-lo em qualquer poca
da vida,  mais fcil nos estgios iniciais.
      Agora fica fcil entender que a dependncia
 uma atrao irracional, enquanto a fobia  uma
averso irracional. A dependncia  produzida
quando se superdimensiona no inconsciente o
objeto da atrao, que, no caso, so as drogas,
enquanto toda e qualquer fobia  produzida quando
se superdimensiona o objeto da averso, que, no
caso, pode ser um animal ou at um elevador.
      No momento em que uma pessoa est tendo
uma reao compulsiva pelas drogas, sua
inteligncia bloqueia-se, impedindo-a de pensar
com liberdade at que consiga uma nova dose da
droga. Do mesmo modo, no momento em que uma
pessoa est tendo uma reao fbica, sua
inteligncia trava-se e ela no consegue pensar em
mais nada a no ser em fugir do ambiente
estressante.
      Com o passar do tempo, a droga, enquanto
substncia qumica, no  mais o grande problema.
O grande problema torna-se a imagem dela tecida
nos bastidores da mente. Essa imagem  que
sustenta a dependncia psicolgica.
      Como apagar a imagem ou estrutura
inconsciente da droga que financia a dependncia
psicolgica?  impossvel. No se apaga nem se
deleta a memria, apenas se pode reescrev-la.
Filosoficamente falando, no  possvel destruir o
passado para reconstruir o presente, mas  possvel
reconstruir o presente para reescrever o passado.

                                                87
A pior priso do mundo

No d para apagar o que registramos, mas
podemos reorganiz-lo, substitu-lo, refilm-
lo, por meio de novas atitudes, experincias,
sonhos, projetos, relaes sociais e novas
maneiras de ver a vida e reagir aos eventos
do mundo.
      Freud discorreu sobre o inconsciente, mas no
investigou os fenmenos que lem a memria e
constroem pensamentos. Por isso, no compreendeu
que para resolver os traumas do passado 
insuficiente traz-los  conscincia e trabalh-los; 
to ou mais necessrio reconstruir a cada momento
de nossas existncias um universo de idias e
pensamentos novos, ricos e sbios, que vo abrindo
novas avenidas na memria e nos pores incons-
cientes.
      Por que no conseguimos apagar a memria?
Porque no temos habilidade para isso, nem acesso
aos dados registrados e no temos sequer
conhecimento de onde esto os lcus (locais) das
experincias doentias, ou seja, no sabemos onde
elas foram registradas. Em que reas do nosso
crebro foram registradas nossas experincias mais
angustiantes? No sabemos.
      Para termos uma idia da complexidade da
memria, apenas uma rea do tamanho da ponta
de uma caneta em certas regies do crtex cerebral
contm milhes de experincias e informaes.
Como localiz-las e delet-las? Como separar as
experincias doentias das saudveis? Impossvel.
Portanto, como estudaremos, a nica possibilidade
88
                                  Augusto Jorge Cury

que resta ao homem  reconstruir uma nova vida,
 reescrever os captulos principais de sua nova
histria.
       uma corrida contra o tempo. Quanto mais
tempo um usurio passa sem as drogas, mais ele
vai arquivando novas experincias. Em um dia
saudvel, ele pode arquivar centenas ou milhares
de novas experincias, reeditando assim a sua
histria. E se o eu atuar nesse processo de
reconstruo, se ele resolver no ser mais doente,
mas ser um agente modificador da sua histria, ele
impulsiona esse processo.
      Repito: depois de instalada a dependncia, o
problema no  mais a droga, mas o arquivo
registrado sobre ela. Descaracterizar o monstro
virtual, desorganizar esta representao clandestina,
torna o tratamento da farmacodependncia uma
das mais complicadas engenharias da Psicologia
e da Psiquiatria.
      Se houver a colaborao corajosa, lcida e
completa do paciente, o tratamento poder ser
coroado de xito, ainda que haja algumas batalhas
perdidas pelo caminho; mas, se houver uma
colaborao frgil, instvel e parcial, o tratamento
estar fadado ao insucesso.




                                                  89
              5
            Captulo




Cientfica e psicologicamente, o que
           so as drogas?
                                 Augusto Jorge Cury




         Conhecer alguns conceitos e definies
         cientficos sobre o assunto  fundamental
para se ter o alicerce adequado e uma melhor
compreenso do problema. Veremos a seguir como
so definidas as drogas que causam dependncia
(os chamados psicotrpicos), em que consiste a
dependncia psicolgica e a fsica, e qual o
significado do conceito de tolerncia, fenmeno que
leva os usurios de drogas a necessitarem de doses
cada vez maiores.

     a  Psicotrpico (txico)

      Psicotrpico  o nome cientfico dado s
drogas que causam dependncia psicolgica e, s
vezes, fsica. Essas substncias entram na corrente
sangnea  por via oral, endovenosa (injeo na
veia) ou por inalao  e vo at o sistema nervoso

                                                93
A pior priso do mundo

central (o crebro), onde agem, interferindo de
forma ainda no totalmente esclarecida no campo
de energia emocional e intelectual de um indivduo.

     b     Farmacodependncia (toxicomania)

     Farmacodependncia  o estado psquico,
e s vezes fsico, causado pela ao de um farmaco
(droga) em um organismo vivo, o que modifica o
comportamento e gera um desejo irreprimvel de
tomar a droga de forma contnua ou peridica,
com o objetivo de experimentar seus efeitos
psicolgicos, ou para evitar o mal-estar que a
ausncia da droga produz no organismo.
     Se a palavra txico no deve ser empregada
para designar as drogas que causam dependncia,
tambm a palavra toxicomania (mania de usar
txicos) no deve ser relacionada com seus
usurios. Alis,  um erro grave taxar as pessoas
dependentes de drogas de toxicmanos, viciados
ou mesmo farmacodependentes, pois, ao tax-las
assim, desprezamos as partes saudveis de suas
personalidades e supervalorizamos as partes
negativas. Valorizar aspectos positivos da
personalidade de uma pessoa dependente de
drogas  o primeiro passo para ajud-la.

     c  Dependncia psquica

     Dependncia psquica, como vimos,  a
relao estreita e dependente que um usurio tem
94
                                 Augusto Jorge Cury

com uma droga psicotrpica em virtude da
representao inconsciente e superdimensionada
que a droga tem em sua memria.
      Nem todas as drogas causam dependncia
fsica, mas todas so capazes de provocar, em
diversos graus, a dependncia psquica.
      Por pelo menos trs tipos de motivao ou de
reforos psicolgicos, as pessoas cedem s drogas.
De extrema complexidade, procuraremos, no
entanto, simplificar. A dependncia  caracterizada
por uma representao psicolgica inconsciente da
droga, que canaliza as energias psquicas para um
desejo forte e, s vezes, incontrolvel de us-la.
Tentarei explicar simplificadamente os mecanismos
que produzem a dependncia psicolgica.

       1. Reforo psicolgico positivo: busca-se
       experimentar drogas com o objetivo de
       obter prazer. Essa motivao geralmente 
       apoiada pela curiosidade pessoal dos
       jovens, pela influncia de amigos ou mesmo
       de algum traficante, pela presso do grupo
       etc. O reforo psicolgico positivo  a porta
       de entrada colorida para a dependncia
       psicolgica.

       2. Reforo psicossocial: trata-se do apelo
       aos efeitos psicolgicos da droga para
       suportar problemas, tenses e dificuldades
       sociais e pessoais, ou como forma de fugir
       deles. Muitos usam o lcool etlico como

                                                 95
A pior priso do mundo

        facilitador das relaes sociais. Esse tipo de
        motivao  sustentado pelos conflitos no
        relacionamento familiar, pelos transtornos
        psquicos, pela rejeio social, pelas
        dificuldades financeiras, etc. Todos ns
        passamos por problemas e dificuldades na
        vida, que muitas vezes so difceis de
        suportar, mas nada justifica a utilizao de
        drogas como tentativa de amenizar essas
        tenses. O uso de drogas nesses casos
        torna-se uma muleta qumica, incompatvel
        com o equilbrio e a maturidade de vida.

        3. Reforo psicolgico negativo: nesse
        estgio, chegamos  dependncia
        psicolgica propriamente dita. Aqui, a
        pessoa que usa drogas no o far apenas
        para buscar algum tipo de prazer ou para
        suportar seus problemas, mas para aliviar
        os efeitos psicolgicos indesejveis,
        decorrentes da absteno. O indivduo que,
        durante semanas ou meses, habituou-se a
        drogas estimulantes, como a cocana, o
        crack, a merla (subproduto da cocana); aos
        moderadores de apetite: Hipofagin, Inibex;
        a frmulas de moderadores de apetite que
        contm substncias como femproporex,
        anfrepramona etc.; a calmantes como Lorax,
        Tensil e outros; ou mesmo  nicotina dos
        cigarros;  maconha e outras mais, ao
        parar de us-las, sentir insnia, angstia,
96
                                 Augusto Jorge Cury

       depresso, ansiedade e irritabilidade. O
       grau dos sintomas variar de acordo com
       a intensidade da dependncia, do tipo de
       droga usada, da freqncia do uso e
       tambm do tipo de personalidade do
       dependente. De qualquer maneira, so
       esses efeitos psicolgicos indesejveis,
       detonados a partir do fenmeno do gatilho
       da memria, que caracterizam a
       dependncia psicolgica e levam o
       indivduo a buscar, s vezes com grande
       desespero, novas doses para aliviar tais
       sofrimentos.

      A cocana no provoca dependncia fsica,
como muitos pensam, mas somente a dependncia
psquica, o que a torna uma droga mais sutil, pois
seus usurios dificilmente reconhecem que esto
dependentes, a no ser numa fase tardia. Quando
o gatilho do desejo compulsivo  detonado, surge
um estado de ansiedade, angstia e inquietao
que os conduz a procurar uma nova dose da droga
para tentar se aliviar.
      Se compreendermos o que  essa
dependncia, tambm entenderemos por que
tantos jovens aplicam drogas nas veias com seringas
contaminadas, indiferentes ao perigo de contrair
infeco fatal, e por que muitos deles so capazes
de atitudes extremadas para obter uma nova dose
da droga.
      O crack (cocana misturada com bicarbonato

                                                97
A pior priso do mundo

de sdio) e a merla (pasta base da cocana) so
fumadas. Dessa forma, a cocana atinge o cerbro
mais rapidamente, gerando uma grave
dependncia psquica, bem como srios riscos de
produzir uma parada cardiorespiratria por
overdose.

     d  Dependncia fsica

      Dependncia fsica  a capacidade que uma
droga tem de passar a fazer parte do metabolismo,
da vida do organismo, a tal ponto que, na sua
falta, o organismo produz reaes intensas, reaes
de sofrimento  a chamada sndrome de retirada
ou de abstinncia. Essa sndrome pode produzir
desde sinais e sintomas leves at morte.
      A maioria das drogas causa pouca
dependncia fsica, mas o lcool etlico, os
barbitricos (Gardenal, Nembutal, etc.) e os
derivados do pio (herona, morfina, codena, etc.)
produzem alta dependncia. Em alcolatras
crnicos, por exemplo, a falta de lcool provoca
tremores nas mos, ansiedades, alteraes
cardiovasculares; nos estgios mais avanados,
alucinaes, iluses auditivas, visuais ou tteis, febre
e colapso cardiovasculatrio, por vezes, irreversvel.
      Os sintomas da privao de barbitricos so
semelhantes aos do lcool, com a agravante de
provocar sucessivas crises convulsivas, levando o
indivduo a um grave esgotamento fsico que pode
ser at fatal. E sem morfina, herona e outros
derivados do pio, seus cativos so atormentados
98
                                 Augusto Jorge Cury

por sudorese (excesso de suor), insnia, ansiedade,
vmitos, diarria, dores generalizadas, febre e
alteraes cardiovasculares.
      Lembro-me de uma jovem chamada N. J. que
esteve sob meus cuidados num hospital em Paris.
Ela era dependente de herona. Em alguns perodos
do dia, ela costumava dar-me algumas aulas de
francs; em outros, eu tentava ajud-la a
compreender os bastidores de sua mente.
      N. era uma jovem inteligente, bonita e dcil,
mas sofria intensamente com sua dependncia fsica
e psquica. O que mais me chamava a ateno
eram os sintomas da dependncia dessa droga,
eram as dores generalizadas que ela e outros
sentiam aps o primeiro dia de interrupo do uso.
Eles choravam, angustiavam-se, vomitavam e tinham
crises de dores intensas. Essas dores funcionavam
como um estmulo desesperador para que usassem
uma nova dose da droga para se sentirem aliviados.
      N. me dizia com ar angustiante que, se no
parasse de usar a droga, ela poria um fim  sua
vida, tamanha era a angstia que sentia para
conseguir todos os dias uma nova dose para no
reproduzir os sintomas de abstinncia. Eu procurava
abrir as janelas de sua mente e mostrar que ela
podia realmente se libertar do crcere da
dependncia.
      Por causa da sndrome de abstinncia, muitos
usurios roubavam ou vendiam o prprio corpo
na capital francesa para conseguir cerca de cem
dlares por dia para comprar herona. So seres
humanos como qualquer um de ns, mas travam

                                                99
A pior priso do mundo

diariamente uma luta infernal, inumana, para
sobreviver, uma luta com a qual jamais sonharam
que um dia viveriam.
      Se os iniciantes pudessem ver o futuro, no
haveria necessidade de policiamento nem de
conteno do trfico.
      O usurio de cocana tem tendncia a ser mais
auto-suficiente e mais difcil de ser ajudado do que
o usurio de herona, embora a herona gere uma
dependncia mais grave, tanto fsica como psquica.
O grande problema, como salientei,  que o usurio
de cocana dificilmente reconhece sua dependncia
nos primeiros meses e anos de uso, pois tem sempre
a falsa impresso de que ir parar de usar a droga
quando quiser. Mal sabe que possui um monstro
virtual nas entranhas do seu inconsciente, que
costuma acordar nos fins-de-semana ou aps um
ou mais dias de uso.
      Quem usa herona, por possuir graves
sintomas fsicos com a absteno da droga,
reconhece com humildade que est doente logo
nos primeiros meses e, por isso, procura ajuda
com mais facilidade, muitas vezes sem qualquer
presso social ou familiar.

         Tolerncia
      e  Tolerncia  droga

       a necessidade de o indivduo usar doses
cada vez maiores da droga para obter os mesmos
efeitos que sentia no incio. Existem trs tipos de
tolerncia: a comportamental, a farmacodinmica
e a farmacocintica.
100
                                Augusto Jorge Cury

      A tolerncia comportamental  uma
adaptao aos efeitos psicolgicos da droga; a
farmacodinmica  uma adaptao no lugar
especfico do crebro onde as drogas atuam, de
forma que a resposta se torna reduzida; e a
farmacocintica consiste na destruio mais rpida
da droga no sangue, principalmente por causa da
ativao de enzimas no fgado.
      Os trs tipos de tolerncia cooperam juntos
para que as drogas diminuam seus efeitos, e por
isso mesmo os usurios recorrem a doses cada vez
mais elevadas, s vezes at letais, como  o caso
da cocana, que, em doses altas, mata por parada
respiratria. Todas as drogas, em maior ou menor
grau, sofrem certa tolerncia no organismo
humano.




                                              101
       6
     Captulo




Como algum se torna
dependente de drogas?
                                                 Augusto Jorge Cury




         Neste captulo estudaremos as principais
         causas psquicas e sociais do uso de drogas.
Tambm farei um comentrio sobre a influncia
gentica.
      Descreverei as causas didaticamente, usando
os dados de uma pesquisa que realizei com cerca
de 510 universitrios, dos quais 244* responderam
que usaram ou ainda esto usando algum tipo de
droga psicotrpica, mesmo que seja medica-
mentosa e prescrita por mdicos.
      Pedimos aos entrevistados que no se
identificassem para que tivessem liberdade em suas
respostas. O resultado  mostrado a seguir.
      O resultado da pesquisa  mostrado no grfico
na pgina 106 e analisado neste captulo.

* Esse nmero corresponde a 47,8% do total da amostra.


                                                               105
A pior priso do mundo




    Diante desses dados, fizemos a seguinte
pergunta a este grupo de usurios:

      Qual a causa ou as causas que o levaram a
usar drogas?

     As prescries mdicas e as farmcias (sem
prescrio mdica).

      De acordo com os dados, a causa mais
freqente que levou os universitrios a usarem
alguma droga psicotrpica foi a prescrio mdica,
ou receitas mdicas.  claro que muitas dessas
drogas fizeram parte de um tratamento mdico a
que o entrevistado estava sendo submetido, apesar
de haver notcias de que mdicos vendem receitas
psicotrpicas a pessoas viciadas, o que  crime.
      A maioria das drogas psicotrpicas receitadas
pelos mdicos so moderadores de apetite,
inibidores do sono, indutores do sono, ansiolticos
106
                                  Augusto Jorge Cury

ou calmantes, xaropes para tosse, relaxantes
musculares de ao central, etc.
      A indstria dos psicotrpicos ser a indstria
farmacutica mais poderosa do sculo XXI. Em um
mundo em que reina a competio predatria, o
individualismo e a parania de ser o n1, os
transtornos ansiosos e os estresses batem s portas
de qualquer um, mesmo dos mais saudveis. No
caos em que se encontra a qualidade de vida, os
medicamentos psicotrpicos surgem como o
grande aliviador das misrias psquicas, embora
no atuem nas causas nem conduzam o ser humano
a administrar seus pensamentos e a gerenciar suas
emoes.
       Os medicamentos psicotrpicos deveriam
ser     atores    coadjuvantes      do    processo
teraputico. O ator principal  o prprio
homem, que deveria aprender a proteger sua
emoo, lidar com suas intempries e repensar
suas atitudes diante da vida.
      Nunca os mdicos receitaram tantos
psicotrpicos como na atualidade. Infelizmente,
muitos no orientam seus pacientes sobre o risco
da dependncia, nem sobre a necessidade de
suspender a medicao aps determinado tempo
e sobre a melhor maneira de fazer essa suspenso.
Tal atitude causa a dependncia, uma iatrogenia
mdica, um erro mdico.
      A dependncia de certos medicamentos, como
os calmantes, raramente causa transtornos
importantes como as drogas ilcitas, isso se forem

                                                107
A pior priso do mundo

tomados nas doses prescritas pelos mdicos. Os
antidepressivos dificilmente causam dependncia
importante, por isso sua retirada  tranqila, desde
que seja feita paulatinamente.
      A dependncia dos moderadores de apetites
 bem mais grave. Em razo da parania da
esttica divulgada nos meios de comunicao, as
mulheres so massificadas com o padro do belo,
do corpo atraente. As jovens magrrimas das
passarelas, que muitas vezes so infelizes,
deprimidas e escravas da prpria esttica, tornam-
se modelo para milhes de mulheres que, em tese,
poderiam ser mais felizes e mais livres que elas. A
beleza deveria estar nos olhos de quem as v e
no nas curvas do corpo.
      Como no conseguem ter o padro esttico
desejado, elas se deprimem e se angustiam muito.
No poucas jovens desenvolvem graves transtornos
psquicos, como a bulimia, que tem entre os sintomas
o comer compulsivo associado a vmitos, ou a
anorexia nervosa, que gera uma ruptura drstica
do instinto da fome, conduzindo algumas a
morrerem de inanio.
      Muitas mulheres tm uma necessidade doentia
e compulsiva de emagrecer. Preocupam-se mais
com a embalagem do corpo do que com o territrio
da emoo, do que em serem felizes, soltas,
dinmicas, realizadas. O mundo delas  do
tamanho do seu corpo. Por isso, tomam tudo e
fazem tudo para alcanar o padro esttico
massificado imposto pela sociedade. Muitas tomam
108
                                  Augusto Jorge Cury

moderadores de apetite, indiscriminadamente,
ignorando que suas frmulas contm estimulantes
potentes, tais como o femproporex e a
anfepramona. Se no forem usados sob rigoroso
controle mdico, essas drogas causam dependncia
nos nveis da cocana e, em alguns casos,
transtornos cardiocirculatrios. Conheci pessoas que
morreram pelo uso abusivo desses medicamentos.
      Devemos considerar a dependncia de
medicamentos como um problema srio. Uma vez
dependente, a pessoa comea a pressionar o
mdico para receit-los, relatando sintomas que
so da sndrome de abstinncia e no da sua
prpria doena. Outros procuram tais medi-
camentos nas farmcias, sem prescrio mdica.
Embora haja muitas farmcias srias, h sempre
algumas que burlam a lei.




                                                109
A pior priso do mundo

      Outra pergunta feita aos universitrios:

      Na sua experincia, qual a fonte mais fcil
para voc adquirir droga psicotrpica?

      Se compararmos o quadro da pgina anterior
com o da pgina 106, poderemos observar que,
dos 109 universitrios que apontaram as receitas
mdicas como causa do uso de drogas, apenas
73 continuaram assinalando a prescrio mdica
como fonte onde obtm a droga. Isso indica que
os restantes conseguem a droga sem a
intermediao do mdico, o que justificaria o
nmero significativo de entrevistados que
conseguem a droga nas farmcias, sem prescrio
mdica. Isso  um forte indcio de que muitos
comearam a usar drogas psicotrpicas para
tratamento mdico e, depois, como dependentes,
continuaram a us-las fora de controle e superviso
mdica, adquirindo-as nas farmcias, mesmo sem
receita do mdico.
      Um paciente de 50 anos de idade, advogado,
dependente de calmantes (Pscicopax, Lorax) h mais
de seis anos, procurou-me para libertar-se desses
medicamentos. Segundo ele, o mdico que lhe
receitou tais calmantes, pela primeira vez, no o
advertiu sobre os perigos da dependncia. Por isso,
ele os tomava de forma indiscriminada. Quando
tentou parar de us-los, no conseguiu, pois sentia
mal-estar, tremores, ansiedade, etc. Tal caso
demonstra o perigo que existe na falta de orientao
110
                                  Augusto Jorge Cury

e a responsabilidade que ns, mdicos, temos
quando receitamos um psicotrpico ao paciente.

     1 - Influncia de amigos

      Uma rvore, quando gera seus pequenos
frutos, sabe como proteg-los, envolvendo-os numa
flor ou invlucro;  medida que cresce, o fruto vai
se tornando mais exposto ao ambiente externo e,
portanto, sujeito a sofrer as perturbaes desse
meio. Do mesmo modo, quando os pais geram
seus pequenos filhos, protegem-nos e vivem ao
redor deles; mas  medida que eles crescem,
comeam a ficar mais expostos  sociedade, s
suas perturbaes e influncias. Freqentemente,
os adolescentes e os adultos jovens so mais
susceptveis a essas influncias
      O homem  um ser social. Ningum fica
plenamente ilhado em seu prprio mundo. Os
grupos sociais penetram sob diversas formas no
palco de nossas vidas.
      Nos grupos de trabalho, o que une os
membros  a execuo das tarefas. Entre eles existe
uma relao mais fria, distante. Fora do ambiente
de trabalho, eles tm poucas razes. Quando os
membros de um grupo de trabalho se desentendem
ou se agridem, em geral, ocorre uma separao
drstica, s vezes, definitiva. No grupo familiar,
graas aos laos afetivos inconscientes, as relaes
normalmente se reatam, embora, em alguns casos,
isso leve anos para acontecer.
      Nos grupos de lazer, o que sustenta o

                                                111
A pior priso do mundo

relacionamento  a busca conjunta de prazer e de
relaxamento. Nos adultos, esses grupos no tm
muita estabilidade e consistncia, porque os laos
entre eles no costumam ir alm da sala de visitas,
ou seja, no atingem reas mais ntimas de suas
vidas. To logo dois elementos do grupo entrem
em atrito, ocorre o rompimento do relacionamento.
Quando se renem no clube, numa festa,  beira
de uma piscina ou num restaurante, raramente
compartilham seus conflitos e dificuldades.
      No caso dos jovens acontece o contrrio. Eles
so bem mais fiis s amizades e, por isso, suas
relaes so mais estveis. Mesmo quando brigam,
voltam a se unir. No caso dos adolescentes, as suas
prprias brincadeiras costumam ser agressivas. Eles
invadem e tocam fisicamente a vida dos seus
colegas com facilidade. So mais dados a
confidncias que os adultos e, geralmente,
compartilham uns com os outros os problemas e
atritos que tm com os pais, as aventuras e
dificuldades escolares, sexuais, etc. Por tudo isso,
os jovens recebem uma influncia marcante uns dos
outros. Ser diferente do grupo significa ser rejeitado,
estar por fora, no ser algum realizado nessa
fase da vida.
      No  de admirar que estes jovens, por serem
fiis e confidentes uns aos outros, sejam
influenciados pelos amigos que usam drogas. Alm
disso, porque muitos pais no penetraram no
mundo dos seus filhos e no conseguiram ser
amigos deles, facilmente eles quebram os padres
de comportamento aprendidos em casa, achando
112
                                 Augusto Jorge Cury

que podem viver sozinhos, que j sabem se cuidar,
que os pais esto atrasados no tempo.
      Se os jovens no aprenderem a arte de pensar,
no desenvolverem uma conscincia crtica, no
tiverem metas e sonhos, podero ser facilmente
influenciados pelos amigos que usam droga , os
quais esto pulverizados em todos os cantos da
sociedade. H mais pontos de drogas nas cidades
do que farmcias e butiques. Notem que 14,7%
dos universitrios que usaram algum tipo de droga
disseram que o fizeram por influncia de amigos; e
esse nmero deve ser ainda maior na medida em
que essa porcentagem representa apenas aqueles
que perceberam essa influncia, enquanto muitos
outros no chegaram a ter conscincia dela.
      O mundo das drogas tem um apelo fantstico,
mas falso: o prazer e a liberdade. Todos procuram
em tudo o que fazem o prazer e a liberdade; os
jovens mais ainda. Neles pulsa o sonho de serem
livres e felizes, portanto, eles se tornam
consumidores vidos de tudo o que  capaz de ir
ao encontro desse sonho. O mundo das drogas
encontra neles o consumidor ideal. Nunca um sonho
se tornou um pesadelo to intenso. Nunca a busca
do prazer e da liberdade produziu homens to
infelizes e prisioneiros.

    2 - Curiosidade ou desejo de uma nova
experincia

     Essa tambm  uma causa importante que leva
os jovens a iniciarem o uso de drogas, pois 25,4%

                                               113
A pior priso do mundo

dos entrevistados justificaram sua primeira
experincia como mera curiosidade.
      O que  a curiosidade?  o desejo de
experimentar, conhecer ou desvendar algo novo,
oculto, desconhecido. Busca-se por meio da
curiosidade a aventura do prazer. A curiosidade
brota no cerne da alma de todo ser humano. Os
cientistas, por exemplo, so curiosos incurveis.
      Se temos informaes srias do risco de uma
experincia, deveramos ser governados pela lgica
e no realiz-las. Alguns cientistas podem ter
enorme curiosidade de realizar determinadas
experincias genticas com humanos, mas no as
realizam pelo risco de prejudicar de alguma forma
a humanidade. Se os jovens tm informaes
seguras do crcere a que as drogas podem
submet-los, no deveriam dar vazo  sua
curiosidade pelo risco que correm.
      Uma vez adultos, somos responsveis pelo
nosso destino. Deveramos aprender a pensar antes
de reagir, aprender a pensar nas conseqncias
de nossos comportamentos.
       preciso discursar de maneira nova e
profunda sobre as drogas para que os jovens
tenham um conceito adequado das suas
conseqncias. O foco principal desse discurso no
deveria ter a tnica da frase Diga no s drogas.
Isso  um desrespeito  inteligncia dos jovens. Uma
simples frase jamais conter a emoo borbulhante
deles por novas experincias. Proibir simples-
mente as drogas, sem alimentar a inteligncia
114
                                  Augusto Jorge Cury

com informaes convincentes, estimula a
curiosidade.
      O discurso dos prejuzos fsicos e morais das
drogas  insuficiente para dar subsdios a eles para
tomarem decises seguras contra elas.  preciso ir
alm, ter um discurso atraente, inteligente, capaz
de causar um impacto no palco de suas mentes. 
preciso discursar sobre o crcere da emoo. 
necessrio falar sobre as conseqncias filosficas,
psicolgicas e sociolgicas das drogas.
      Entre as conseqncias filosficas, est a
contrao da capacidade de contemplao do
belo, o envelhecimento emocional, a perda da
sabedoria existencial. Entre as psicolgicas, est a
produo inconsciente da imagem super-
dimensionada da droga, a priso interior, a perda
de liberdade. Entre as sociolgicas, est a perda
da liderana, do dinamismo e da motivao.
      A curiosidade no  um impulso motivacional
constante: aparece e desaparece de acordo com o
ambiente e as circunstncias. Cumpre ao eu
direcionar a energia da curiosidade para
experincias que enriqueam o esprito humano, a
inteligncia e a capacidade de empreender novos
projetos.
      A dependncia de drogas deixa os jovens 
margem das sociedades, afasta-os do processo de
transformao do mundo. Todavia, se canalizassem
suas energias para romper os paradigmas e as
avenidas doentias das sociedades, certamente suas
vidas seriam coroadas de brilho.

                                                115
A pior priso do mundo

      Os usurios de drogas so os maiores
contestadores e crticos do mundo, mas,
paradoxalmente, so os que menos fazem algo para
mud-lo. Tornam-se aquilo que mais odeiam,
vtimas do mundo que contestam. Quem sabe ao
lerem essas palavras, ganharo foras no apenas
para romper o crcere da dependncia, mas
tambm para serem agentes modificadores da
sociedade.
      Gosto de conversar com eles. Sei que embora
aprisionados, muitos deles tm uma fora incrvel
que, se liberada, pode causar uma verdadeira
revoluo dentro de si e no meio que os circunda.

      3 - Conflitos interiores

      Essa foi a quarta causa apontada pelos
universitrios que j experimentaram drogas. Os
conflitos interiores e, at certo ponto, a curiosidade
e a influncia dos amigos, esto relacionados com
o deficiente processo de formao da
personalidade dos jovens no ambiente familiar
moderno.
      Os conflitos interiores de um jovem so muitos
e podem ser traduzidos por problemas sexuais,
depresses, fobias, dificuldades no relacionamento
social, insegurana, instabilidade emocional, etc.
      Muitos jovens tm sido vtimas de alguma
depresso no diagnosticada. Por estarem
deprimidos, alguns buscam no efeito das drogas,
incluindo o lcool, uma reao antidepressiva.

116
                                 Augusto Jorge Cury

Outros, por serem tmidos, buscam a substncia
psicotrpica como facilitador das relaes sociais.
Outros, em virtude de conflitos com os pais,
procuram nas drogas um mecanismo de
contestao e fuga. Enfim, os conflitos psquicos
podem abrir as comportas da psique, tornando-os
mais vulnerveis, ou seja, menos resistentes ao uso
de drogas.
      Os sofrimentos humanos, quando bem
trabalhados, tornam-se uma ferramenta que lapida
a alma e estimula a sabedoria. Infelizmente, o uso
de drogas reprime a ao e a conscincia do eu,
resultando no definhamento da capacidade e da
habilidade de uma pessoa para trabalhar as
experincias dolorosas. No h pior remdio para
a dor do que escond-la, maqui-la, anestesi-la
por meio do efeito psicotrpico das drogas.

     4 - O sentimento de rejeio

      Lembro-me de uma clnica psiquitrica que
conheci na Alemanha, nos arredores de Stuttgart.
Na ocasio, enquanto o diretor clnico mostrava-
me o seu funcionamento, passamos por um grupo
de pacientes farmacodependentes. Um deles
comentou com os outros: Esto nos visitando como
se fssemos animais num zoolgico. Isso demonstra
o quanto alguns usurios de drogas se sentem
rejeitados.  preciso ajud-los, conduzi-los a
perceberem que so seres humanos, inde-
pendentemente de usarem ou no as drogas.

                                               117
A pior priso do mundo

      A discriminao racial, cultural ou de qualquer
espcie  um cncer da sociedade. A dor que ela
provoca  indescritvel. Os que se sentem
discriminados podem ter uma motivao a mais
para recorrer aos efeitos das drogas como fator
de compensao psquica.
      Sete universitrios responderam que
experimentaram drogas pela primeira vez, porque
se sentiam rejeitados pelas pessoas. Isso, sem
dvida, tambm est associado aos problemas do
ambiente familiar. Se um jovem est se sentindo
rejeitado, no aceito ou no acolhido pelos
membros da prpria famlia, com os quais tem
convivido por tantos anos, certamente tambm ir
sentir-se rejeitado pelas pessoas no ambiente social,
pois, nesse meio, os laos que unem as pessoas
so mais frgeis e temporrios.
      Apesar de s vezes no nos darmos conta,
vrias pessoas que nos rodeiam se sentem
rejeitadas, inferiorizadas, por isso vivem sempre
exigindo uma ateno especial. To logo algum
faa algum gesto que as desagrade  at uma
simples expresso facial, por exemplo  j se
sentem ofendidas. Se fossem mais seguras no se
importariam tanto com as palavras e o
comportamento dos outros em relao  sua
pessoa.
      Apesar de o sentimento de rejeio ser comum,
h pessoas com sensibilidade maior, sofrendo muito
mais diante de uma situao de rejeio. E, dentre
essas, existem aquelas que se sentem to excludas,
to rejeitadas no seu ambiente social e familiar,

118
                                 Augusto Jorge Cury

que todos os comportamentos adversos ao seu
redor tornam-se uma ofensa para elas. Fica difcil
estabelecer um relacionamento com esse tipo de
pessoa, por causa da sua hipersensibilidade
emocional. Se no revisarem essa caracterstica de
personalidade, podero desenvolver a depresso
em alguma etapa da vida.
      No  difcil concluir que alguns jovens, que
so hipersensveis e se sentem discriminados
socialmente, tentaro encontrar nas drogas um meio
para superar a solido. Como as drogas no
rejeitam ningum, e esto sempre disponveis, essas
pessoas com facilidade iniciam a dramtica
escalada rumo  dependncia. Todos j ouvimos
falar daquelas pessoas que, quando comeam a
beber bebidas alcolicas, no param mais,
embriagando-se compulsivamente.
       uma afronta  inteligncia discriminar um
ser humano pela cor da pele, condio social,
financeira e cultural. Todos temos a dignidade de
seres humanos. Ningum deveria se sentir inferior
a qualquer tipo de pessoa. Resgatar a auto-estima
e o valor real da vida pode nos vacinar no apenas
contra o uso de drogas, mas tambm contra uma
srie de transtornos psquicos.

     5 - Pais que no dialogam

     Essa causa apareceu em sexto lugar. Apenas
cinco apontaram este item: a falta de dilogo com
os pais. Mas ser que isso est correto? Ser que a
maioria deles tinha conscincia, ao responder a

                                               119
A pior priso do mundo

pergunta, da importncia desse dilogo, de como
a falta de comunicao aberta e constante com os
pais pode ter contribudo para a sua experincia
com drogas? Creio que no.
      O dilogo torna as relaes humanas um
jardim. Porm, dialogar no quer dizer exatamente
conversar. Nas sociedades modernas o ser humano
vive ilhado dentro de si mesmo. A solido 
silenciosa. No sabemos falar de ns mesmos, dos
nossos sonhos, dos nossos projetos mais ntimos.
No sabemos discorrer sobre nossas fragilidades,
inseguranas e experincias mais silenciosas.
      Estamos vivendo ilhados na sociedade. Nunca
estivemos to prximos fisicamente, mas to
distantes interiormente. Nunca falamos tanto de
coisas que esto fora de ns e nos silenciamos
tanto sobre as nossas experincias mais ntimas.
Os jovens, os velhos, os iletrados, os intelectuais,
tm vivido represados no territrio da emoo. A
crise do dilogo na atualidade  to grande que,
infelizmente, as pessoas s tm coragem de falar
sobre si mesmas quando esto diante de um
psiquiatra ou de um psicoterapeuta.
      Por que milhes de pessoas usam drogas? As
causas, como temos visto, so muitas. Mas temos
de saber que dentre elas est a solido e a crise
das relaes sociais.

      6 - A influncia de traficantes

    Ao contrrio do que muita gente pensa e do
que os meios de comunicao divulgam, 
120
                                  Augusto Jorge Cury

infreqente que um jovem inicie o uso de drogas
por influncia de traficantes. De acordo com a
pesquisa, a influncia de traficantes ocupa o stimo
lugar entre as causas que o levaram a experimentar
drogas psicotrpicas, correspondendo  resposta
de apenas trs entrevistados.
      Os traficantes a que nos referimos so aqueles
que vivem exclusivamente do trfico de drogas.
Esses muito raramente induzem os jovens, pois, para
tanto,  preciso conquistar a confiana das futuras
vtimas, cultivar sua amizade e fazer com que
passem a admir-los. Isso leva tempo, pois  preciso
muita habilidade para se sustentar a farsa de ser
amigo daquele a quem se pretende introduzir nas
drogas.
      Na realidade, a grande maioria dos jovens
acaba sendo influenciada pelos prprios amigos.
Eles sempre compram uma quantidade a mais de
maconha, cocana, comprimidos (pedras) etc.,
suficiente para vrias doses. Como se sentem 
margem da sociedade, esto sempre atraindo
novos membros para o seu grupo social. Por isso,
oferecem aos iniciantes. Esses, num mpeto de
curiosidade e liberdade, iniciam a primeira
experincia.
      Quando uma pessoa ou um grupo pratica algo
que aprecia, tende a divulgar e envolver outras
pessoas nessa prtica. Se isso  verdade em relao
aos adultos, muito mais em relao aos
adolescentes, pois, como j foi dito, estes so muito
mais coesos nos seus relacionamentos.

                                                 121
A pior priso do mundo

      7 - Dificuldades financeiras

      Dois universitrios responderam que
experimentaram drogas por causa de dificuldades
financeiras. Apesar de ser uma causa rara entre
universitrios,  comum nas classes mais pobres.
As drogas so utilizadas para aliviar a insegurana,
a aflio e os sofrimentos causados pela falta de
recursos financeiros mnimos para uma
sobrevivncia humana digna.
       claro que as drogas no podem e no tm
capacidade para produzir alvio psicolgico sadio
nessas pessoas; pelo contrrio, os problemas
aumentaro, pois, quando se tornarem de-
pendentes, tero de conseguir muito dinheiro, e
dinheiro que no possuem, para financiar a sua
dependncia.
      Se no o conseguirem mediante trabalho
honesto, partiro para meios ilcitos, para a
delinqncia, roubos, ou se transformaro em
pequenos traficantes. J tive pacientes que
passaram por essa situao.

      8 - Gentica

      No campo da neurologia, a carga gentica
pode provocar alteraes metablicas e
deficincias no crtex cerebral, gerando doenas
graves, tal como o mongolismo. Na psiquiatria, a
carga gentica no condena ningum. Ela no 
capaz, por si mesma, de produzir as doenas
psquicas, tais como a depresso, a ansiedade, a

122
                                  Augusto Jorge Cury

psicose, o alcoolismo ou outra dependncia
qumica. No mximo, ela pode influenciar o
aparecimento dessas doenas.
      Alguns tipos de depresso e transtornos
psquicos podem ter uma influncia gentica.
Entretanto, mesmo dois gmeos idnticos, portanto
com mesma carga gentica, podem ter
personalidades totalmente distintas, ainda que sejam
filhos de pais depressivos. Um pode ter crises
depressivas e o outro pode ser alegre, estvel e
extrovertido. Por que essa discrepncia? Porque as
variveis que produzem a formao da
personalidade so multifocais e combinam-se de
mltiplas maneiras.
      A carga gentica no define as estruturas mais
importantes da inteligncia, ou seja, a arte de
pensar, a capacidade de uma pessoa trabalhar suas
perdas, a habilidade de filtrar os estmulos
estressantes, de dialogar sobre seus conflitos, de
ter prazer nos eventos da vida, de socializar-se e
de construir relaes saudveis. O equipamento
gentico produz, no mximo, os nveis de
sensibilidade emocional e o ritmo do fluxo de
energia cerebral em que sero construdas as
estruturas da inteligncia. Essas so produzidas por
diversos fenmenos psquicos e no fsicos. Estudei
esse assunto ao longo de dezessete anos e
publiquei-o no livro Inteligncia Multifocal.
      A carga gentica pode permitir a uma pessoa
ser mais ou menos sensvel aos estmulos do meio
ambiente e aos prprios estmulos internos, tais
como os seus pensamentos. Notem que as crianas,

                                                123
A pior priso do mundo

ao nascer e ao longo dos primeiros meses de vida
extra-uterina, j possuem algumas caractersticas
prprias. Algumas so hiperativas e outras bem
calmas; algumas so menos reagentes  dor e
outras, ao mnimo desconforto, choram; algumas
dormem tranqilamente e outras, simplesmente, no
dormem. Essas caractersticas tm propenso
gentica, embora elas tambm sejam influenciadas
por numerosos fatores ocorridos no desenvol-
vimento fetal.
      Faltam estudos na Cincia, mas a influncia
gentica deve estar ligada aos neurotransmissores
cerebrais, que so como funcionrios dos correios
do crebro, que transmitem as mensagens de uma
clula nervosa para outra.
      Em alguns casos  possvel que haja uma
propenso gentica para o alcoolismo, mas
dificilmente para outras drogas. Alguns pais
alcolatras podem gerar filhos mais introvertidos e
sensveis aos efeitos do lcool, mas nem de longe
isso quer dizer que sero doentes como seus pais.
      Tanto os pais gravemente depressivos como
os pais alcolatras podem gerar filhos seguros,
livres e alegres, principalmente se o ambiente
familiar e educacional estimul-los a terem metas,
sonhos, projetos de vida e a desenvolver a arte de
pensar e a capacidade de superao de suas
frustraes. Por outro lado, se o ambiente for hostil,
agressivo e estressante, ele se associar  influncia
gentica, podendo contribuir para que alguns filhos
tambm desenvolvam a depresso e o alcoolismo.


124
          7
        Captulo




O dilogo familiar  a melhor
preveno contra vrios males
                                Augusto Jorge Cury




        Ao tratar deste delicado tema, pretendo
        mostrar um caminho para os pais
estimularem a arte de pensar dos seus filhos e
vacin-los contra o uso de drogas. Tudo o que for
dito aqui, pode ser igualmente aplicado na relao
professoraluno.
     Muitos pais tm grande dificuldade em
dialogar com os filhos sobre temas polmicos
e conflitantes, mas, se no se esforarem por
vencer essa barreira, os jovens aprendero
esses assuntos com outras pessoas, em
qualquer outro lugar: nas ruas, nas escolas,
nos clubes etc. E, muitas vezes, esse
aprendizado poder ser distorcido e, at
mesmo, doentio.
      Temos medo de dialogar sobre assuntos dos
quais no temos pleno controle. Temos dificuldades
em lidar com nossa ansiedade e estimular o debate
                                              127
A pior priso do mundo

de idias. Aprender a criar um clima inteligente,
aberto e espontneo sobre temas complexos e
polmicos estimula a sabedoria e expande as
funes mais importantes da psique.
      Os pais e os educadores deveriam
aprender a navegar no territrio da emoo
e a ser os primeiros a discutir com os jovens
sobre temas ligados ao relacionamento
humano, sexo, liberdade social, drogas.
Infelizmente, isso  raro de acontecer e, quando
acontece, faltam alguns ingredientes estimuladores
da arte de pensar.

     1- O primeiro ensinamento  o que mais
impressiona a personalidade.

     A memria de uma criana  como uma folha
em branco, pronta para ser escrita, embora aos
sete anos de idade uma criana j tenha milhes
de experincias arquivadas. Por isso, a primeira
impresso registrada pelo fenmeno RAM, o
primeiro ensinamento ou conceito que ela ouve e
assimila sobre um determinado assunto  o que
mais impressiona a personalidade e incorpora-se
a ela.
     Por exemplo, existem jovens e adultos,
principalmente do sexo feminino, que tm
verdadeiro pavor, pnico, de baratas ou de ratos.
Isso porque essas pessoas, quando crianas,
ouviram palavras e presenciaram comportamentos
de suas mes ou de outros adultos que apontavam
as baratas e os pequenos ratos como animais
128
                                   Augusto Jorge Cury

terrveis e ameaadores. O que ficou na memria
no  a dimenso real das baratas e dos ratos,
mas o significado da dimenso, conforme
mecanismos que j citei.
      Se, ao contrrio, essas crianas tivessem sido
ensinadas pelos adultos que as baratas e os ratos
so apenas e simplesmente animais anti-higinicos,
certamente, quando crescessem, no mostrariam
pavor diante deles. J tive diversos pacientes,
inclusive duas educadoras, que no podiam entrar
num ambiente onde houvesse uma lagartixa. O
problema no era o pequeno rptil de fora, mas o
enorme rptil registrado dentro delas.
      A partir desses prosaicos exemplos, vale a
pena refletirmos sobre como o aprendizado inicial,
as primeiras experincias de vida nas crianas
marcam demasiadamente suas personalidades
adultas.
      Podemos transportar esse mesmo princpio
para as drogas. Aquilo que as crianas e
adolescentes ouvirem e aprenderem a respeito ir
construir um conceito, um significado ou
representao psicolgica das drogas em suas
personalidades. Por isso  que os pais, em hiptese
alguma, deveriam abrir mo da possibilidade de
serem os primeiros a conversar sobre as drogas
com seus filhos, de transmitir-lhes seu conceito sobre
elas. Para isso, eles precisam de informao e
educao, que  o objetivo deste livro.
      Depois que os jovens aprenderem o conceito
social das drogas com os amigos usurios, cujo

                                                  129
A pior priso do mundo

compromisso  apenas com o prazer momentneo,
ser muito difcil reestrutur-los.
      Do ponto de vista pessoal, acho que os pais
devem dialogar com os filhos sobre as drogas
quando eles tm entre sete e onze anos de idade,
pois, a partir de ento,  bem possvel que j tenham
aprendido nas ruas, nos cantos das escolas, nos
clubes, etc. Fundamentado na importncia do
aprendizado inicial  que advogo que os pais
devem dialogar com seus filhos sobre as drogas,
incluindo o cigarro de tabaco e o lcool, a partir
dos sete anos de idade.
      Os jovens de hoje, com mais de onze anos,
sabem mais sobre drogas do que os pais e a maioria
dos professores e, at mesmo, mais do que muitos
mdicos, visto que boa parcela da classe mdica
desconhece que diversos medicamentos
psicotrpicos so drogas passveis de provocar
dependncia. Mas os jovens sabem, porque j
ouviram comentrios sobre o assunto com outros
colegas.
      Se os pais e os educadores no fizerem
um debate inteligente sobre as drogas, as
crianas e os jovens aprendero sobre elas
em outros terrenos da sociedade. S que
aprendero sem conscincia crtica, sem levar
em considerao as conseqncias perigosas,
podendo, portanto, ser estimulados por elas.
      No mundo todo, milhes de jovens iniciam
anualmente o uso de drogas. Eles entram pela porta
colorida dos seus efeitos. Comeam pelo cigarro
130
                                 Augusto Jorge Cury

de tabaco, passam por bebidas alcolicas, usando-
as em doses cada vez maiores, experimentam o
lana-perfume e partem para o uso de maconha e
cocana. Antigamente, a maconha era a porta de
entrada para a cocana. Hoje, muitos jovens iniciam
diretamente o uso da cocana. No sabem que
esto correndo o srio risco de perder o direito de
ser livres.

      2- Como dialogar sobre as drogas

     Apesar de no haver regras para um dilogo
desse tipo, existem princpios.
     Os pais no devem temer comentar com os
jovens os possveis prazeres momentneos que as
drogas causam, ou seja, seus efeitos psicolgicos
provocados pelo uso delas, inclusive o cigarro de
tabaco.
     Quando os filhos perguntarem sobre algum
tipo de prazer ou efeito psicolgico das drogas, os
pais devem conversar a respeito, mas sempre
ressaltando que nem tudo o que gera algum tipo
de prazer  saudvel; h coisas que alm de no
serem saudveis, podem ser extremamente
destruidoras. Existem numerosos exemplos prticos:
brincar com fogo, brincar com arma, dirigir carro
em altssima velocidade, etc. Tais atos podem
provocar prazer, mas os riscos so enormes e muitas
pessoas se destroem com tais prticas.
     Os pais devem ser criativos, espontneos
e autnticos ao dialogar com seus filhos sobre

                                               131
A pior priso do mundo

drogas, sexo, futuro, etc. No deveriam ser
frios, inseguros e rgidos ao tratar de assuntos
polmicos. Nunca esquecer que, no caso das
drogas,  fundamental comentar que elas podem
provocar a pior priso do mundo, podem conduzir
pessoas inteligentes a serem prisioneiras e infelizes
no territrio da emoo.

      3 - Promover reunies com debate de idias (RDI)

       Os pais no precisam esperar que os filhos
perguntem sobre as drogas para conversar
com eles. Como j disse, os pais deveriam ser
os primeiros professores dos jovens.
        recomendvel que se faam reunies
exclusivas para falar sobre drogas, sexo, limites e
responsabilidades sociais. Chamo essas reunies
de RDI, (Reunio de Debate de Idias ou de
Dilogo). Tais reunies podem ser realizadas a cada
ms. Deve-se fazer tais reunies ao acaso ou com
data marcada? A experincia j confirmou que, se
no forem marcadas previamente, tais reunies
dificilmente ocorrero.
       Um outro tipo de reunio deve ocorrer com
mais freqncia, de preferncia semanalmente. 
a reunio em que se cultiva o dilogo entre os
membros da famlia. Nessas reunies os pais
devem ouvir seus filhos, trocar experincias,
reconhecer seus prprios erros e, se neces-
srio, pedir desculpas a eles. Como  possvel
que pais reconheam erros e peam desculpas aos
132
                                  Augusto Jorge Cury

filhos? Mas isso no est nos manuais de
educao! Diriam alguns. Eu diria: No se
preocupem com os manuais de educao, porque
eles funcionam muito pouco.
      Pais que exigem dos seus filhos atitudes
nobres diante da vida, devem sair do discurso
e mostrar tais atitudes em sua prpria histria.
Pais que querem estimular seus filhos a serem
sbios, livres, capazes de interiorizao, de pensar
antes de reagir, e de enxergar o mundo no apenas
com os prprios olhos, mas tambm com os olhos
dos outros, no devem ter medo de reconhecer seus
erros, dificuldades, limitaes e, muito menos, de
pedir desculpas aos filhos e demonstrar que 
possvel corrigir rotas em suas vidas.
      Tal comportamento vale mais do que mil regras
educacionais. No  fcil educar filhos.  fcil
                                            .
educar os filhos dos outros, mas no os nossos.
No se fabrica a personalidade dos jovens, s 
possvel estimul-la e, se o fizermos com sabedoria,
semearemos neles as funes mais importantes da
inteligncia.

     4- Dialogar sem drama

     Quando falarem sobre as drogas, ou sobre
qualquer outro assunto polmico, os pais no devem
fazer drama. Penso que uma postura segura deve
ser assumida, mostrando a seriedade do fato,
porm num tom de voz natural, no agressivo nem
impositivo.

                                                133
A pior priso do mundo

      Se as crianas vislumbrarem nos pais
confiana, espontaneidade e serenidade,
certamente elas abriro as janelas de suas
inteligncias e incorporaro conceitos que iro
imprimir no inconsciente uma representao
saudvel.
      Se, por outro lado, as crianas ouvirem um
discurso vazio, rgido, de mo nica, carregado
de idias proibitivas sobre o uso das drogas, elas
no se vacinaro contra o seu uso. Afirmo que a
grande maioria dos jovens que usam drogas e so
prisioneiros delas j ouviram, antes de iniciar o uso,
seus pais e professores falando mal delas. Que
educao  esta que no penetra nas entranhas
do processo de formao da personalidade?
      Tenho dado conferncias para muitos
educadores e treinado diversos psiclogos.
Digo sistemtica e enfaticamente a eles que
precisamos rever as linhas mestras do processo
educacional, ou continuaremos a gerar uma
juventude doente, que pouco conhece a arte
     pensar.
de pensar.
      Nenhuma planta  saudvel se no tem razes
profundas. Dar regras para os jovens e estabelecer
limites rgidos de comportamento sem conduzi-los
a velejar dentro de si mesmos  totalmente
insuficiente para criarem razes no cerne da
inteligncia. Quando os pais se renem
prazerosamente com seus filhos e estimulam o
debate de idias, cria-se um ambiente adequado
para discutir o tema drogas. Assim, os jovens no
as usaro porque elas so proibidas, mas

134
                                                      Augusto Jorge Cury

porque aprenderam a valorizar o espetculo
da vida.

        5- No comentar extensivamente

      No estender demais as explicaes quando
se reunirem com os filhos  outro princpio
importante. Os pais devem ter um conhecimento
geral sobre as drogas, mas no devem desvendar
todas as informaes que sabem. Caso contrrio,
a sala de casa se transformar numa fria e pouco
interessante sala de aula. No ser um dilogo,
mas um monlogo montono e pouco atraente.
       muito importante que os pais aprendam a
estimular a arte da pergunta. Pergunte mais aos
filhos do que responda. Estimule-os a encontrar as
suas prprias respostas.  mais seguro e inteligente
que tenham as prprias respostas. A arte da
pergunta estimula a arte da dvida, ou seja, leva a
pessoa a duvidar dos seus conceitos e abrir-se para
outras possibilidades. Por sua vez, a arte da dvida
estimula a arte de pensar.
      Se a Educao descobrisse o valor e a
necessidade de mesclar a arte da pergunta com a
arte da dvida e da crtica, certamente a arte de
pensar passaria por uma revoluo. Sem o
desenvolvimento dessas trs artes, no
desenvolvemos multifocalmente a inteligncia*.
      Os pais devem certificar-se de que os filhos
absorveram os ensinamentos, estimulando-os no
* (Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal, editora Cultrix, So Paulo, 1998).


                                                                             135
A pior priso do mundo

apenas a pensar, como tambm a expressar seus
pensamentos. Tal procedimento estimular a
segurana, a habilidade intelectual e a auto-estima
dos jovens, podendo at corrigir uma caracterstica
de personalidade angustiante que tem acometido
muitos jovens, a timidez.
      Os tmidos falam pouco, mas pensam muito.
Para terem uma emoo saudvel, protegida e uma
inteligncia empreendedora, eles precisam
aprender a expressar seus pensamentos. As RDIs
(Reunies de Debate de Idias) podem ajud-los
muito.
      No se deve preestabelecer tempo para as
RDIs, mas de modo geral no devem ser longas.
Elas tm sempre terminar com o sabor desta frase
Que pena que j terminou! e no Que bom que
j acabou!. Talvez meia hora ou uma hora seja o
suficiente. No necessariamente os pais devem
iniciar os debates, os filhos tambm devem inici-
los.
      O assunto a ser discutido pode no ser drogas,
mas conflitos, dificuldades ou temas de interesse
dos membros participantes, at temas profissionais
e financeiros. As RDIs podem estimular o amor
mtuo e o trabalho em equipe.
      Uma ltima recomendao: os pais devem
aprender a cultivar, entre seus filhos, o prazer do
dilogo conjunto. Se perguntarmos aos pais se
apreciam conversar com seus filhos, a grande
maioria dir que sim sem titubear. Todavia, suas
atitudes mostram que no. Eles tm tempo para
136
                                   Augusto Jorge Cury

escovar os dentes, mas no para higienizar as
relaes entre eles; tm tempo para consertar o
vazamento de gua da torneira, mas no para
reparar o vazamento de credibilidade e de respeito
entre eles; tm tempo para levar o carro ao
mecnico, mas no tm coragem de assumir suas
dificuldades e reparar a crise do dilogo.
      Pais e filhos so capazes de ouvir, horas a fio,
os personagens da TV, mas no conseguem ouvir
com prazer, por alguns minutos, o que est
acontecendo no interior uns dos outros.




                                                  137
               8
             Captulo




 Princpios fundamentais para ajudar os
jovens a romperem o crcere da emoo
                                 Augusto Jorge Cury




        Como conversar com os filhos que esto
        usando drogas ou com quem se suspeita
de estar usando?  possvel comear um dilogo
com esses jovens e ocupar um lugar mais importante
no cerne do seu ser? Isso  uma tarefa difcil, mas
possvel.
     Para tentar auxiliar pais, educadores e
profissionais de sade, vou expor de maneira
didtica alguns princpios fundamentais, que no
devem ser seguidos como regra, mas adaptados
s experincias de vida de cada um. Gostaria de
dizer que esses princpios podem ser aplicados no
apenas s famlias que tm filhos que usam drogas,
mas a todas as famlias que querem melhorar a
sua qualidade de vida, ajudar seus filhos e sanar
as suas estruturas doentias.

                                               141
A pior priso do mundo

      1- No mergulhar no sentimento de culpa

      Muitos jovens que usam drogas no tm
problemas familiares maiores que a grande parcela
de outros que nunca chegam a us-las. Muitas
vezes, o uso de drogas  mera questo de
oportunidade, apresentada por ambientes e
circunstncias propcias. Em outras palavras, se um
jovem est usando drogas, os pais no devem
pensar que sua famlia  problemtica e que eles
fracassaram na educao dos filhos.
      Muitos psiclogos erram ao colocar excessiva
carga de culpa sobre os pais pelos conflitos dos
seus filhos. Os pais precisam de coragem e
             .
no de culpa. Precisam ter esperana para
transmitir esperana e apoio aos seus filhos.
      As sociedades modernas so muito
estressantes. Trabalhamos muito, investimos nossas
energias para sobreviver, pagar a escola dos filhos,
manter o carro, fazer um plano de sade e de
previdncia. Chegamos em casa e no temos nem
disposio para conversar. Ligamos a TV, mas no
prestamos ateno nas cenas, queremos relaxar.
Pegamos o jornal e vamos aos fatos de sempre.
Nada muda. Mas os textos do jornal so
teraputicos, relaxantes. Infelizmente, no gastamos
tempo com as pessoas mais importantes, como
nossos filhos e nosso cnjuge.
      Ao investigarmos os problemas de nossos
filhos, descobrimos que erramos. Mas o que
devemos fazer com nossos erros? Us-los para nos
142
                                  Augusto Jorge Cury

destruir, nos culpar, nos punir? No! Devemos us-
los como adubo para novas mudanas. Devemos
tambm ter conscincia de que o fenmeno 
mundial. H milhes de jovens usando drogas. Na
maioria das vezes, usam drogas no porque so
mais problemticos do que quem no est usando,
mas porque tiveram mais oportunidades.
      O perfil psicolgico dos usurios mudou. No
passado, em sua grande maioria, os usurios eram
jovens portadores de graves conflitos e filhos de
pais doentios. Gostaria de afirmar que, na
atualidade, os jovens portadores de pequenos
conflitos, que no se diferem da mdia da
populao, e que so filhos de excelentes pais, esto
consumindo drogas e ficando dependentes.
      Uma pessoa no precisa ser doente para se
tornar um dependente, o efeito das drogas 
suficiente para deixar qualquer pessoa doente.

     2- Manter a calma  eliminar a agressividade

      Ao descobrir que seus filhos esto usando
drogas, a melhor coisa a fazer seria no fazer nada,
parar para pensar e no reagir antes de pensar. A
grande maioria dos pais no sabe conquistar seus
filhos nas dificuldades. O medo, a apreenso e a
ansiedade que os invadem bloqueiam as suas
inteligncias. Com suas reaes impulsivas, acabam
atrapalhando mais do que ajudando.
      Irritao, agressividade, punio aos filhos e
autopunio no resolvem; ao contrrio,

                                                 143
A pior priso do mundo

prejudicam. Claro que, na fase inicial, colocar
limites e at dar uma boa bronca pode ajudar,
mas  insuficiente, pois o problema  mais profundo.
      Esto certos os princpios do amor exigente.
Temos de exigir limites dos filhos, mas
primeiramente temos de dar amor a eles. Os pais
tm de dar a si mesmos, a sua amizade, o seu
carinho, a sua ateno, a sua sabedoria e a sua
inteligncia para os filhos, para depois cobrar
limites e reaes.
      Se os pais no procurarem ser os melhores
amigos dos seus filhos, se no mudarem sua
atitude diante deles, eles, alm de procurarem
o efeito das drogas para compensar a
indiferena e agressividade dos pais,
continuaro a ser influenciados pelos colegas
que as usam.
      Os pais devem ter em mente que muitos jovens
que experimentam drogas param de us-las antes
de se tornarem dependentes. E que  possvel que
seu filho, por pior que seja a situao, possa se
livrar do crcere da dependncia.
      Coragem para atravessar o deserto da
dependncia, pacincia para fazer a travessia,
sabedoria para escolher o melhor caminho e amor
para renovar as foras durante a caminhada so
necessidades fundamentais tanto das pessoas
dependentes como daqueles que os esto
ajudando: pais, educadores, profissionais. Mesmo
diante da mais dramtica situao, devemos
irrigar a alma de esperana.
144
                                Augusto Jorge Cury

     Jamais devemos desistir de uma pessoa, por
mais doente que esteja, por mais recadas que
tenha, por mais batalhas perdidas. Um dia, o pior
inverno se tornar a mais bela primavera.

    3 - Resgatando o primeiro amor

      Reconhecer erros  importante, fazer uma
reviso de vida tambm, mas acusar-se mutuamente
pelo fato de os filhos estarem usando drogas  o
incio da derrota dos pais.
      A culpa e as reaes agressivas, como vistas
nos tpicos anteriores, propiciam um excelente
caminho para a troca de acusaes entre marido e
esposa, criando uma barreira intransponvel no
relacionamento. Quem errou mais? O pai ou a
me? No so essas as perguntas que devem ser
feitas, mas sim: O que juntos vamos fazer para
ajudar nosso filho?
      Com certeza, cada um tem seus fortes
argumentos para expor as falhas do outro na
educao do filho. s vezes, a situao torna-se
to sria que o ambiente familiar se torna a
terceira guerra. Num momento to srio, os pais
deveriam manter-se unidos, relacionando-se com
muito mais amor e respeito do que antes. A
agressividade e o clima de acusao entre pai e
me e dos pais para com o jovem, s far com
que este se afunde ainda mais nos pntanos das
drogas.
      Se um clima de amor, dilogo e respeito
emergir do caos, o filho saber enxergar essa

                                              145
A pior priso do mundo

transformao e admirar, quem sabe pela primeira
vez, o comportamento de seus pais. Isso far com
que a aventura das drogas se torne psicolo-
gicamente menos interessante do que o espetculo
que est acontecendo no relacionamento familiar.
     Se os pais reaprenderem a namorar e a
resgatar o primeiro amor, ao invs de comear uma
guerra de acusao, estaro fazendo um grande
favor para si mesmos e para os filhos. Tal
comportamento causar um impacto to grande
no inconsciente deles que comear a abalar o
dinossauro da dependncia. O tratamento dos filhos
comea no apenas dentro deles, mas tambm no
cerne da alma de seus pais.

      4- Revolucionando a relao com os filhos

     Quando um jovem usa droga, pouco a pouco,
ela ocupa uma rea importante no inconsciente
dele. Como ocupar um espao nos pores da
memria de uma pessoa fechada para o mundo?
 um grande desafio para a Psicologia e a
Psiquiatria. Os livros de auto-ajuda pouco auxiliam
em situaes de fato complicadas.
     No h soluo mgica.  preciso ter
sensibilidade.  preciso abandonar os velhos
mtodos e reacender a criatividade. No h coisa
mais engenhosa do que penetrar no mundo de
algum e tornar-se importante para ele. Conquistar
um espao, um valor maior do que o da droga, 
um grande e belo desafio para os pais.
146
                                 Augusto Jorge Cury

     Dar conselhos pouco resolve. Mostrar que as
drogas fazem mal  sade tambm no.  uma
batalha to grande que deixa os prprios
psicoterapeutas sem ao. Nesta batalha 
completamente ineficaz falar mal do inimigo. 
preciso mudar o foco de ateno.  preciso
surpreend-los com novas atitudes. Vou procurar
fazer uma sntese dos fenmenos que acho
importantes.

     a Um relacionamento           permeado     de
descontrao e prazer

      Em geral, tenho verificado que o com-
portamento dos pais com o filho que est usando
drogas  agressivo, pautado pela desconfiana,
pouco afetivo e dado a muitas cobranas.
      Quando conversamos com os pais e com o
filho, isoladamente, eles se apresentam dceis,
lcidos, humildes, cheios de sentimentos para com
o outro. Porm, quando nos reunimos todos juntos
para falar um do outro, eles travam verdadeiras
batalhas de agresses, acusaes e ressentimentos.
Separados, eles se amam; juntos, guerreiam.
      Por que essa discrepncia? Porque so vtimas
do gatilho da memria, o qual desloca o territrio
de leitura (ncora) para reas de atritos, gerando
reaes que eles no conseguem administrar. As
relaes humanas so muito complexas. Reagimos
ao outro no pelo que ele , mas pelo que temos
registrado dele dentro de ns. Se o registro for
doentio, nossas reaes sero doentias. Se durante

                                               147
A pior priso do mundo

toda a vida imperou a agressividade e as reaes
impulsivas, no espere que o mar se acalme na
relao.  necessrio, como j vimos, reconstruir o
presente para reescrever o passado.
      H pais e filhos que nunca conseguem
dialogar lcida e tranqilamente uns com os
outros, embora se amem. O problema no 
a falta de sentimentos entre eles. O problema
 que so escravos da representao doentia
                               Tal
que tm uns dos outros. Tal representao
                     amor.
limita e confina o amor. Alguns, infelizmente,
s sentiro o quanto seu pai ou seu filho 
importante, quando chegarem ao fim da vida.
      Conduzir pais e filhos a compreenderem o
gatilho da memria, a no gravitar em torno dos
ressentimentos passados e a administrar os seus
pensamentos e emoes nos focos de tenso  o
primeiro passo para novas mudanas.
      Para vencer o crcere da emoo, 
necessrio que os pais e os filhos construam um
novo relacionamento, mais alegre, mais divertido,
mais simples e afetivo. Devemos gravar esta
        Os
frase:  Os pais devem se preocupar menos
com a droga usada pelo filho e mais com o
filho que usa a droga. Geralmente ocorre
totalmente o contrrio.
      Os pais precisam desconsiderar a droga por
um certo tempo e no olhar seus filhos como
marginais ou adultos maliciosos que pretendem
engan-los. Devem olh-los como seres humanos
que necessitam ser fraternalmente envolvidos em
seus braos e acariciados. Esse princpio vale para
ajudarmos qualquer pessoa em qualquer situao.
148
                                  Augusto Jorge Cury

      Os pais devem aprender a tirar os gessos da
inteligncia: ser brincalhes, simples, e fazer
programas divertidos junto com os filhos.
      A correria do dia-a-dia, a fadiga do trabalho,
os compromissos sociais, os problemas da vida
acabam naturalmente tornando as relaes entre
pais e filhos distantes e muito formais. Esse clima
de seriedade e frieza piora muito quando os pais
descobrem que um filho est usando drogas. Por
isso, o primeiro passo para os pais se aproximarem
de seus filhos  deixar a crtica, o medo e as
acusaes de lado e comearem a fazer de sua
famlia uma festa, um canteiro de prazer.
      O pai que se comporta como um palhao
para envolver e encantar seu filho tem muito mais
possibilidades de ajudar o filho do que aquele pai
que se comporta como um policial tentando puni-
lo.
      No devemos jamais nos esquecer de que
depois da dependncia estar instalada, o problema
no  mais a droga qumica, mas o monstro que
habita no inconsciente. Como fazer para destruir
este monstro  o maior desafio da Medicina. No
 uma questo apenas e simplesmente de estar
longe dela, mas de reaprender a viver sem a droga.

     b- Um relacionamento franco

      O segundo passo que os pais devem dar para
conquistar um espao no mundo interior de seus
filhos  ter com eles uma relao de franqueza,

                                                149
A pior priso do mundo

sinceridade e honestidade; sem, no entanto, deixar
de lhes mostrar respeito e sem usar palavras sutis
que impliquem desconfiana ou imposio.
      Se, conforme dissemos no item anterior, os pais
conseguirem criar um clima prazeroso e
descontrado na relao com os filhos, estaro
abrindo um caminho para manter com eles
conversas sinceras e honestas.
      Sem aquele primeiro passo fica difcil, porque
qualquer palavra que disserem aos filhos soar
como ofensa, perseguio ou intromisso. Mas,
quando ao longo dos dias e semanas, os pais
despertam a admirao deles, automaticamente
estes filhos os consideraro muito importantes e no
gostaro de ofend-los. Porm,  fundamental que
os pais sejam honestos e sinceros.
      Como j disse, ser honesto no significa ser
agressivo nem dramtico e muito menos ser
impositivo. Os pais devem aprender a falar das
drogas sem medo e sem tabus. Assim, os filhos se
abriro com eles e contaro sua verdadeira situao
diante das drogas. Porm, ao saberem disso, os
pais no devem se apavorar, tampouco condenar
os filhos, mas tentar permanecer tranqilos, sem
dar importncia exagerada para elas. Devem crer
que esto se tornando muito mais importantes na
vida dos filhos e convenc-los de que os admiram
e acreditam que iro venc-las.
      Nesse ambiente, os filhos vo apreciar muito
mais seus pais, admiraro seu equilbrio e
honestidade, sua maturidade e a considerao

150
                                  Augusto Jorge Cury

demonstrada. Isso minimizar suas experincias
com as drogas e aumentar o relacionamento com
os pais.
     Vi isto acontecer vrias vezes: to logo o
relacionamento entre pais e filhos foi restaurado,
as drogas passaram a ocupar um plano secundrio
na vida dos jovens e com isso eles se motivaram a
parar de us-las.
     Um jovem pode parar muito mais
facilmente de usar drogas por considerao
pela sua vida e por amor e respeito aos pais
do que em nome dos prejuzos fsicos e
psicolgicos que elas podem provocar em suas
vidas.

     c- Um relacionamento aberto

     Novamente repito, que os pais devem manter
um relacionamento profundo com os filhos,
compartilhando suas experincias, tanto as positivas
como as negativas, para que os jovens no pensem
que s eles enfrentam problemas. Pais que no
tm coragem de reconhecer seus conflitos, de
admitir suas fragilidades, de expor seus erros da
juventude, certamente esto mais distantes do filho
do que podem imaginar. Esto prximos fisicamente,
mas muito distantes interiormente.
     Os pais tambm devem compartilhar seus
planos, desejos, viso de vida, dificuldades atuais,
alegrias etc., sempre dentro dos limites da
sobriedade e da simplicidade.

                                                151
A pior priso do mundo

      E devem aprender a ouvir os filhos. Ouvir
 uma tarefa difcil, que poucos sabem
desempenhar. Ouvir no  s ficar parado
desempenhar.
diante dos sons e palavras ditas pelos outros.
 muito mais que isso: implica nos despojarmos
de todos os conceitos e julgamentos pre-
concebidos e precipitados que fazemos da
pessoa que fala e das palavras que nos diz.
Implica captarmos os sentimentos que vo sendo
expressos na tonalidade das palavras e na forma
como so faladas, ou seja, ouvir  entender
aquilo que as palavras no puderam ou no
                 completamente.
quiseram dizer completamente Implica ainda
compreender e julgar os fatos com os elementos
que nos so fornecidos, sem adicionarmos
elementos nossos.
      Apesar de nossas dificuldades, encorajo
os pais a cultivarem o hbito de ouvi-los,
estimulando-os a falar de suas experincias
de vida, de seus conflitos, alegrias, tristezas,
amigos, sonhos.
      Outra coisa importante a acrescentar  que
os pais no devem valorizar s os filhos que no
usam drogas. Uma pessoa que est usando drogas,
por mais indiferente que parea, ainda  uma
pessoa muito sensvel, sentindo-se facilmente
rejeitada.
       Sem exercitarem a arte de ouvir e a arte
do dilogo no h caminho para os pais
ajudarem seus filhos, pois agiro como
policiais e no como seus amigos. Se, ao

152
                                 Augusto Jorge Cury

contrrio, aprenderem essas duas nobilssimas artes
da inteligncia, ainda que tenham dificuldades em
pedir desculpas uns para os outros pelos ouvidos
rgidos e pelo dilogo engessado, certamente o
relacionamento entre eles sofrer uma profunda
revoluo, e se tornar uma bela poesia.
       Comece tudo de novo. Recomece quan-
tas vezes for necessrio. D sempre uma nova
oportunidade. Extraia vida das cinzas. Refaa
as foras para uma nova batalha. Saibam que
sbio  aquele que reconhece seus erros e 
capaz de us-los como alicerces da sua
maturidade e no aquele que nunca erra. Pais   Pais
e educadores, nunca desistam!




                                               153
            9
          Captulo




Uma ajuda importante para romper
      o crcere da emoo
                                  Augusto Jorge Cury




         Neste captulo retomaremos tudo o que
         vimos sobre o funcionamento da mente e
aplicaremos esse conhecimento para estabelecer
os princpios da terapia multifocal. Tais princpios
podero ajudar os pacientes a no apenas superar
o crcere das drogas, mas tambm o crcere da
emoo gerado por outras doenas psquicas. Se
o leitor tiver pacincia consigo mesmo e despender
uma ateno especial a este captulo, certamente
entender um dos mais complicados assuntos da
Psicologia.

       Corrigindo a retroalimentao da
  memria produzida pelo fenmeno RAM

    O fenmeno RAM, como vimos,  o fenmeno
do registro automtico da memria. Todas as
experincias que construmos na inteligncia so
                                                157
A pior priso do mundo

registradas automaticamente e involuntariamente
por esse fenmeno que prefere registrar as
experincias com maior carga emocional.
      Quanto mais produzimos experincias que
envolvam emoes, mais elas sero registradas
privilegiadamente e mais ficaro disponveis para
serem lidas e para participar das reaes,
pensamentos, sentimentos, maneira de ser, viso
de vida que temos no presente e que teremos no
futuro.
      A qualidade das experincias que tivemos na
infncia determina as caractersticas que teremos
quando adultos, tais como descontrao,
segurana, sensibilidade, ansiedade. Podemos no
ter conscincia de nossas misrias do passado, mas
elas infectam o nosso presente. Tambm podemos
no ter conscincia dos prazeres que tivemos, mas
eles irrigam nossa capacidade de ser e de pensar.
      Se tivemos uma infncia regada com alegria,
brincadeiras, criatividade e com alto grau de
socializao, certamente temos grandes possi-
bilidades de ter uma personalidade tranqila, que
contempla o belo e que aprecia o convvio social.
Se, ao contrrio, tivemos uma infncia saturada com
experincias punitivas, sem afetividade, desprovida
de apoio, carente de elogios e restrita de amigos,
ento, temos grandes possibilidades de ter uma
personalidade rgida, pouco socivel, insatisfeita,
com baixa auto-estima e com humor basal triste.
      Se um jovem usa continuamente drogas
alucinantes, estimulantes e depressoras do crebro,

158
                                  Augusto Jorge Cury

 de se esperar que o fenmeno RAM retroalimente
o efeito da droga no inconsciente, produzindo um
rombo na liberdade de pensar e de sentir.
      De modo semelhante, uma pequena
taquicardia com sensao de desmaio, ocorrida
num elevador, se for retroalimentada pelo
fenmeno RAM, pode transformar-se numa
claustrofobia. Uma ofensa em pblico, se for
retroalimentada, pode gerar um bloqueio social.
Um medo sbito de que se vai morrer ou desmaiar
num determinado momento, se for retroalimentado,
pode se transformar em sndrome do pnico.
      Estes mecanismos psicolgicos so universais
e, portanto, esto de diferentes maneiras presentes
na gnese de grande parte das doenas psquicas.
No caso das fobias, que representam uma averso
irracional, e no caso da dependncia de drogas,
que representam uma atrao irracional, os
mecanismos de formao so to semelhantes que
podemos dizer que elas so plos opostos da
mesma moeda.
      Se ficarmos gravitando em torno dos nossos
fracassos, continuaremos sendo fracassados. Se
gravitarmos em torno de nossas frustraes, derrotas
e faltas, continuaremos frustrados, angustiados,
insatisfeitos e, o que  pior, no mudaremos os
pilares de nossas vidas.
      Todos temos de saber que, dependendo de
como reatroalimentamos nossas experincias,
cavamos nossas prprias sepulturas. Se cuidamos
da higiene bucal, por que no cuidamos dos
pensamentos que so produzidos e registrados nos

                                                159
A pior priso do mundo

palcos de nossas mentes? Limpamos as sujeiras do
mundo fsico, mas no as sujeiras da alma. Se
quisermos ser pessoas doentes, o melhor caminho
 no intervir nos pensamentos negativos e nas
angstias que produzimos no secreto de nossos
seres. Contudo, se desejamos ser livres, precisamos
aprender a trabalhar nossos pensamentos, superar
nossas dores e proteger nossas emoes diante das
turbulncias da vida.
      Devemos estar claros de que os pensamentos
e as emoes do presente no so importantes
apenas no momento em que esto agindo no
presente, mas so importantes porque sero os
alicerces do que seremos no futuro. O estresse de
hoje, ainda que passe amanh, poder ser usado
como material para confeccionar o estresse de
depois de amanh.
      A terapia multifocal principia quando
comeamos a deixar de ser espectadores da
construo de pensamentos e passamos a atuar
nos papis da memria. Quando um usurio
comea a criticar os pensamentos, emoes e
desejos concernentes aos efeitos das drogas no
silncio da sua mente, ele comea a reescrever a
sua histria. A dependncia de drogas cria
razes nas pessoas passivas, mas se esfacela
nos pacientes que a enfrentam.

       Atuando na produo de
pensamentos  O fenmeno do autofluxo

      Quem consegue interromper a construo de
160
                                  Augusto Jorge Cury

pensamentos? S aquele que est morto. 
impossvel interromp-la. A prpria tentativa de
interrupo j  um pensamento. Pensamos
dormindo, nos sonhos, pensamos acordados,
quando estamos trabalhando, andando, dirigindo
o carro.
      Pensar  o destino do homem. s vezes,
pensamos tanto que fazemos grandes viagens sem
sair do lugar. Em algumas situaes ficamos at
aborrecidos com ns mesmos, pois no ouvimos
nada do que as pessoas nos disseram. Por vezes,
temos de fazer uma ginstica para elas no
perceberem que estvamos viajando no mundo
das idias.
      Quantos pensamentos produzimos hoje?
Milhares e milhares. Quantos deles, o eu (a
vontade consciente) produziu com lgica e
determinao? J fiz essa pergunta a muitas
pessoas, inclusive a intelectuais e a psiclogos, e a
resposta, quando pensada, tem sido sempre a
mesma. Respondem-me que a minoria dos
pensamentos foi produzida pelo eu e a maioria
surgiu aleatoriamente no cenrio da mente. Tais
pessoas no sabem, mas, ao me dizer isso, esto
fazendo uma afirmao serssima a qual nunca foi
estudada pela Psicologia.
      Vamos raciocinar. A maioria dos pensamentos
que transitam em nossas mentes sobre pessoas,
experincias passadas e futuras, problemas
existenciais, de fato, no foram programadas pelo
eu. No poucas vezes pensamos coisas absurdas

                                                 161
A pior priso do mundo

sem nenhuma ligao com o que estamos fazendo
ou com o ambiente em que estamos. Se no foi a
vontade consciente do eu que os produziu, quem
os produziu ento? Foi um fenmeno que chamo
de autofluxo.
      O fenmeno do autofluxo, como o prprio
nome indica,  o fenmeno responsvel por
produzir um fluxo de pensamentos e emoes
durante toda histria de vida humana, da meninice
 velhice, da viglia ao sono. Ele produz milhares
de leituras na memria, muitas vezes aleatoriamente.
Qual  o objetivo? H vrios, e no h espao
para discorrer sobre eles neste livro. Quero ressaltar
apenas um objetivo: a produo da mais excelente
fonte de entretenimento natural da espcie humana.
      Vocs sabiam que a maior fonte de
entretenimento no  a TV, a literatura, o esporte, o
sexo ou qualquer outra atividade humana? O
mundo mudou, a tecnologia bateu s nossas portas,
os aparelhos de comunicao invadiram nossas
salas, quartos e escritrios, mas a maior fonte de
entretenimento continua intocvel, imutvel   o
mundo das idias produzido pelo fenmeno do
autofluxo. Como voc gasta a maior parte do seu
tempo? Pensando. Grande parte de nossas
angstias, distraes, sonhos, apreenses,
expectativas, no so motivadas diretamente pelos
estmulos externos, mas pelo conjunto de
pensamentos que diariamente produzimos.
      O mundo das idias produzido pelo autofluxo
 a maior fonte de prazer natural ou a maior fonte
162
                                  Augusto Jorge Cury

de terror humano. Se as idias que produzimos nos
estimulam a ter sonhos, metas, ideais, projetos,
certamente nos induziro ao prazer, mas se forem
negativas, derrotistas e ligadas a doenas, morte,
acidentes, ento nos induzir  angstia e ao
humor deprimido.
       O grande problema  que se as idias
produzidas pelo fenmeno do autofluxo forem
negativas, elas sero registradas privilegiadamente
pelo fenmeno RAM, retroalimentando, assim,
nossas doenas: as fobias, o pnico, a insegurana,
as obsesses, a compulso pelas drogas.
       Se esses mecanismos de funcionamento da
mente, fossem ensinados sistematicamente aos
jovens, a Educao daria um salto, pois daria
condies para intervir em seu prprio mundo, no
territrio dos seus pensamentos e emoes.
       Lembro-me do que um dos meus clientes, um
excelente jurista, disse-me que se tivesse
compreendido desde pequeno esses mecanismos,
ele no teria desenvolvido um quadro grave de
obsesso. Ele produzia diariamente centenas de
idias fixas ligadas ao cncer. Fazia o seu velrio
constantemente, embora tivesse tima sade. O
fenmeno do autofluxo gerou nele uma longa
histria de terror. Todavia, ele aprendeu a gerenciar
tais idias e a resgatar o prazer de viver. A
compreenso desses fenmenos e mecanismos
psicodinmicos  extremamente til para a
psicoterapia e para a preveno social.
       Se um jovem pensa continuamente nas drogas,

                                                 163
A pior priso do mundo

mesmo que no esteja sob o seu efeito, estar
expandindo o significado inconsciente delas. Assim,
ao contrrio do que muitos pensam, inclusive
terapeutas, a alimentao do crcere das drogas
no  produzida apenas pelos efeitos que elas
podem provocar, mas pelo universo de
pensamentos e emoes produzidos pelo fenmeno
do autofluxo.
      Aprender a administrar as idias negativas e
gerenciar as emoes tensas  outro item da terapia
multifocal. Neste aspecto, digo com modstia, a
terapia multifocal, freqentemente, vai alm das
psicoterapias convencionais. Ela no trata apenas
a doena psquica, mas expande as funes mais
importantes da inteligncia do doente, at lev-lo
a ser um pensador, um agente modificador da sua
histria, um administrador das suas emoes. Ela
atua nos papis da memria e nos fenmenos que
constroem a inteligncia e formam a personalidade.
Por um lado, ela  complexa; por outro, passvel
de ser compreendida e fcil de ser aplicada.
      Como a terapia multifocal atua nos papis da
memria e nos fenmenos que constroem as
cadeias de pensamentos, ela no compete com
outras terapias: a psicanlise, o psicodrama, a
comportamental, a cognitiva. Pelo contrrio, ajuda-
as. Todas as terapias foram derivadas de teorias
que estudaram a mente humana a partir do
pensamento j elaborado, ou seja, a partir dos
alicerces prontos. A multifocal comea pelo estudo
dos alicerces da inteligncia, ou seja, dos
164
                                  Augusto Jorge Cury

fenmenos que lem a memria e constroem a
personalidade e estabelecem o funcionamento da
mente. Portanto, mesmo se um terapeuta no quiser
aplicar exclusivamente a terapia multifocal, ele pode
muito bem conviver com sua psicoterapia tradicional
e abraar os alicerces da terapia multifocal.

   Reescrevendo a memria: abrindo
          as janelas da mente

      Tente fazer uma faxina nos pores de sua
memria. Voc no conseguir. Esforce-se para
extrair todo sentimento de culpa, autopunio,
rigidez, rejeio, que foi registrado nela. No ter
xito.  possvel limpar as teias de aranha dos
nossos tetos e fazer uma limpeza em nossas
escrivaninhas, mas no  possvel remover a sujeira
contida em nossas memrias. S  possvel
reescrev-las.
      Os arquivos da memria contm o tecido de
nossas experincias conscientes e inconscientes. Tais
arquivos jamais podem ser destrudos, a no ser
involuntariamente, por meio de um tumor cerebral,
um trauma craniano ou uma degenerao das
clulas nervosas, como na doena de Alzhaimer.
Destruir esses arquivos significa destruir nossa
conscincia, esfacelar nossa identidade.
      Se tivssemos a liberdade de passar uma
 borracha em nossa memria, teramos a
vantagem de poder eliminar todas as misrias e
todos os traumas contidos nela. Nos computadores

                                                 165
A pior priso do mundo

temos essa liberdade  em segundos, apagamos o
trabalho feito durante anos. Entretanto, essa
liberdade poderia gerar o maior desastre
intelectual. Correramos o risco de cometer um
suicdio contra nossa conscincia, contra a nossa
capacidade de pensar, pois num momento de
angstia poderamos desejar esquecer todo o
nosso passado e comear tudo de novo. Isso
produziria a morte da identidade. No saberamos
mais quem somos, como estamos e onde estamos.
Tornar-nos-amos animais irracionais, pois no
teramos mais a conscincia da existncia.
      O Criador deu muitas liberdades ao homem
que criou, inclusive a de negar a Sua prpria
existncia, mas no lhe deu liberdade para mexer
nos arquivos e deletar sua memria, pois isso
conspiraria contra a prpria liberdade, pois sem a
memria no poderamos produzir pensamentos e
tomar decises. Portanto, Ele protegeu a memria
contra os ataques do eu, contra as possveis crises
que o homem atravessa. Apagar a memria 
impossvel, s  possvel reedit-la.
      Quem tem sndrome do pnico, obsesso por
doena ou depresso, se quiser ficar livre, tem de
reescrever a sua histria. No h milagres no
tratamento psicoteraputico e psiquitrico. No
importa a corrente psicoteraputica usada, se houve
sucesso no tratamento  porque, ainda que o
terapeuta no tenha conscincia, o paciente
reescreveu os seus conflitos, aprendeu a gerenciar
seus pensamentos e a usar o fenmeno do gatilho
166
                                  Augusto Jorge Cury

da memria, da ncora da memria, do autofluxo,
bem como o fenmeno RAM.
       Vamos recordar. O fenmeno do gatilho da
memria  o fenmeno que inicia, a partir de um
estmulo fsico, tal como um elogio, ou psquico, tal
como um pensamento, a leitura da memria e
produz as primeiras reaes, impresses,
sensaes, sentimentos e pensamentos. Esse
fenmeno desloca a ncora da memria, ou seja,
o seu territrio de leitura para uma determinada
regio e, conseqentemente, confina a leitura do
fenmeno do autofluxo a esta rea. Assim, o
paciente que est numa crise de pnico, numa crise
compulsiva de usar a droga ou em outra crise
emocional qualquer, produzir idias e emoes
ligadas ao grupo de informaes contidas nessa
zona especfica da memria.
       Para alguns, esse mecanismo pode ser difcil
de ser entendido, mas certamente todos o vivem
diariamente. Quantas vezes alguns problemas nos
causam tantas preocupaes que detonam um
gatilho que nos leva a pensar continuamente neles?
Queremos desviar o pensamento, mas no temos
xito. O que aconteceu? O gatilho deslocou o
territrio de leitura para uma rea da memria e o
fenmeno do autofluxo comeou a l-la
continuamente, produzindo idias fixas sobre o
problema.
       Muitos no vivem o crcere das drogas, mas
vivem o crcere das preocupaes e dos
pensamentos antecipatrios. Pessoas assim tm uma

                                                 167
A pior priso do mundo

vida intranqila, no suportam contrariedades e
vivem intensamente os problemas que ainda no
ocorreram. Tornam-se, de fato, os piores inimigos
de si mesmas.
      Precisamos aprender a gerenciar nossa
inteligncia, a administrar a usina de emoes que
 produzida no cerne da alma, a resgatar a
liderana do eu diante dos estmulos estressantes.
Assim, poderemos reeditar os textos principais de
nossas vidas.

      O resgate da liderana do eu

     O que  o eu? O eu  a vontade
consciente.  a conscincia de que pensamos e
de que podemos administrar os pensamentos. O
eu, aqui, no quer dizer o ego de Freud, que 
uma parte da estrutura da personalidade, nem quer
dizer ego como vida natural da psique humana.
     Na teoria da inteligncia multifocal, o eu  a
identidade psquica e social do homem.  a
conscincia que define quem somos, como estamos,
onde estamos, qual o nosso papel e quais as nossas
responsabilidades e habilidades sociais. Representa
o centro consciente da personalidade, representa
a motivao consciente do homem de atuar no seu
mundo e ser um agente modificador da sua histria.
Portanto, por ser a identidade consciente do
homem, o eu nunca se destri, apenas se
transforma. A nica coisa que pode levar o eu 
destruio  a morte ou a leso da memria,
mediante, como j disse, a ao de tumores e
traumas cerebrais.

168
                                  Augusto Jorge Cury

     Como o eu poder ser um agente modificador
de sua vida, reescrever a sua histria? Ele pode
acrescentar continuamente novas experincias nos
arquivos da memria, atravs da leitura de livros,
aquisio de novas informaes, produo de
sonhos, metas e prioridades.
     Por que determinadas pessoas nunca mudam
suas caractersticas doentias? Porque so pobres
na sua criatividade, no tm sonhos nem metas,
no questionam seus conceitos e paradigmas, so
incapazes de indagar porque esto vivas e de
procurar um sentido mais nobre para as suas vidas.
So passantes existenciais, ou seja, passam pela
vida sem nunca mergulhar dentro de si mesmas,
sem ter conscincia do espetculo da vida. Porque
tambm no se interiorizam, no aprendem a
reconhecer seus erros nem a repensar sua maneira
de ser e reagir diante dos eventos que a circundam.
Possuem, portanto, um eu frgil, inseguro, instvel,
temeroso, incapaz de mudar as suas rotas psquicas,
sociais e profissionais.
       H pessoas que tm grande cultura, so
consideradas intelectuais, mas parecem imutveis
em seu orgulho, agressividade, impulsividade,
ansiedade. So prisioneiras e infelizes, tais como
os farmacodependentes. Estes so controlados pela
droga qumica, aqueles pela droga do preconceito
e da rigidez.
      Como o eu pode acelerar o processo de se
tornar um agente modificador da sua histria? Por
meio de resgatar a sua liderana no e fora do
foco de tenso. Vejamos.
                                                169
A pior priso do mundo

        O resgate da liderana do
          eu no foco de tenso

      O resgate da liderana do eu no foco de
tenso refere-se ao gerenciamento das reaes
instantneas (ansiedade, desespero, medo,
impulsividade, etc.) detonadas pelo fenmeno do
gatilho da memria. Se o eu tiver xito em atuar na
tenso, ele no apenas domina o foco de tenso,
mas tambm administra os territrios de leitura da
ncora da memria e, conseqentemente, recicla
os pensamentos produzidos pelo fenmeno do
autofluxo, principalmente se estes forem fixos e
negativos.
      Por exemplo, se um paciente produzir em
determinado momento um ataque de pnico, ele
ter segundos para resgatar a liderana do eu no
foco de tenso, caso contrrio, o palco de sua mente
ser invadido por pensamentos e emoes
produzidos pelo fenmeno do autofluxo e que sero
difceis de serem administrados. Do mesmo modo,
se um paciente comea a produzir, por meio do
gatilho da memria, pensamentos negativos que
aumentam o nvel do humor deprimido ou do
transtorno obsessivo ou do desejo compulsivo de
usar drogas, ele ter poucos momentos para atuar
nesses pensamentos e emoes e recicl-los.
      Diante de qualquer foco de tenso, ou seja,
diante de qualquer turbulncia emocional e de
pensamentos angustiantes, cumpre ao eu resgatar
sua liderana e administr-lo, discuti-lo, critic-lo,

170
                                  Augusto Jorge Cury

dar-lhe um novo significado, silenciosamente, no
palco da mente, caso contrrio, o fenmeno do
autofluxo dominar a inteligncia. Por exemplo, h
pessoas extremamente negativas. Qualquer
problema, por mnimo que seja, detona
pensamentos negativistas. Se elas no atuarem em
cada idia e reao negativa, sero sempre vtimas
de sua misria e, o que  pior, estaro registrando
de volta tais idias e reaes, acrescentando, dia-
a-dia, mais tijolos na sepultura do seu negativismo.
      Recordo-me de um empresrio que sofria de
depresso e transtorno obsessivo. Alm disso, tinha
uma grave timidez, que muitas vezes era
interpretada como se ele fosse uma pessoa
orgulhosa e insocivel. Os tmidos so pessoas
simples e humanas, mas vendem pessimamente a
sua imagem. Na terapia, procurei faz-lo
compreender os papis da memria e resgatar a
liderana do eu nos focos de tenso. Ele deu um
salto na qualidade de vida.
      Se os pais e as escolas ensinassem os alunos
a intervir no seu mundo psquico, teramos homens
menos doentes e muito mais saudveis.
      De fato, um dos mais graves erros da
educao familiar e escolar, bem como de alguns
tipos de psicoterapias,  transformar o ser humano
num espectador passivo de sua prpria misria. As
doenas psquicas, incluindo o crcere das drogas,
alojam-se em pessoas passivas, alojam-se em quem
no tem coragem de intervir nos focos de tenso.
      Repito sempre que o grande entrave no

                                                171
A pior priso do mundo

tratamento psicolgico no  a doena do doente,
mas o doente da doena. A grande dificuldade  a
disposio do eu em modificar a sua histria e no
a dimenso da sua doena. s vezes, a doena
no  grave, mas o doente  frgil, passivo, descr
de sua capacidade, vive a prtica do coitadismo e
do auto-abandono. Esse paciente  difcil de ser
ajudado, pois  quase que impenetrvel.
      Por outro lado, s vezes, a doena  grave,
uma depresso sria ou uma dependncia crnica
de drogas, mas o paciente tem grande disposio
de mudar a sua histria e de atuar dentro de si
mesmo. Alm disso, apesar de assumir que est
doente,  inconformado com sua doena. Ele exige
ser saudvel e reivindica dentro de si mesmo o
direito de ser livre e feliz. Um paciente assim, por
mais grave que seja a sua doena, certamente sair
do seu crcere. O problema no  ser doente, mas
 conformar-se em ser doente.
      Solicito aos educadores que ensinem os seus
alunos a serem agentes modificadores da sua
histria, que os estimulem a enfrentar os seus
medos, a discutir consigo mesmos os seus conflitos,
tal como a timidez.
      A timidez  uma fbrica de sofrimento. Muitos
jovens tm timidez patolgica ou doentia e a
educao clssica no faz nada por eles.
      Peo tambm aos professores que os estimulem
a fazerem no palco de suas mentes, sem ningum
ouvir, uma mesa redonda com a insegurana, o
complexo de inferioridade, o conflito com os pais,
a agressividade, a dependncia de drogas. Uma
172
                                  Augusto Jorge Cury

das coisas mais saudveis que uma pessoa deveria
fazer e no faz  conversar consigo mesma e criticar
o lixo que passa em suas mentes.
      No podemos ficar esperando nossas crianas
e nossos jovens ficarem doentes para depois tentar
trat-los. Isso  injusto e desumano. As doenas
psquicas impem grande sofrimento e podem
apagar o brilho da vida.
      A Educao tem uma tarefa mais nobre
do que a Psicologia e a Psiquiatria clnica.
Estas tratam do homem doente, aquelas
                             formar,
formam, ou deveriam formar, um homem
saudvel. Quanto mais eficiente for a
Educao, menos espao a Psiquiatria e a
Psicologia clnica tero nas sociedades
modernas. Quanto menos eficiente for a
Educao, mais essas duas cincias sero
imprescindveis nas sociedades modernas.
Infelizmente nossos consultrios esto cheios.
      No h gigantes no territrio da emoo.
Todos somos aprendizes na escola da vida, quer
sejamos psiquiatras ou pacientes. Se o eu aprender
a intervir com lucidez, crtica e determinao nos
pensamentos e emoes tensas e negativas, ele
pode gerenci-los, control-los e, conse-
qentemente, reescrev-los.

      As doenas psquicas no se
  resolvem com um golpe de  bisturi

     Os pacientes que so mdicos cirurgies

                                                173
A pior priso do mundo

costumam ter uma dificuldade a mais na terapia
do que os outros pacientes. Por qu? Porque apesar
de cultos, eles esto acostumados a resolver tudo
com um bisturi. Retiram um tumor, um clculo renal,
uma lcera e em pouco tempo suturam o doente.
Entretanto, no d para usar um bisturi no campo
da energia psquica. No  possvel reorganizar a
depresso, as fobias, a irritabilidade num golpe
de mgica.
       Vezes h em que aps algumas sesses de
terapia, o paciente j apresenta significativas
melhoras do seu quadro depressivo e ansioso.
Todavia, eu j os preparo para possveis recadas.
       As recadas ocorrem, mesmo no caso do
crcere da dependncia, porque h arquivos
doentios que esto presentes na memria e no
foram reescritos. Quando o paciente passa por um
foco de tenso, o fenmeno do gatilho da memria
produz imediatamente reaes emocionais que
deslocam a ncora da memria para esses
arquivos doentios. Nesse momento, eles tm a
recada. Nesse momento tambm entra em ao o
fenmeno do autofluxo. Ele comea a ler
continuamente as informaes contidas nesse
territrio, realimentando as doenas psquicas. No
caso das depresses e das doenas ansiosas, o
fenmeno do autofluxo gerar cadeias de
pensamentos negativos, fbicos, tensos, que,
quando registrados, financiaro a perpetuao
dessas cadeias.
       Do mesmo modo acontece com as drogas.
Os dependentes tm um monstro no inconsciente
174
                                  Augusto Jorge Cury

que, s vezes cochila, mas ainda no est
exterminado. As experincias sobre as drogas
ocupam reas importantes da memria. O paciente
pode estar bem, sem usar drogas h semanas ou
meses. Ento, de repente, diante de um foco de
tenso, que pode ser uma perda, um humor
deprimido, uma ofensa, uma oferta de droga e at
a imagem de uma pessoa usando-a, o gatilho da
memria pode ser detonado e gerar um desejo de
us-las.
      Mas  possvel que ele ainda esteja firme e
determinado em no us-la. Todavia, o gatilho da
memria no apenas gerou cadeias de
pensamentos sobre as drogas e o desejo de us-
la, mas tambm deslocou a ncora para reas
crticas da memria, onde esto arquivadas
milhares de experincias sobre elas.
      Se o paciente no resgatar a liderana do eu
neste foco de tenso, se no administrar seus
pensamentos e emoes nesta situao, ele ser
dominado pelo desejo compulsivo e partir para o
uso. Se resgatar a liderana do eu, ele sair
vitorioso. No apenas superar o foco de tenso e
vencer o desejo compulsivo das drogas, mas
tambm reescrever a sua histria inconsciente, pois
a experincia de superao que tiver ser registrada
na memria. Assim, vencer mais uma batalha,
reescrever mais um captulo de sua vida.
      Se ele recair, deve tomar cuidado, pois o
fenmeno do autofluxo continuar produzindo cada
vez mais pensamentos e emoes que o faro
gravitar em torno da droga. Todas essas

                                                175
A pior priso do mundo

experincias sero registradas, aumentado, assim,
a imagem da droga no inconsciente. Contudo, se
ele recair e, em seguida, resgatar a liderana do
eu, criticar com lucidez sua recada, refizer suas
energias e no se deixar estrangular pelo sentimento
de culpa, baixa auto-estima e sentimento de auto-
abandono, ento a recada poder torn-lo mais
forte. Porm, raramente, os terapeutas conhecem
esses mecanismos.
      No tratamento de consultrio e no no de
internao, ns, ainda que peamos absteno
absoluta das drogas ao paciente, devemos abrir
uma janela do fundo e prepar-lo para uma
possvel derrota temporria. Mas, dificilmente,
algum terapeuta abre essa janela. Isso ocorre no
apenas porque desconhecem o funcionamento da
mente, mas porque tm um medo ingnuo de que
este preparo possa estimular a recada. Por isso,
quando ocorre recada, ela  extremamente
destrutiva, pois gera um derrotismo e um sentimento
de culpa insuportveis, que conduzem o paciente a
se afundar novamente nos pntanos do crcere da
dependncia.
      Devemos tambm preparar os pacientes
portadores de depresso, sndrome do pnico e
transtornos obsessivos para possveis recadas.
Temos a responsabilidade de torn-los mais fortes
depois de uma recada. Caso contrrio, quando
ela ocorrer, eles abandonaro o tratamento e sero
vtimas da fbrica de pensamentos negativos e de
emoes angustiantes produzidas pelo fenmeno
do autofluxo. Recair, mas levantar rpido e tornar-
176
                                  Augusto Jorge Cury

se mais slido, deveria ser um lema de vida de
todos aqueles que querem ser livres da pior priso
do mundo.
       muito melhor no recair, pois uma recada
sempre retroalimenta as imagens doentias no
inconsciente da memria. Mas o pior  no saber
o que fazer com uma recada. Se o sentimento de
culpa, de auto-abandono e de baixa auto-estima
ocupar o palco da mente de um paciente, ento
sua recada ser prolongada e trar grandes
sofrimentos e retroalimentar o seu transtorno
psquico ou a sua dependncia.
      A terapia multifocal objetiva que o paciente
continue o processo psicoteraputico nos territrios
onde ele vive e atua.  um grande engano fazer
com que os pacientes s se tratem quando esto
diante de um terapeuta, seja ele um psiquiatra,
psiclogo ou agente de sade, ou mesmo quando
esto internados. Eles devem continuar o tratamento
nos territrios sinuosos da vida.
      Nunca seremos plenamente lderes de ns
mesmos, nunca controlaremos todos os nossos
pensamentos e emoes, mas isso no quer dizer
que nossas mentes sejam um barco que navega
ao sabor do vento. Podemos no controlar muitas
variveis que do instabilidade s ondas de nossas
emoes, mas podemos tomar o leme da
inteligncia e atingir nossos objetivos.

                              fora
                             fora
O resgate da liderana do eu  fora do
foco de tenso: reescrevendo a histria

     Os pacientes dependentes precisam aprender
                                                177
A pior priso do mundo

a no apenas resgatar a liderana do eu nos focos
de tenso, mas tambm fora dos focos de tenso.
Por qu? Porque  insuficiente que ele atue apenas
quando se detona o gatilho do desejo compulsivo
de usar drogas.  necessrio que ele tambm
reescreva a sua histria fora dos focos de tenso,
ou seja, quando o ambiente emocional est
tranqilo, para que ele possa acelerar a
reorganizao dos arquivos. Quem mais atua nesta
fase, tem mais possibilidade de ficar livre logo do
crcere da emoo. Aqueles que esperam estar
debaixo de um foco de tenso para poder atuar
dentro de si mesmos, libertam-se mais lentamente.
      Como fazer isto? Imagine a memria como
sendo uma imensa cidade. Nela, h vrios bairros,
com vrias ruas, com vrios endereos residenciais.
Cada uma dessas residncias  como se fosse uma
experincia existencial. Existem casas simples, que
simbolizam experincias de pouca emoo. H,
entretanto, outras casas imensas, verdadeiros
palcios, que simbolizam experincias de intensas
emoes.
      Entre estas experincias marcantes esto as
produzidas pelas drogas. No  fcil reescrev-
las, pois no sabemos onde elas esto registradas
no crtex cerebral. No sabemos nem mesmo como
elas foram arquivadas e quais as conexes e
proximidade que possuem com as experincias
saudveis. Diante disso, repito a indagao. Como
reescrev-las e como acelerar este processo? Como
resgatar a liderana do eu fora no foco de tenso,
ou seja, quando tudo est calmo?

178
                                    Augusto Jorge Cury

      S fazer terapia e compreender as causas
conscientes da doena,  insuficiente. S resgatar
a liderana do eu, quando o gatilho da compulso
 detonado, tambm  pouco.  preciso atingir
outros braos da terapia multifocal. No sabemos
qual o lcus dessas experincias e no temos como
elimin-las. Ento nos resta a alternativa de construir
idias saudveis, criativas e crticas, dezenas de
vezes, tanto a favor da vida como contra a
dependncia das drogas, bem como contra a
fragilidade e passividade do eu.
      Os usurios de drogas, bem como os
portadores de outras doenas, precisam fazer, no
silncio de suas mentes, uma mesa redonda para
discutir suas atitudes impensadas, suas incoerncias,
sua dificuldade em lidar com as frustraes, de
superar suas dores. Essa  a tcnica do resgate da
liderana do eu fora dos focos de tenso. Cada
pensamento novo, crtico, regado a reflexo e
sabedoria vai sendo continuamente registrado,
reescrevendo a histria inconsciente e
desorganizando o crcere das drogas, o crcere
da claustrofobia, da cleptomania, da sndrome do
pnico, dos transtornos depressivos.
      Reescrever a histria inconsciente por meio do
resgate da liderana do eu fora dos focos de tenso
 um brinde  liberdade. Esta tcnica precisa ser
feita todos os dias, de segunda a segunda, por
cerca de um a dois anos.  preciso faz-la com
honestidade, inteligncia e espontaneidade, dentro
dos limites da criatividade de cada um, como se o
paciente fosse um engenheiro de idias.
                                                  179
A pior priso do mundo

      Atuar nos focos de tenso produz o alvio
imediato e atuar nos arquivos que esto fora dos
focos de tenso reorganiza a histria e produz as
razes da sade psquica.
      Os pacientes que esto internados devem fazer
um inventrio de suas experincias todos os dias.
Se possvel, reconstruir as mais importantes, tais
como suas recadas, os momentos de influncia de
amigos, os momentos de solido, as dores que no
superaram e os efeitos das drogas em cada uma
dessas situaes. Eles devem dar um novo
significado a elas, para que possam reescrev-las.
Este procedimento, associado s tcnicas
psicoteraputicas, d profundidade ao tratamento
e acelera-o.
       indispensvel irrigar nossos pacientes
com esperana.  preciso faz-los mais fortes,
ousados e determinados, mesmo aps possveis
recadas.  preciso lev-los a compreender quo
necessrio  enxergar as doenas como se fosse
um livro com muitos captulos ou uma guerra com
muitas batalhas.
      Um captulo com cenas dramticas no
quer dizer um livro sem final feliz. Nem a
perda de algumas batalhas quer dizer a perda
de uma guerra. Desistir nunca, perseverar
sempre.




180
                                   Augusto Jorge Cury

         Passos estratgicos para o
    tratamento da terapia multifocal.
      Estes passos podem ser usados como metas em
qualquer tipo de tratamento e psicoterapia. Cada passo
deve ser vivido semanalmente como uma meta a ser
alcanada. Deve ser pensado, refletido e proclamado
no silncio da mente, dezenas de vezes por dia, com
inteligncia e criatividade. Eles complementam os
clssicos passos dos AA (Alcolicos Annimos).

     1 - Declaro que a liberdade e o prazer de viver
so meus direitos, independentemente das intempries
da vida que estou atravessando. No preciso do efeito
das drogas para ser livre e feliz.

     2 - Estou consciente de que a dependncia e a
mentira so amigos ntimos. Declaro que fico livre
tanto da dependncia como da mentira. Assim como
o Mestre dos mestres, Jesus Cristo, declarou com
autenticidade que sua alma estava angustiada antes
de morrer, tambm eu decido falar dos meus
sentimentos e desejos com sinceridade. Viverei a arte
da autenticidade.

     3 - Reconheo a minha doena, mas decido
convictamente que no quero ser um doente
(farmacodependente, deprimido, obsessivo, etc).

     4 - Enfrento sem medo as minhas dores
emocionais (ansiedade, angstia, frustrao, humor
deprimido) e as trabalho com dignidade e sabedoria,
pensando antes de reagir.

                                                  181
A pior priso do mundo

      5 - Estou consciente de que, uma vez dependente,
o meu problema no  mais s a droga fora de mim,
mas a imagem dela registrada na minha memria,
no meu inconsciente. Portanto, reescrevo a minha
memria a cada momento com idias saudveis e
inteligentes.
inteligentes

    6 - Critico todas as idias e pensamentos negativos
que povoam o palco da minha mente e que me
desanimam de reconstruir uma nova vida. Transformo
os meus invernos em belas primaveras.

      7 - Resgato a liderana do eu nos focos de tenso
gerados pelas minhas perdas, dificuldades e
frustraes e, conseqentemente, domino o gatilho da
memria que produz a ansiedade, o humor deprimido
e a compulso pelas drogas.

     8 - Nunca vou desistir de mim. Determino a
absteno completa das drogas, incluindo o lcool.
Todavia, se eu recair, redobrarei o meu nimo e
recomearei imediatamente meu tratamento e no me
afogarei no sentimento de culpa e de auto-abandono.

     9 - Posso perder algumas batalhas, mas no perco
a guerra contra a minha doena psquica. Supero todo
fracasso, angstia e desmotivao. Construo um osis
em cada deserto que atravesso.

      10 - Tenho plena convico de que o autor da
existncia, Deus, me criou para ser livre, alegre e
saudvel. Por isso, eu O amo com toda a minha alma,
fora e inteligncia, bem como a vida que Ele me deu.
182
        10Captulo




Valorizar a vida  a grande prova
           de sabedoria
                                Augusto Jorge Cury




         A vida humana  um mistrio insondvel.
         S o fato de eu estar escrevendo estas
palavras, colocando nelas os meus sentimentos e
pensamentos, e de vocs leitores, em algum lugar,
estarem lendo-as e transmitindo-as para seu crtex
cerebral, para, em milsimos de segundos, conferi-
las nos complexos arquivos da memria e produzir
reaes e emoes que so suas e no mais
minhas, expressa um profundo e complexo mistrio,
privilgio da maravilhosa vida que possumos.
      Quando paro para observar as pessoas que
me rodeiam  suas palavras, expresses, reaes,
comportamentos e atitudes  fico simplesmente
boquiaberto com a complexidade de nosso
psiquismo. Vocs no acham que pensar  uma
experincia fantstica? Que o fato de possuirmos
sentimentos de alegria, paz, amor e at mesmo
angstia, ansiedade e sentimento de culpa  um
                                              185
A pior priso do mundo

mistrio incalculvel? E o fato de brotar instan-
taneamente no palco de nossas inteligncias um
universo de impulsos e desejos, no retrata tambm
um grande mistrio?
      Quem no consegue ficar surpreso, pasmado
com a mente humana est entorpecido, no por
drogas qumicas, mas por estresse, ansiedade,
preocupaes e dificuldades sociais e financeiras.
Quem no consegue ficar, como os gregos diziam,
assombrado com os fenmenos que esto  sua
frente, nunca poder aprender algo com eles.
      Encorajo os leitores a deixarem momen-
taneamente seus problemas, preocupaes,
necessidades e at mesmo suas angstias e vazios
existenciais e colocarem-se diante de um ser
humano, mesmo que seja uma criana recm-
nascida, ou uma pessoa idosa na fase final de sua
histria de vida. Gastem tempo observando,
contemplando as pessoas. Se fizerem isso, ser
impossvel no vislumbrarem como a vida que
possumos, independentemente dos atropelos, 
encantadora e misteriosa.
      Porm, apesar de a vida humana possuir um
valor inestimvel, ela tem sido vivida pela maioria
de ns de maneira superficial e insignificante. To
superficial, que a fina camada de pele que cobre
nosso corpo tem servido de parmetro para
discriminar seres humanos de cores diferentes. To
insignificante, que vivemos quase que exclu-
sivamente em funo do ter e no do ser, ou
seja, em funo de ter dinheiro, sucesso social, um
186
                                   Augusto Jorge Cury

bom carro, andar no rigor da moda, mas no em
funo de ser alegre, tranqilo, coerente, tolerante.
       O resultado dessa trajetria vazia, qual ? A
farmacodependncia, os sintomas psicossomticos,
a solido, a violncia. No que tange  violncia e
s violaes dos direitos humanos, a crise 
dramtica.  com pesar que podemos constatar
que um cdigo de leis, que estabelece os limites
dos direitos e deveres dos cidados em uma
sociedade,  insuficiente para control-los, sendo
necessria a presena impositiva de um batalho
de policiais para garantir o cumprimento dessas
leis. E, como isso ainda  insuficiente, as sociedades
necessitam de grande nmero de presdios, para
poder punir os que acabam infringindo as leis. O
homem pensante  capaz de ser mais violento do
que os animais irracionais.

            A vida e a sabedoria

       A Cincia ampliou-se muito nos dias de hoje,
porm no elevou o padro de vida humana, no
produziu homens maduros e experientes. Uma
pessoa pode deter muito conhecimento cientfico,
ter ttulos acadmicos, mas, ainda assim, poder
ser infantil, imatura na sua experincia de vida, no
sabendo suportar nem crescer diante de suas
frustraes.
       A Psicologia  muito til ao homem, porm,
mesmo com as teorias e tcnicas atuais, no tem a
capacidade de financiar a maturidade da psique,

                                                  187
A pior priso do mundo

a fim de que a emoo seja contemplativa e bem
resolvida, os comportamentos sejam dosados e
sbrios e os desejos sejam serenamente
governados. Tais caractersticas dependem muito
do processo de formao individual da
personalidade, principalmente da maneira ntima
e particular de trabalhar as frustraes, fracassos
e dores e do desenvolvimento de metas,
prioridades e sonhos.
      A Cincia tem paradoxos impressionantes. Por
meio da Medicina, ela evoluiu muito como tentativa
de aliviar a dor e prolongar a existncia; porm,
tambm evoluiu na engenharia blica,
armamentista, como tentativa repugnante de destruir
a vida humana da maneira mais rpida e eficaz
possvel. Que contraste! Ns nos tornamos gigantes
na Cincia, mas meninos no procedimento.
      Nunca deveramos sentir vergonha dos outros,
nunca deveramos abandonar as pessoas. Um pai
jamais deve desistir de seu filho, mesmo que seja
um rebelde e possua uma grave farmaco-
dependncia, pois, por pior que sejam seus erros,
ele ainda  um ser humano. A sociedade pode
rejeit-lo e discrimin-lo ao mximo, mas devemos
estender nossas mos a ele, mesmo que ele a
rejeite. Se ele rejeitar nossa ajuda, devemos usar
toda a habilidade para criar um novo clima na
relao social e familiar e, assim, despertar o
interesse dele pela vida.
      Se ele recusar qualquer ajuda, devemos propor

188
                                  Augusto Jorge Cury

a internao. E, se ele ainda assim recusar, no h
nada a fazer a no ser esperar. Os pais que
descobrem o caminho de Deus e da orao
encontram, nesta angustiante jornada, algo que a
Psiquiatria e a Psicologia jamais podero oferecer.
Encontram fora na fragilidade e paz no caos.
       Impor uma internao ou qualquer tipo de
ajuda no resolve. Devemos esperar. Esperar no
quer dizer desistir, mas aguardar at que a pessoa
dependente a procure. Repito, no devemos impor
nossa ajuda, mas sempre coloc-la  disposio
com gentileza e dignidade. Os pais no devem viver
em funo da pessoa que se droga, mas devem
dar a ela tantas oportunidades quantas forem
necessrias. Am-lo incondicionalmente no quer
dizer ser permissivo.  necessrio colocar limites
em seus comportamentos, tais como controlar seus
gastos e no permitir agressividade no ambiente
familiar.
       Devemos elogiar muito mais do que criticar.
Se isto  vlido para qualquer tipo de pessoa,
imagine como no  vlido para uma pessoa sob
o crcere da dependncia. O elogio abre janelas
da memria e faz com que nossa ajuda e at nossa
crtica tenham um impacto saudvel. Se no
conseguimos elogiar uma pessoa, no devemos
critic-la, pois, neste caso, a crtica funciona como
uma lmina que fere a emoo e trava a
inteligncia.
       O elogio constri novas avenidas no
relacionamento. A pessoa vtima da farmaco-
dependncia j est cansada de ser criticada e de

                                                 189
A pior priso do mundo

saber que est errada. As crticas s servem para
adubar a sua misria e a sua solido.
      Devemos aprender a criar novos canais de
comunicao com ela. Nesse sentido, a sabedoria
do Mestre de Nazar  encorajadora. Cristo criou
ricos canais de comunicao com seus ntimos.
Tratou das razes mais ntimas da solido. Construiu
um relacionamento aberto, ricamente afetivo, sem
preconceitos. Ele valorizou elementos que o poder
econmico no pode comprar, elementos que esto
no cerne das aspiraes do esprito humano, no
mago dos pensamentos e das emoes.
      O Mestre reorganizou o processo de
construo das relaes humanas entre Seus
discpulos. As relaes interpessoais deixaram de
ser um teatro superficial para ser fundamentadas
num clima de amor potico, impregnado de
solidariedade, de busca de ajuda mtua, de
dilogo aberto.
      Os jovens pescadores que O seguiram, que
eram to limitados culturalmente e que possuam
um mundo intelectual to pequeno, desenvolveram
a arte de pensar, conheceram os caminhos da
tolerncia, aprenderam a ser fiis s suas
conscincias, vacinaram-se contra a competio
predatria, aprenderam a trabalhar suas dores e
suas frustraes, enfim, desenvolveram as funes
mais importantes da inteligncia.
      A sabedoria do Mestre de Nazar no tem
precedente histrico. Ele conseguia penetrar na dor
de cada ser humano e compreender seus
190
                                                     Augusto Jorge Cury

sentimentos mais represados. Conseguia falar ao
corao das pessoas mais rgidas e desprezadas e
ouvir as palavras que no diziam. Estar ao lado
Dele era relaxante e agradvel. Sabia dos erros
das pessoas, mas no as acusava nem as exclua.
Ele era to agradvel e instigante que at mesmo
os Seus mais ardentes opositores no se afastavam
Dele, pois apreciavam ouvi-Lo*.

            Caminhando nas trajetrias
              de nosso prprio ser

       No  possvel vivermos uma vida social e
emocional saudvel sem aprender a nos interiorizar,
a nos conhecer mais intimamente e a desenvolver
uma capacidade de autocrtica e reflexo sobre o
que somos e como reagimos diante das nossas
fantasias e das circunstncias externas.
      A busca de interiorizao no deveria ser um
caso excepcional, somente quando o psiquismo
adoece e ento se procura a ajuda de um
profissional da rea de Psiquiatria e Psicologia. Essa
busca deveria ser algo rotineiro em nossas
experincias de vida. Ela deveria ser estimulada
pelos pais e pela escola, desde quando as crianas
so pequenas.  .
       No  possvel produzir homens maduros
que sabem se conduzir se eles no aprendem
a autocrtica, a pensar antes de reagir, a  reagir,
estabelecer limites para seus comportamentos
* (Cury, Augusto J., Anlise da Inteligncia de Cristo  O Mestre da Sensibilidade,
editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000)

                                                                            191
A pior priso do mundo

e, principalmente, se no aprendem a desen-
volver a sabedoria.
     Diante disso, minha concluso  que a
problemtica das drogas no tem como principal
ru a essncia qumica, mas o homem que as usa,
juntamente com o processo educacional em que
esse homem forma a sua personalidade. Reverter
esse quadro  o nosso grande desafio. A melhor
maneira de destruir a liberdade  querer viv-la
sem limites.

        Uma espcie desconectada
              da natureza

     Uma outra atitude que tem gerado tantas
desordens psicossociais nas sociedades modernas
 a desconexo cada vez mais profunda da espcie
humana com a natureza.
     O homem tem muito a aprender com o
comportamento das espcies contidas nos
ecossistemas. Por exemplo, os pssaros, s vezes,
durante a madrugada, sofrem intensas agresses
do meio ambiente: frio intenso, ventos impetuosos,
chuvas torrenciais, etc. Eles tm todos os motivos
para despertar silenciosos, angustiados, pela
manh. Mas, ao invs disso, eles cantam, rejubilam.
     Ns, muitas vezes, reagimos diferentemente.
Diante dos obstculos que a vida nos traz ou que
criamos em nossas prprias mentes, ficamos
deprimimos, ansiosos. Algumas pessoas entram
num processo depressivo to dramtico que no
raramente tm idias de suicdio.
192
                                  Augusto Jorge Cury

      Somos a nica espcie inteligente da natureza,
mas no somos a mais feliz. Somos a nica que
tem conscincia de que pensa e que pode gerenciar
a construo das idias, mas, paradoxalmente,
temos pouca habilidade de administrar os focos
de tenso, e pouca conscincia das dores e
necessidades dos outros. As faculdades de
Psicologia multiplicam-se, mas o homem moderno
no  mais sbio e solidrio do que o homem dos
sculos passados, ao contrrio, a crise do dilogo,
o individualismo e a competio predatria
espalham-se como nunca.
      A graa, a habilidade e o encanto das cores,
dos movimentos, das interaes e dos mecanismos
de sobrevivncia das espcies dos ecossistemas
deveriam ser uma fonte saudvel e, at certo ponto,
insubstituvel para as crianas se divertirem, serem
educadas e aprenderem a valorizar suas vidas. Mas
no o .
      Claro que estas espcies agem instintivamente
e ns agimos pela nossa intelectualidade, pela
capacidade que temos de elaborar raciocnios e
reflexes. S que nossas inteligncias so usadas
unifocalmente e no multifocalmente.
      A espcie humana  a nica que mata pelo
prazer de matar, sem qualquer necessidade; que
se aprisiona, embora ame desesperadamente a
liberdade; que se droga, embora deteste o crcere
da emoo.  a nica espcie cujos membros podem
perder o prazer de viver e desistir de sua prpria
vida.

                                                193
A pior priso do mundo

     Para onde caminhamos? Que tipo de futuro
se abre neste terceiro milnio para esta espcie que
possui a racionalidade, mas no honra a arte de
pensar? Todos somos responsveis indivi-
dualmente pelo destino de nossas vidas.
     Seria bom se aprendssemos a velejar dentro
de ns e revisssemos nossa trajetria existencial.
As drogas, os transtornos depressivos e ansiosos
so apenas a ponta do iceberg dos imensos
problemas que temos cultivado por no
aprendermos a dar um sentido mais nobre a nossas
vidas. Podemos no ser vtimas da droga qumica,
mas sem dvidas somos vtimas da droga da rigidez
intelectual, dos transtornos depressivos, da
ansiedade, do stress.
     As crianas tm crescido aos ps dos
videogames, dos jogos eletrnicos, dos filmes
agressivos das TVs, etc., e por isso, tm perdido o
romantismo pela vida.  preciso resgatar esse
romantismo, resgatar a nobreza do sentido da vida.

        Perdemos nossa identidade
           como seres humanos

     Somos prolixos para comentar sobre o mundo
em que estamos, mas emudecemos diante do
mundo que somos. Por isso, vivemos o paradoxo
da solido. Trabalhamos e convivemos com
multides, mas, ao mesmo tempo, estamos isolados
dentro de ns mesmos.
     Psiquiatras e psicoterapeutas tm tratado no
apenas as doenas psquicas, tais como depresses
194
                                 Augusto Jorge Cury

e sndromes do pnico, mas tambm uma
importante doena psicossocial: a solido. Porm,
no h tcnica psicoteraputica que resolva a
solido. No h antidepressivos e tranqilizantes
que aliviem a sua dor.
      Um psiquiatra e um psicoterapeuta podem
ouvir intimamente um cliente, mas a vida no
transcorre dentro dos consultrios teraputicos. O
palco da existncia transcorre l fora. No terreno
rido das relaes sociais  que a solido deve ser
tratada. L fora  que o homem deve construir
canais seguros para falar de si mesmo. Falar sem
preconceitos, sem medo. Falar sem necessidade
de ostentar o que se tem. Falar demonstrando
apenas aquilo que se .
      O que somos ns? Muito mais do que uma
conta bancria, um ttulo acadmico, um status
social, somos o que sempre fomos  seres
humanos. As razes da solido comeam a ser
tratadas quando aprendemos a ser apenas
seres humanos.
      O dilogo em todos os nveis das relaes
humanas est morrendo. A relao mdico-
paciente, professor-aluno, executivo-funcionrio,
pai-filho, marido-mulher carecem de interao e
profundidade. Falar de si mesmo  cooperar
mutuamente. E  difcil ter xito nessas reas. 
necessrio aprendermos a remover nossas
maquiagens sociais, mas, infelizmente, a grande
maioria prefere esconder-se: ficar ligado na TV,
plugado nos computadores ou viajar pela internet!

                                               195
A pior priso do mundo

      Ajudei, como psiquiatra e psicoterapeuta,
diversas pessoas das mais diferentes condies
socioeconmicas e de vrias nacionalidades.
Percebi que, embora gostemos de nos classificar e
de nos medir pelo que temos, todos ns possumos
uma sede intrnseca de encontrar nossas razes como
ser humano. Os prazeres mais ricos da existncia,
tais como a tranqilidade, a amizade, o prazer de
viver, o dilogo, a contemplao do belo, so
conquistados pelo que somos e no pelo que temos.
Infeliz  o homem que s consegue ser rodeado de
pessoas pelo que tem e no pelo que .
      A fbrica da fama e da hierarquia social 
psicologicamente doentia. O ator mais prestigiado
de Hollywood tem ou deveria ter tanta dignidade
quanto um habitante das favelas do Rio de Janeiro.
O homem mais rico do mundo, classificado pela
revista Forbes, assim como o mais miservel dos
africanos, possui os mesmos fenmenos
inconscientes que financiam gratuitamente a
construo da inteligncia. Gostamos de ser
diferentes e de estar acima dos outros, mas no cerne
da alma somos muito mais iguais do que
imaginamos.
      Quem consegue perceber que acima de nossas
contas bancrias, de status social, de cultura, somos
simplesmente seres humanos, est abrindo uma
janela para ver a vida sob outra perspectiva. Mesmo
que estejamos doentes, angustiados, deprimidos,
tensos, ansiosos e encarcerados no territrio da
emoo, nunca deveramos esquecer-nos de que

196
                                  Augusto Jorge Cury

nada neste mundo pode tirar a dignidade de ser
um ser humano, nico e insubstituvel. Toda pessoa
que se sente diminuda, inferiorizada, incapacitada,
esgota sua motivao de viver, esfacela sua
capacidade de superao e abandona a si mesma
na trajetria existencial.

        Mais belos depois do caos

      Freqentemente fazemos de nossas emoes
uma lata de lixo. Deixamo-nos invadir pelas
ofensas, rejeies e frustraes causadas pelos
outros. No apenas sofremos pelo que os outros
nos causam, mas tambm pelo que causamos a
ns mesmos. s vezes, nos tornamos nosso maior
carrasco. Infelizmente, no temos proteo
emocional e diante da menor contrariedade
sofremos um impacto muito grande. Quantas vezes
nos autopunimos e somos implacveis com nossos
erros! Por que no admitimos falhar?
      A farmacodependncia  uma doena grave;
uma doena no apenas causada pelos efeitos das
drogas na psique, mas causada pela passividade
do eu. Ela encarcera a emoo e aprisiona a
liberdade de pensar, principalmente nos focos de
tenso. Como disse, muitos usurios de drogas
queimam etapas em suas vidas. Vivem tantas
angstias, ansiedades, xtases, sentimentos de
perdas e momentos de desesperos que, em trs ou
quatro anos de dependncia,          acumulam
experincias que muitos de 80 anos jamais teriam
acumulado.

                                                197
A pior priso do mundo

      Eles se tornam velhos em corpos jovens.
Contraem o prazer pelos pequenos estmulos da
vida e s conseguem excitar sua emoo diante de
grandes aventuras. Relatando esses mecanismos
psicolgicos a um dos meus pacientes, ele,
condodo e com os olhos lacrimejando, confirmou
que se sente emocionalmente velho, desgastado e
sem motivao. Sente-se um velho, embora tenha
22 anos. Apesar de ser um brilhante estudante de
Medicina, o crcere das drogas tem esmagado sua
auto-estima e sua esperana.
      Um dos maiores riscos de quem procura
grandes emoes  se psicoadpatar aos pequenos
eventos da rotina diria e deixar de ter prazer neles,
tais como o sorriso de uma criana, o colorido de
uma flor, o dilogo descompromissado. Quem
busca desesperadamente apenas as grandes
emoes no consegue ter prazer nas pequenas
brisas que afagam o rosto.
       preciso enxergar as pequenas coisas
para se ter prazer nas grandes. Os usurios de
drogas precisam resolver no apenas o
dinossauro inconsciente da dependncia, mas
revisar a sua capacidade de sentir prazer,
reaprender a viver, reconstruir seus sonhos, refazer
suas relaes sociais.
       totalmente possvel resgatar a sade psquica
e resolver a farmacodependncia, mas no  um
caminho to simples. O problema no  reconhecer
o dinossauro da dependncia, mas refilm-lo,
reescrev-lo nos meandros da memria. O paciente
198
                                Augusto Jorge Cury

precisa cooperar muito, precisa entrar numa
empreitada teraputica e decidir resolutamente que
ele quer ser saudvel, custe o que custar, sofra o
que sofrer.
      Se algum der as costas  doena psquica
que aprisiona a sua emoo, seja ela depresso,
sndrome do pnico ou farmacodependncia, ela
se transformar num monstro indestrutvel; mas se
enfrent-la com coragem, resgatando a liderana
do eu, certamente ela se tornar uma pgina virada
de sua histria.
      No devemos ter medo de nossas doenas e
dificuldades. O medo transforma o eu num
espectador passivo de nossas misrias.  preciso
criticar o medo, no ter medo do medo, viajar
dentro de ns mesmos e nos transformarmos em
agentes modificadores de nossas vidas.
      No podemos nos esquecer de que
quando algum resolve a sua misria psquica,
fica mais bonito, interessante, experiente,
                                      arrebatador.
afetivo e humano. O resultado  arrebatador.
A doena psquica, quando resolvida, no se
torna um objeto de vergonha, mas um alicerce
da sabedoria.
      Aqueles que atravessaram o caos da
depresso, da sndrome do pnico, dos transtornos
obsessivos e conseguiram super-los, tornaram-se
realmente mais belos por dentro, mais sbios e
capazes de ajudar seus semelhantes.
      Do mesmo modo, os que passaram pelo caos
da farmacodependncia, incluindo o alcoolismo, e

                                              199
A pior priso do mundo

reescreveram a sua histria, hastearam a bandeira
da liberdade no territrio da emoo. Tornaram-
se mais ricos, afetivos e socialmente solidrios.
Porm, infelizmente, a maioria fica pelo caminho,
destri literalmente a mais cara de todas as
liberdades, a liberdade de pensar e sentir. Ser livre
e feliz, em detrimento de nossas turbulncias, no
deveria ser um jargo psicolgico, mas o destino
de todo ser humano.

   O Mestre da escola da vida nunca
   desistia da vida nem das pessoas

      Como pesquisador da Psicologia, tenho
estudado exaustivamente a humanidade de Cristo.
No passado, achava que Ele era fruto da
imaginao e da cultura humana. Porm,
analisando detalhadamente comportamentos,
reaes e atitudes do Mestre de Nazar contidos
nos textos dos Evangelhos, percebi que nenhum
escritor poderia idealizar um personagem como ele.
O resultado desse estudo psicolgico e, no,
teolgico, est sendo publicado na coleo de livros
Anlise da Inteligncia de Cristo.
      Estudar os meandros da Sua inteligncia, Seus
focos de tenso e Seus mecanismos de superao,
pode ajudar-nos muito a superar as nossas prprias
intempries e dar um novo sentido a nossas vidas.
Por isso, para finalizar este livro, gostaria de fazer
um breve comentrio sobre alguns aspectos da Sua
personalidade.

200
                                  Augusto Jorge Cury

      Cristo teve um nascimento indigno e uma
histria de turbulncias e aflies. Nasceu entre os
animais. No aconchego de um curral, Ele derramou
suas primeiras lgrimas. O ar saturado do odor
azedo de estrume fermentado ventilou pela primeira
vez seus pequenos pulmes. Provavelmente, at as
crianas mais pobres tm um nascimento mais digno
do que Ele teve.
      Quando tinha dois anos, deveria estar
brincando, mas j atravessava grandes sofrimentos.
Era perseguido de morte por Herodes. Tinha uma
inteligncia incomum para um adolescente e foi
admirado aos doze anos por intelectuais da poca.
Todavia, tornou-se um carpinteiro. As mos grossas
e o rosto castigado pelo sol escondiam a mais
elevada sabedoria que algum j teve. Discursou
sobre o amor, a tolerncia e o respeito humano
como nenhum pensador. Embora acolhesse as
pessoas mais desprezadas da sociedade e seus
discursos exalassem aromas de paz, Ele foi o mais
discriminado e incompreendido dos homens.
      Tinha, portanto, todos os motivos para ser uma
pessoa tensa, ansiosa, irritada e infeliz, mas para
nosso espanto, era uma pessoa alegre e tranqila.
Apresentou-se como uma fonte de prazer, uma fonte
de gua viva que matava a sede da alma humana.
Quem, no deserto mais escaldante, conseguiu,
como Ele, fazer de sua vida um osis inesgotvel
que saciava a sede dos sedentos?
      Por incrvel que parea, Ele fazia poesia at
mesmo de Sua misria. Muitos tm bons motivos

                                                201
A pior priso do mundo

para ser alegres, mas esto sempre insatisfeitos.
So incapazes de valorizar o que tm, apenas o
que no tm. Tornam-se especialistas em acusar
os outros pelos seus conflitos e detestam a vida
que possuem.
      Jesus, ao contrrio, tinha muito pouco
exteriormente, mas fazia muito do pouco. Nele no
havia sombra de insatisfao. Reclamao no
fazia parte do dicionrio de Sua vida. Nunca
acusava ningum por suas misrias. Era forte para
enfrentar Seus desafios sem precisar ferir nem
agredir ningum.
      Os homens podiam desistir Dele, mas Ele
nunca desistia de ningum. Tinha conscincia de
que O feririam sem piedade, mas Ele no se
suicidaria. Havia predito que O humilhariam,
cuspir-Lhe-iam no rosto e O tornariam um show
pblico de vergonha e dor, mas Ele permaneceria
de p, firme, fitando os olhos dos seus acusadores
e suportando com dignidade a Sua dor.
      A nica maneira de cort-Lo da terra dos
viventes era mat-Lo, extrair-Lhe cada gota de
sangue. Ele demonstrou que, mesmo diante do
caos, vale a pena viver a vida. Jesus Cristo foi o
Mestre da sensibilidade.
      A histria do Mestre da Galilia deve
ensinar-nos
ensinar -nos importantes lies de vida.
Podemos chorar e nos angustiar pelas nossas
dificuldades e conflitos, mas nunca devemos
                            Podemos
desistir de ns mesmos. Podemos nos abater,abater,
                 desanimar.
mas nunca desanimar. Devemos amar a
202
                                  Augusto Jorge Cury

perseverana como quem ama o melhor
amigo.
      A capacidade de recomear tudo quantas
vezes forem necessrias faz dos fracos, fortes. A
firme convico de continuar sempre lutando, ainda
que com algumas derrotas, alimenta o sonho da
vitria. Estar inconformado com nossas doenas e
com nossas misrias  o primeiro passo para sermos
saudveis. Enfrentar nossa passividade e sentimento
de incapacidade abre as portas da liberdade.
      O pior inverno pode anunciar a mais bela
primavera. Sbio  aquela pessoa que consegue
ver aquilo que as imagens no revelam.  a pessoa
que, ao ver cair a ltima folha do inverno,  capaz
de erguer os olhos e enxergar as flores da primavera
que ainda no brotaram.
      O Mestre era o nico na Sua poca que
conseguia ver o que ningum via.  sua frente, s
havia pedras e areia, mas Ele conseguia erguer os
olhos e ver os campos branquejando, embora
estivesse apenas lanando as primeiras sementes
na terra.
      Ele causou a maior revoluo da Histria, sem
desembainhar uma espada, sem usar qualquer
violncia. No precisamos revolucionar o mundo,
mas devemos revolucionar as nossas vidas, o nosso
esprito, a nossa capacidade de pensar e de ver a
vida. Se assim o fizermos, certamente estaremos
plantando um jardim onde antes s havia pedras e
areia.


                                                203
A pior priso do mundo

                    Bibliografia

Argyle M., A Psicologia e os Problemas Sociais   Sociais,
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Cecil  Loeb, Tratado de medicina interna Rio de
Janeiro, Interamericana, 1977.
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Cury, Augusto J., Inteligncia Multifocal So Paulo,
Editora Cultrix, 1998
Cury, Augusto J., Anlise da Inteligncia de Cristo
                Mestres,
O Mestre dos Mestres So Paulo, Editora Academia
de Inteligncia, 1999.
Cury, Augusto J., Anlise da Inteligncia de Cristo
O Mestre da Sensibilidade So Paulo, Editora
                 Sensibilidade,
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Cury, Augusto J., Drogas So Paulo, Editora Ondas,
1986.
Goodman e Gilman, As bases farmacolgicas da
teraputica So Paulo, Guanabara Koogan, 1983.
teraputica,
                                        bsica,
Levenson A.J., Psicofarmacologia bsica Andrei
editora, 1983.
Sanches A., Telles C., Murad J., Gonalves E., Tancredi
 .,                .,
F Charbonneau P Kanner R., Werebe S., Sanches V.,
Drogas e drogados So Paulo, E.P
           drogados,                 .U., 1982.
                    droga,
Olivenstein C., A droga So Paulo, Nova Fronteira,
1982.
                                             teraputica,
Miller O. et. al., Farmacologia clnica e teraputica
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Murad J.E., O que voc precisa saber sobre os
psicotrpicosA viagem sem bilhete de volta Rio volta,
de Janeiro, Guanabara Dois, 1982.

204
                                             Augusto Jorge Cury


      A Editora e Instituto Academia de
Inteligncia presta um servio gratuito ao
Pas ao relacionar as Clnicas e Instituies
que tratam da dependncia de drogas,
incluindo o lcool. Elas esto relacionadas
por Estado e cada uma tem suas normas
prprias de tratamento.
              Acre                                            Terapia
                                    Centro de Estudos e Terapia
Hospital Distrital Rio Branco                               (CETAD)
                                    de Abuso de Drogas (CETAD)
Atendimento Psiquitrico            Tratamento ambulatorial
Rua Rio Grande do Sul, s/n          Rua Pedro Lessa, 123
Rio Branco  AC                      Salvador  BA
Tel: 0xx68 - 223 2582               Tel: 0xx71 - 336 8673

            Alagoas                 Hospital Geral P rado Vaidares
                                                      Prado Vaidares
EAD - Centro de Estudos do          Tratamento ambulatorial e
Alcoolismo e Outras                 psiquitrico
                                    Rua So Cristvo, s/n
Dependncias  Hospital
                                    Jequi  BA
Portugal Ramalho
Tratamento teraputico e hospital   Tel: 0xx71 - 525 4117
Rua Gois, s/n
Farol  AL                                       Cear
Tel: 0xx82 - 223 5329               Fazenda da Esperana
                                    Atendimento Masculino
             Amap                  Estrada do Itap S/N
Secretaria Estadual de Sade        Pacatuba  CE
Atendimento ambulatorial e          Tel/Fax:0xx85 - 345 1220
indicao para clnicas em outros
estados                             Centro de Convivncia Elo
Avenida FAB, s/n Hospital Geral     da Vida
de Macap                           Encaminhamento ambulatorial e
Macap  AP                          desintoxicao
Tel: 0xx96 - 212 6143               Rua Vicente Nobre Macedo, s/n
                                    Messejana  CE
             Bahia                  Tel: 0xx85 - 229 3688
Clnica Vila Serena
                                    Desafio Jovem
Desintoxicao e internao
                                    Tratamento ambulatorial e
Loteamento Quintas do Piacaia,
                                    internao de no mnimo 5 meses
79A
                                    Avenida Ded Brasil, 565
Salvador  BA                        Parangaba  CE
Tel: 0xx71 - 378 1535               Tel: 0xx85 - 225 7230


                                                                 205
A pior priso do mundo


       Distrito Federal              Centro        de     Recuperao
Instituto de Desenvolvimento                            Peniel
                                     Desafio Jovem Peniel
Humano - IDUM                        Internao em casa de repouso
Internao de 3 meses com            Rua David Alexandria, 3857
acompanhamento posterior             Trs Lagoas  MS
Rodovia DF-130, Km 47  Chcara no7   Tel: 0xx67 - 521 1374
Rodovia DF-180  Chcara no118
Tel: 0xx61 - 500 3080                Centro      de    Orientao    e
                                     Atendimento ao Usurio         de
        Esprito Santo               Drogas
CPTT  Centro de Preveno e          Atendimento ambulatorial,
                Toxicamno
Tratamento Toxicamno                orientao familiar e
Clnica e hospital                   acompanhamento psiquitrico
Rua lvaro Sarlo, s/n                Rua Saldanha Marinho, 300
Ilha de Santa Maria  ES              Campo Grande  MS
Tel: 0xx27 - 222 0861                Tel: 0xx67 - 384 6224

              Gois                            Maranho
Movimento Jovens Livres              Fazenda da Esperana
Terapia ocupacional com              Atendimento Feminino e Masculino
internao de aproximadamente 10     Trav. Oscar Jansen, 158
meses                                Coroat  MA
Rua L-14, 150                        Tel/Fax: 0xx 98 - 641 1459
Bairro Feliz
Goinia  GO                                  Minas Gerais
Tel: 0xx62 - 261 3117                                      Toxicomania
                                     Centro Mineiro de Toxicomania
                                     Atendimento ambulatorial,
         Mato Grosso                 acompanhamento psiquitrico e
Secretaria de Estado da Sade        terapia ocupacional
Tratamento psiquitrico              Alameda Ezequiel Dias, 365
Rua D, quadra 12, lote 2             Belo Horizonte  MG
Centro Poltico Administrativo       Tel: 0xx31 - 273 5844
Cuiab  MT
Tel: 0xx65 - 313 2155                Ampare  Associao Mineira
                                     para Preveno ao Abuso de
      Mato Grosso do Sul             Drogas
Fazenda da Esperana                 Tratamento ambulatorial,
Atendimento Masculino                desintoxicao em fazendas do
R.Prof Etelvina Vasconcelos 629      interior do Estado
Rio Brilhante  MS                    Avenida Afonso Pena, 941 2oandar
Tel/Fax:0xx67 - 452 7367             Belo Horizonte  MG
                                     Tel: 0xx31 - 224 3656
Secretaria de Estado da Justia
Acompanhamento psicolgico e         Fuliban  Fundao Libanesa
abrigo para menores carentes         Tratamento ambulatorial
Parque dos Poderes, bloco 4          Rua Tom de Souza, 67 4oandar
Campo Grande  MS                     Belo Horizonte  MG
Tel: 0xx67 - 726 4044                Tel: 0xx31 - 221 9656



206
                                                Augusto Jorge Cury

Abraco  Associao Brasileira                   Pernambuco
para Preveno do Abuso de            Fazenda da Esperana
Drogas                                Atendimento Masculino
Atendimento ambulatorial              Caixa Postal 12
Avenida Portugal, 3291
                                      55290-000  Garanhuns  PE
Belo Horizonte  MG
                                      Tel/Fax : 0xx81 - 761 1506 /761 0353
Tel: 0xx31 - 441 9932

Centro Psicoterpico                  Centro Eulmpio Cordeiro de
Internao                            Recuperao Humana (CRHEC)
Rua do Contorno, 4910                 Atendimento ambulatorial
Belo Horizonte  MG                    Rua Rondnia, 100
Tel: 0xx31 - 225 4622                 Recife  PE
                                      Tel: 0xx81 - 228 3200
            Paraba
CAPS - Centro de Apoio Psicossocial
Tratamento psicoterpico,
                                                     Piau
ambulatorial para adolescentes de     Hospital Areolino de Abreu
7 a 19 anos                           Internao e desintoxicao
Rua Coronel Sergio Dantas, 3          Rua Primeiro de Maio, 2420
Bairro Jaguaribe                      Primavera  PI
Joo Pessoa  PA                       Tel: 0xx86 - 222 2910
Tel: 0xx83 - 221 0633
                                         Rio Grande do Norte
             Paran
             Paran                   Chcara Renascer
Fazenda da Esperana                  Internao de 21 a 28 dias
Atendimento Feminino
                                      Avenida Ayrton Senna, km 8,5
Caixa Postal 13015
                                      Jardim dos Eucaliptos
Mandirituba  PR
Tel: 0xx41 - 9976 8749                Nepolis  RN
                                      Tel: 0xx84 - 217 9900
Casa de Recuperao Nova Vida
Tratamento de dependentes com              Rio Grande do Sul
internao                            Fazenda da Esperana
Rua Amazonas Souza de Azevedo,        Atendimento Feminino
488                                   Linha 25- Vila Ftima
Curitiba  PR                          Marau  RS
Tel: 0xx41 - 264 4075
                                      Tel:0xx54 - 343 3044 / 342 3077
Comunidade Hermon
Tratamento de dependentes com         Fazenda da Esperana
internao em chcara                 Atendimento Masculino
Rua Santos Dumont, 2420               Caixa Postal 7
Colombo  PR                           Casca  RS
Tel: 0xx41 - 359 2372                 Tel/Fax :0xx54 - 347 1154 / 9926 0970



                                                                       207
A pior priso do mundo


 Cruz Vermelha Brasileira
         Vermelha                                 Psiquitrico     Pedro
                                       Hospital P siquitrico So Pedro
 Atende 15 pessoas novas por ms       Tratamento ambulatorial e
 Avenida Independncia, 993            internao
 Porto Alegre  RS                      Avenida Bento Gonalves, 2460
 Tel: 0xx51 - 221 5140                 Porto Alegre  RS
                                       Tel: 0xx51 - 339 2111
 Instituto F ernando Pessoa
             Fernando Pessoa
                                       Hospital da Pontifcia
 Acompanhamento ambulatorial
                                       Universidade Catlica  PUC
 Rua Castro Alves, 678
                                       Tratamento ambulatorial
 Rio Branco  RS                        Avenida Ipiranga, 6690
 Tel: 0xx51 - 222 3014                 Porto Alegre  RS
                                       Tel: 0xx51 - 339 1322
 Instituto Wilfred Bion
 Sees de psicoterapia com o apoio    Clnica Pinel
 da Igreja Luterana                    Internao
 Rua Gomes Jardim, 758                 Rua Santana, 1455
 Porto Alegre  RS                      Porto Alegre  RS
 Tel: 0xx51 - 223 5643                 Tel: 0xx51 - 223 7799

 Centro Vita                           Clnica So Jos
 Internao                            Desintoxicao e internao
 Rua Lombo Pinheiro, parada 4          Avenida Professor Oscar Pereira,
                                       4821
 Porto Alegre  RS
                                       Porto Alegre  RS
 Tel: 0xx51 - 336 1835
                                       Tel: 0xx51 - 336 9122
 Clnica Oliv Leite                   Clnica Wallace Mandell
 Atendimento ambulatorial e            Tratamento psiquitrico
 tratamento psiquitrico               Avenida Professor Oscar Pereira,
 Avenida Fernando Osrio, 1586         2751
 Pelotas  RS                           Porto Alegre  RS
 Tel: 0xx53 - 223 1295                 Tel: 0xx51 - 336 3409

 Clnica Pap
           Pap                                     Parque
                                       Hospital Parque Belm
 Internao                            Internao e atendimento
 Avenida Joo Pessoa, 925              ambulatorial
 Porto Alegre  RS                      Avenida Professor Oscar Pereira, 8300
 Tel: 0xx51 - 225 6566                 Porto Alegre  RS
                                       Tel: 0xx51 - 336 2155
 Desafio Jovem
                                       Unidade de Psiquiatria Intensiva
 Internao de meninos de rua.
                                       Internao, desintoxicao e
 Indica locais no interior do Estado   atendimento ambulatorial
 para desintoxicao                   Rua Lucas de Oliveira, 2040
 Chcara Nova Vida                     Bairro Petrpolis
 Serto Santana  RS                    Porto Alegre  RS
 Tel: 0xx51 - 672 1489                 Tel: 0xx51 - 333 3133


208
                                               Augusto Jorge Cury

Unidade Sanitria Nova Braslia                 Rondnia
Atendimento ambulatorial              Policlnica Oswaldo Cruz
Rua Vieira da Silva, 1016             Atendimento ambulatorial
Porto Alegre  RS                      Avenida Governador Jorge
Tel: 0xx51 - 340 1731                 Teixeira, s/n
                                      Porto Velho  RO
                                      Tel: 0xx69 - 224 1402
        Rio de Janeiro
Fazenda da Esperana - Stio          Comunidade Porto Esperana
Liberdade                             Internao de 8 a 10 meses
Atendimento Masculino                 BR-364 Km 28
Estrada Isaas Vidal S/N              Candeias do Jamari  RO
Caixa Postal 92402                    Tel: 0xx69 - 221 1251
Terespolis  RJ
Tel/Fax: 0xx21 644 7640 / 2595 1970
                                             Santa Catarina
                                      Fazenda da Esperana
                                      Atendimento Masculino
Centro de Convivncia Encontro        Rua Rosa S/N  Bairro Pantanal
Especializado no tratamento de        88040-270  Florianpolis  SC
dependncia de drogas e lcool.       Tel: 0xx48 223 1187 / 222 0203/
Rua Professor Carlos Eugnio                                222 0765
Mexias, 1.072
Baro de Vassouras                    Secretaria Estadual de Sade
                                      Atendimento ambulatorial e
Vassouras  RJ
                                      encaminhamento a centros de sade
Tel: 0xx24 - 471 1716                 Rua Esteves Jnior, 160 12oandar
Fax: 0xx24 - 47 11980                 Florianpolis  SC
Web Site: www.bbsvp.com.br/           Tel: 0xx48 - 224 5500
encontro/
                                      Hospital Nossa Senhora        dos
Clnica Vila Serena                   Prazeres
                                      Tratamento com internao
Desintoxicao e internao
                                      Rua Herclio Luz, 35
Rua Doutor Jlio Otoni, 571           Lages  SC
Bairro de Santa Tereza                Tel: 0xx49 - 24 1077
Rio de Janeiro  RJ
Tel: 0xx21 - 285 0696                               Paulo
                                                So Paulo
                                      Fazenda da Esperana
Nepad  Ncleo de Estudos e            Atendimento Feminino e Masculino
Pesquisas em A teno ao Uso          Caixa Postal 194
                                      Guaratinguet  SP
de Drogas
                                      Tel/Fax :0xx12 - 522.2427
Tratamento ambulatorial ligado 
Universidade Estadual do Rio de       Centro      Teraputico
                                                  Teraputico   Recanto
                                                                R ecanto
Janeiro (UERJ)                        Primavera
Rua Fonseca Telles, 121 4o andar      Recuperao de Drogas e lcool
Bairro de So Cristvo               Caixa Postal: 00027
Rio de Janeiro  RJ                    Valinhos  SP
Tel: 0xx21 - 589 3269                 Tel/fax: 0xx19 - 871 4914



                                                                    209
A pior priso do mundo

 Casa de Sade Santana                 Clnica Vila Serena
 Internao de dois a trs meses       Mnimo de 30 dias de internao
 Rua Valrio Giuli, 104                Rua Marseille, 100
 Bairro do Mandaqui                    Bairro da Vila da Represa
 So Paulo  SP
                                       So Paulo  SP
 Tel: 0xx11 - 298 5155
                                       Tel: 0xx11 - 520 9094
 Fundao Mokiti Okada
 Tratamento ambulatorial               Associao Promocional
 Rua Joaquim Tvora, 1030                            Trabalho
                                       Orao e Trabalho
 Bairro da Vila Mariana                Tratamento baseado na laboterapia
 So Paulo  SP                         e enfoque religioso
 Tel: 0xx11 - 575 1286                 Fazenda Vila Brandina
                                       Campinas  SP
 Hospital Geral de TaipasTaipas        Tel: 0xx19 - 251 5511
 Desintoxicao e tratamento
 ambulatorial                          Ncleo de Assessoria em Aes
 Avenida Elsio Teixeira Leite, 7000
                                       Preventivas
 Bairro da Parada de Taipas
                                       Preveno, tratamento ambulatorial
 So Paulo  SP
 Tel: 0xx11 - 3972 1490                e desintoxicao
                                       Rua Doutor Costa Jnior, 546
                          Pesquisas
 Uniad  Unidade de Pesquisas           So Paulo  SP
 em lcool e Drogas                    Tel: 0xx11 - 864 4213
 Tratamento ambulatorial ligado 
 Universidade Federal de So Paulo     Ambulatrio de Sade Mental
 Rua Napoleo de Barros, 771           de Cruzeiro
 Bairro da Vila Clementino             Tratamento ambulatorial
 So Paulo  SP                         Rua Doutor Othon Barcellos, 181
 Tel: 0xx11 - 570 2828                 Cruzeiro  SP
                                       Tel: 0xx12 - 544 3547
 Grea - Grupo Interdisciplinar
 de Estudos de lcool e Drogas
 Tratamento ambulatorial ligado ao     Ambulatrio Regional de Sade
 Hospital das Clnicas de So Paulo    Mental de Presidente Prudente
 Rua Doutor Ouvdio Pires de           Tratamento ambulatorial
 Campos, s/n                           Avenida Manoel Goulart, 2139
 Bairro de Cerqueira Csar             Presidente Prudente  SP
 So Paulo  SP                         Tel: 0xx18 - 221 4633
 Tel: 0xx11 - 3064 4973
                                       Ambulatrio de Sade Mental
 Hospital gua Funda                   de Ja
 Desintoxicao e tratamento           Tratamento ambulatorial e
 teraputico
                                       psicolgico
 Avenida Miguel Estfano, 3030
                                       Rua Campos Sales, 23
 Bairro da gua Funda
 So Paulo  SP                         Ja  SP
 Tel: 0xx11 - 577 8355                 Tel: 0xx14 - 622 3435



210
                                               Augusto Jorge Cury

Servios       Integrados       de   Atendimento ambulatorial
Psiquiatria    Ltda/     Sociedade   Rua da Bahia, s/n bloco 3
Potuguesa de Beneficincia de        Aracaj  SE
Santos                               Tel: 0xx79 - 241 2815
Tratamento ambulatorial,
desintoxicao e internao de 15                Tocantins
                                     Fazena da Esperana
a 30 dias
                                     Atendimento Feminino
Rua Monsenhor de Paula
                                     Av. Sebastio Salles Monteiro S/N
Rodrigues, 200
                                     Lageado  TO
Santos  SP
                                     Tel:0xx63 - 866 1930
Tel: 0xx13 - 232 3398
                                     Projeto Sade Escolar
                       Teraputica
Montan Comunidade Teraputica        Encaminhamento mdico e
Trabalho de reintegrao social e    psicolgico
12 passos do N.A.                    Esplanada Das Secretarias
Rodovia Anhanguera, Km 72            Centro  TO
Louveira  SP                         Tel: 0xx63 - 218 1762
Tel: 0xx19 - 878 2418
                                     Fazenda da Esperana
                                     Atendimento Feminino
Betel                                Linder Weg 5
Tratamento de farmacodepentes        14778 - RIEWEND
So Jos do Rio Preto  SP            Alemanha
Tel: 0xx17 - 233 1629                Tel: 0030838/ 40304
                                     Fax: 0030838/ 40319
Misso Restaurao                   e.mail: Gut-neuhof@-online.de
Tratamento farmacodepentes           Fazenda da Esperana
Bebedouro  SP                        Atendimento Masculino
Tel: 0xx17 - 342 5788                Gut Neuhot 2
                                     Neuhot 2
            Sergipe                  14641- Markee
Fazenda da Esperana                 Alemanha
                                     Tel: 0030214/51200
Atendimento Feminino                 Fax: 0030214/51202
Caixa Postal 43                      e.mail: Gut-neuhof@-online.de
Lagarto  SE
Tel: 0xx79 - 986 0560                       As clnicas e insti-
                                     tuies que no esto
Fazenda da Esperana                 relacionadas aqui e querem
Atendimento Masculino                ser catalogadas podem
Caixa Postal 43                      tambm       enviar    seu
Lagarto  SE                          endereo  Academia de
Tel/Fax : 0xx79 - 631 1175 /         Inteligncia,
                                     Inteligncia que ser
                  986.1243           includo nas prximas
Fax: 0xx79 - 631 3637                edies.


                                                                     211
A pior priso do mundo

                     MULTIFOCAL
        INTELIGNCIA MULTIFOCAL
            (editora Cultrix, So Paulo, 1998)

                        H livros que nos inspiram, que
                  nos emocionam, mas no modificam
                  a nossa histria pessoal. Mas h al-
                  guns que revolucionam a Cincia, es-
                  tilhaam os paradigmas intelectuais e
                  modificam para sempre a nossa ma-
                  neira de pensar o mundo e a ns mes-
                  mos.
                        Inteligncia Multifocal enquadra-
se nesta ltima categoria. Seu autor, o dr. Augusto
Jorge Cury,  um cientista terico, pensador humanista
da Psicologia e da Filosofia, psiquiatra, psicoterapeuta
e consultor de universidades para o desenvolvimento
da inteligncia multifocal. Suas idias so originais,
profundas, eloqentes e crticas. Unindo a Psicologia
com a Filosofia, ele abre as janelas da nossa inteli-
gncia, estimula-nos a desenvolver a arte de pensar e
desvenda-nos o complexo funcionamento da mente
humana.
      Atualmente, as teorias de maior impacto que
enfatizam a rea do desenvolvimento da inteligncia
so teoria da Inteligncia Emocional, de Daniel
Goleman, e a teoria das Inteligncias Mltiplas, de
Howard Gardner.
      Levando em conta o fato de que todos os proces-
sos de construo da inteligncia so multifocais, a
teoria proposta pelo dr. Cury tem sobre essas duas
teorias e sobre todas as outras a vantagem de ser
muito mais abrangente, pois envolve toda produo
intelectual, histrica, cultural, emocional e social cria-
da na trajetria da existncia humana.

212
                                      Augusto Jorge Cury

     Anlise da Inteligncia de Cristo
        O MESTRE DOS MESTRES
  (editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000)


      O mundo comemora o nasci-
mento de Cristo, mas as pessoas no
tm idia de como sua personalidade
era intrigante e sofisticada. Ele foi o
mestre dos mestres da escola da exis-
tncia, a escola da vida, uma escola
na qual muitos psiquiatras, intelectu-
ais e cientistas so pequenos aprendi-
zes.
      Este livro, ao estudar a inteligncia de Cristo, res-
gata uma dvida da Psicologia, que se omitiu at hoje
em pesquis-la, trazendo  luz as caractersticas da
personalidade Daquele que dividiu a histria da hu-
manidade.
      No importa o tipo de cultura, escolaridade, reli-
gio, status social e condio financeira que o leitor
desse livro tenha. Cristo  universal e investigar a Sua
inteligncia anima o pensamento, rompe o crcere
intelectual, expande a inteligncia, estimula a sabedo-
ria e enriquece o prazer de viver. Quem estud-la nun-
ca mais ser o mesmo.




                                                      213
A pior priso do mundo

      Anlise da Inteligncia de Cristo
       O MESTRE DA SENSIBILIDADE
  (editora Academia de Inteligncia, So Paulo, 2000)

                        Podemos estudar os grandes pen-
                  sadores, tais como Plato, Descartes,
                  Max Weber, Hegel, Darwin, Freud, to-
                  davia ningum teve uma personalida-
                  de to complexa, misteriosa e difcil
                  de ser compreendida como a de Jesus
                  Cristo. Ele no apenas causou perple-
                  xidade nos homens mais cultos de sua
                  poca, mas, ainda hoje, Seus pensa-
mentos so capazes de perturbar a mente de qual-
quer um que queira estud-Lo, livre de julgamentos
preconcebidos.
       As sementes que Ele plantou germinaram na men-
te e no esprito daqueles galileus e incendiaram o mun-
do. Ele causou a maior revoluo da Histria, entre-
tanto, no desembainhou uma espada e no usou de
qualquer violncia. Foi, sem dvida, o Mestre da sen-
sibilidade.
       A vida no O poupou. Do nascimento at  mor-
te, Ele passou pelas mais amargas situaes de sofri-
mento. Entretanto, para nosso espanto, Ele era uma
pessoa alegre e que irradiava tranqilidade. Tinha uma
habilidade mpar para gerenciar Seus pensamentos e
trabalhar as Suas angstias.
       Sua motivao para cumprir Suas metas era sur-
preendente. Ao cair da ltima folha do inverno, con-
seguia ver as flores da primavera.
       Estudar o Mestre da sensibilidade no apenas
nos encantar, mas nos far revisar as avenidas prin-
cipais de nossas vidas.
214
                           Augusto Jorge Cury

    Prximos lanamentos da editora




       - O Crcere da Emoo

             Coleo
 Anlise da Inteligncia de Cristo
        - O Mestre do Amor
      - O Mestre Inesquecvel




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       comentrio sobre este livro
         ou quiser divulg-lo em
 sua escola, empresa ou grupo social,
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   editora Academia de Inteligncia.
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                                         215
